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#Romances#Literatura Brasileira

O Seminarista

Por Bernardo Guimarães (1872)

Desprotegida como se via, sua pureza navegava entre mil riscos em um mar semeado de cachopos e sirtes traiçoeiras, e como lâmpada exposta a todos os ventos, mantinha-se como por um milagre. Não faltaram libertinos e sedutores, que dispondo dos favores da fortuna, da posição e da mocidade, empregassem inúteis esforços para arrastá-la ao lodo da prostituição; nem também amantes, que possuídos de sincero e verdadeiro amor, cobiçassem com ardor a posse do coração e da mão de Margarida.

Não era porém somente o inimigo externo, que ela tinha a temer. De temperamento ardente, de compleição sangüínea vigorosa, Margarida não era muito própria para manter por largo tempo a sua afeição na esfera de uma aspiração ideal de um celeste devaneio. Feita para os prazeres do amor e para as expansões ternas do coração, os instintos sensuais achavam em sua natureza estímulos de indomável energia; sua pudicícia teria infalivelmente naufragado no meio dos perigos que a rodeavam, se uma paixão casta e santa, que desde a infância lhe enchia o coração, lhe não servisse de broquel contra todas as seduções do mundo.

O anjo do amor puro velava desde o berço sobre a encantadora menina, e com suas asas cândidas afugentava para longe dela as larvas do gênio da devassidão.

Graças a este celeste talismã, Margarida, como um lírio de alvura deslumbrante, balanceava incólume e orgulhosa o cálix imaculado no meio da torrente turva e impetuosa, que lhe rugia em derredor.

Já perto de sete anos eram volvidos, desde que se partira o querido companheiro de sua infância.

Entregue à melancolia e ao desalento, Margarida, ainda que aparentemente robusta e sadia, sofria, um mal de coração, que lhe contaminava as fontes da existência. Uma organização de vigorosa têmpera, e sobretudo uma alma paciente e resignada, davam-lhe força apenas para não sucumbir e resistir tranqüila e quase risonha ao peso esmagador do seu infortúnio.

Ao seu aspecto, ninguém à primeira vista adivinharia que um germe de morte lhe ia solapando a existência. Era como um desses pomos, que ostentam na superfície a mais fresca e viçosa cor, e que entretanto trazem no âmago já bem adiantado o germe da destruição.

Uma esperança e um dever lhe alentavam o ânimo, lhe vigoravam o corpo, e davam-lhe força e vontade para viver. Era a esperança de ver ainda um dia o seu querido Eugênio, e o dever de viver para sua pobre e desamparada mãe.

A sorte despiedosa em breve a livrou de um desses cuidados, tornando ainda mais triste e precária a sua situação. Umbelina afrontada de desgosto, velhice e enfermidades faleceu deixando a pobre órfã mais desvalida e angustiada que nunca. Um feroz destino como que se comprazia em recalcá-la cada vez mais na voragem do infortúnio.

Ela porém resistia ainda alentada por uma última esperança — a mais doce de toda a sua vida -, a volta de Eugênio -, de Eugênio, que, solto de seu ergástulo monástico e livre do jugo da autoridade paterna lhe vinha ofertar o braço, e conduzila ao altar para receberem a santificação daquele amor, que com eles havia nascido, e com eles devia morrer. Esta última esperança, tímida e vacilante como luz de estrela moribunda, prestes a afogar-se no seio de um vulcão, era o único e débil fio que ainda a prendia à existência.

Desditosa Margarida! ainda não havia esgotado todo o fel do cálix da amargura que a fatalidade lhe havia destinado. Faltava-lhe ainda a última gota, a mais amarga de todas.

Poucos meses depois da morte de Umbelina, chegou aos ouvidos de Margarida a notícia, de que Eugênio havia tomado ordens. Dai em diante a desgraçada moça não contou mais com a vida.

O mal que a afligia tomou subitamente proporções assustadoras.

O sangue rico, juvenil e ardente da moça, agitado pelas violentas inquietações e padecimentos da alma, precipitava-se tempestuoso pelas artérias, e solapando os vasos centrais da, circulação, ameaçava rompê-los. O histerismo também de quando em quando lhe enrijava os músculos, e lhe excitava no cérebro abrasado terríveis e deploráveis alucinações.

Era sol posto. Margarida debruçada à janelinha do seu quarto de dormir, olhava para os campos, que se estendiam por detrás de sua casa, entregue a uma tristeza mortal.

O sino da matriz badalou Ave-Marias.

Margarida levantou-se e começou a rezar o ângelus. Uma súbita ansiedade afrontando-lhe o coração sufocou-a e quase a lançou por terra sem sentidos. Margarida teve um triste pressentimento.

— Minha tia — disse ela à sua velha parenta, que nesse momento ia entrando no quarto -, estou muito doente; de um momento para outro posso expirar; parece-me que tenho gangrena no coração. Mande-me chamar o vigário; quero-me confessar.

— Não fales assim, menina!... chamar o vigário para quê?... o que é que estás sofrendo então, minha filha?

— Tenho umas ânsias que me apertam o coração, e quase me sufocam. Ainda agora escapei por pouco de cair em terra.

— Isso são vertigens, menina, não é caso para já pedir confissão; bem mostras que nunca tiveste moléstia nenhuma; por isso te assustas com tão pouco... ah! que diria se sofresses os meus achaques!... eu vou fazer um chá de melindre, que para aflições de coração é um prodígio; verás como hás de te dar bem com ele... sossega; que isso não há de ser nada.

(continua...)

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