Por Bernardo Guimarães (1872)
Mas o povo, que compreende melhor a infinita misericórdia divina, e tem mais fé nelas do que os próprios ministros da religião, cravou sobre a sepultura uma cruz de pau toscamente lavrada; – à sombra desse símbolo santo toda a terra é sagrada.
Joaquim Ribeiro também não consentiu que a filha fosse enterrada no cemitério comum; não queria afastar-se, nem mesmo na morte, daquela que tanto idolatrara na vida. Não podendo guardar aqueles restos queridos em um magnífico túmulo de mármore, porque naqueles sertões faltava-lhe tudo – o artífice e a matéria – mandou benzer e cercar um pequeno terreno no alto de uma risonha colina que ficava à vista da casa, não muito além do sítio em que dormia o eterno sono o desafortunado Roberto, e ali guardou no seio da terra aquele depósito sagrado. Mandou depois erigir ali uma capelinha singela, mas alva e asseada, que se divisava a grandes distâncias servindo de farol ao viandante por aquelas vastas e descampadas solidões.
Ali o velho e infeliz pai ia rezar todos os dias, até que pouco tempo depois ali foi também repousar ao lado de sua filha.
Contava o povo, que um triste noitibó, que todas as noites fazia seu pouso nos braços da cruz da sepultura de Roberto, saía de lá alta noite soltando guinchos lamentosos, e vinha pousar nos muros do cemitério; e que uma pomba alva como neve saía batendo as asas da sepultura de Paulina, e desaparecia nos ares.
Era, dizia o povo supersticioso, a alma de Roberto, que andava penando em busca de Paulina, que fugindo sempre dele ia se esconder no céu.
Assim o sempre infeliz Roberto, bem como durante a vida, viera também depois de morto repousar e suspirar ainda junto daquela, por quem seu coração havia suspirado em vão durante a vida inteira.
Eduardo desapareceu, e ninguém sabe ao certo o que fora feito desse mal-aventurado moço.
Correu fama de que se retirara para a Bahia e que aí tomando o burel de frade morrera pouco tempo depois em um convento.
Jupira
Capítulo I
Jupira estava sentada à sombra de uma canjerana ainda nova, de folhagem mui viçosa e cerrada, que dava fresquíssima sombra. Estava tecendo um cabaz de palhas de buriti, enquanto sua mãe, índia algum tanto idosa, a alguns passos de distância moqueava um gordo e grande tiú.
Era isto à margem do Rio Grande de Minas, algumas léguas acima das paragens onde ele, reunindo-se ao Parnaíba toma o nome de Paraná.
Como a pequena árvore, que lhe prestava sombra, Jupira era também uma flor nova das selvas, que apenas abria o cálix às virações do deserto; uma linda caboclinha de treze a catorze anos, mas de tez um pouco mais clara do que a das suas companheiras da floresta. Era no veranico de janeiro; o rio estava baixo, e na larga zona de areia, que mediava entre ele e a floresta que o bordeja, viam-se dispersos alguns bugres de ambos os sexos, uns pescando ou banhando-se, outros dormindo ou comendo. O sol ardentíssimo do meio-dia reverberava no seio do rio e nas areias da praia, a ponto de ofuscar as vistas; estava um calor insuportável.
Pouco abaixo daquele grupo via-se um indígena de formas truculentas e vigorosas cortando as águas em todas as direções, ora nadando com rapidez, ora boiando à flor do rio, ora sumindo-se de mergulho na profundez dos rebojos, e era preciso olhar com muita atenção para ver que tinha em uma das mãos uma delgada linha. Ninguém diria que ele estava pescando. O índio pesca à linha os grandes peixes, quase como quem persegue um veado ou uma anta através de campos e florestas. Com um pequeno anzol ou fisga, e uma linha de tucum da grossura de um fio de barbante, pescam não só os pequenos bagres e pirapitingas, como os corpulentos dourados e curumatãs, e o jaú, que atinge às vezes o tamanho de um homem de alta estatura, e tem a força de um touro. Apenas o peixe ferra a isca, e que o índio o percebe fisgado, em vez de procurar puxá-lo à terra, salta na água e dá-lhe corda, acompanhando-o em todas as voltas que lhe apraz dar pelo rio, tenteando a corda de modo que não se quebre, como quem tempera as rédeas a um poldro bravio e fogoso. A própria força do peixe arrasta o índio e o ajuda a romper as águas sem fatigar-se muito, e assim ora pairando à flor do rio, ora cortando-o veloz como uma seta, ora sumindo-se nos escuros abismos, o índio acompanha todos os seus movimentos, até que o peixe extenuado de cansaço se deixa facilmente arrastar para a praia.
Depois de ter gasto cerca de meia hora naquelas evoluções, o índio surgiu à praia agarrando pelas guelras com ambas as mãos e arrastando a custo um enorme peixe que media a altura de seu corpo, e ainda a cauda vinha abrindo um sulco pela areia, e dirigiu-se à sombra onde se achava a linda caboclinha.
– Uff!... Jupira!... – exclamou largando o peixe e deixando-o estourar
no chão; – sei que não gostas do tiú, que é o que tua mãe tem para te dar, e fui ao fundo do rio buscar esse peixe para ti; custou-me bem a arrancá-lo da água. Fala, menina, qual desses teus fracos companheiros é capaz de lutar no fundo da água com um peixe destes?...
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. Histórias e tradições da Província de Minas Gerais. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2142 . Acesso em: 24 fev. 2026.