Por José de Alencar (1875)
Nem é de admirar se encontrasse na morada de nossos antepassados essa semelhança com os conventos, quando o teor da vida íntima tanto se parecia com a regra monástica, e as mulheres tinham no seio da família o mesmo recato das freiras.
Pareceu a Marcos Fragoso que por detrás da primeira das rótulas se haviam condensado umas sombras vagas, as quais ao proferir êle as últimas palavras se agitaram para logo dissiparemse.
Suspeitara o mancebo que uma daquelas sombras era de D. Flor e porisso lhe dirigira com um olhar o galanteio, que afugentou por momentos o vulto curioso.
Não se enganara Marcos Fragoso. Eram efetivamente D. Flor e Alina que tinham vindo espreitar os hóspedes pela rótula, não sótrazidas de impulso próprio, como também a recado de D. Genoveva, que as mandara escutar quem eram os forasteiros e qual o motivo os trazia à Oiticica.
Era costume de casa, e não só desta como de todas as grandes fazendas, não deixar partir os hóspedes sem os regalar; e isso usavam os ricaços, não tanto por obséquio e satisfação dos estranhos, como principalmente por ostentação do fausto com que se tratavam.
Não perdiam ocasião de fazer alarde da suntuosa baixela de ouro e prata, de que especialmente se ufanavam, e na qual fundiam tal quantidade de metal precioso que chegaria em nossos tempos para levantar um palácio.
Logo que o capitão-mór saíu a receber com mostras corteses os hóspedes, D. Genoveva ordenou os aprestos necessários para regalo, o qual em poucos instantes, e como por arte mágica, estava servido sôbre uma mesa coberta de tão ricas alfaias que lembravam os banquetes das Mil e uma noites.
— Chame o sr. capitão-mór, disse D. Genoveva a um criado.
Êste foi à porta da sala, abriu-a de par em par, e disse perfilando-se:
— Está na mesa.
O capitão-mór fez com a cabeça um gesto afirmativo que significava estar ciente, e voltouse para os hóspedes:
— O senhor capitão Marcos Fragoso e seus amigos sem dúvida dão-nos o gôsto de jantar na Oiticica; mas enquanto não chega a hora, vamos tomar algum refrêsco.
— Se nos dá licença, ficámos de jantar no Bargado onde nos esperam, tornou o capitão Fragoso, que não queria abusar da hospitalidade, talvez para melhor usar dela mais tarde.
— Como queiram; não deixarão, porém, nossa casa sem bebermos um copo em honra da visita com que nos obsequiaram.
— Certamente que não faltaremos a tão grato dever.
À mesa não apareceram nem D. Genoveva, nem as duas moças. O capitão-mór unicamente, acompanahdo de seu ajudante Agrela e de seu capelão, padre Teles, fez as honras do banquete.
Era meio-dia, quando os viajantes despediram-se do capitão-mór Campelo, depois de agradecerem a fidalga hospitalidade que tinham recebido. Montando a-cavalo partiram, seguidos pelos pagens.
Quando transpunham o terreiro, ao capitão Fragoso voltou-se de chofre e logrou seu intuito surpreendendo na janela as duas moças que estavam a espiar a cavalgada. O mancebo inclinou-se, cortejando-as com o chapéu.
Enquanto D. Flor respondia ao cortejo com polido recato, Alina, que se esquivara vergonhosa, avistou de repente entre a ramagem das árvores, o vulto de Arnaldo, cujas feições tinham nesse momento sinistra expressão.
O sertanejo, do lugar sobranceiro em que se achava, de pé sôbre a carcaça de um velho angico derrubado, fitava o olhar cheio de ameaças no capitão Marcos Fragoso. Quando o raio dêsse olhar perpassou pela janela, a moça estremeceu de terror, e não pôde conter um débil grito, que rompeu-lhe do seio.
— Que é? perguntou D. Flor voltando-se.
— Não é nada. Um susto à-toa.
— De que?
— Nem eu sei. Alí no mato…
— Alguma onça, como esta manhâ?
— Sim: creio que foi.
Entretanto a cavalgada descia a encosta e desaparecia na volta do caminho.
Arnaldo viu-a passar imóvel, mas abalado por ardente emoção. Depois que perdeu de vista os cavalheiros, aplicou o ouvido aos rumores que ia levantando pelo caminho o tropel dos animais. Sua alma arrastada por uma cadeia misteriosa acompanhava aquele homem que viera perturbar-lhe a existência, e não podia desprender-se do elo a que estava soldada para sempre.
Quando afinal apagou-se o último ruído da cavalgada, Arnaldo vergou a cabeça ao peito e assim permaneceu longo trato, imerso em tristeza profunda e acabrunhado por uma dôr imensa, como nunca sentira.
XVII – A jura
Absorto como estava, o sertanejo afastou-se maquinalmente da casa, na direção da serra.
Não tinha conciência do que se passava em tôrno de si; não via os objetos que o rodeavam, nem ouvia os rumores da solidão; mas guiava-o através da floresta o admirável instinto do filho das brenhas, êsse sentido delicadíssimo que vela sempre e adverte ao vaqueano da aproximação do perigo, antes que os outros órgãos possam denunciá-lo.
A-pesar-de inteiramente alheio a si, o mancebo caminhava com extrema cautela por entre o mato, como quem, receoso da batida ordenada pelo capitão-mór, tratava de escapar-lhe.
(continua...)
ALENCAR, José de. O Sertanejo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1848 . Acesso em: 27 jan. 2026.