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#Romances#Literatura Brasileira

O Gaúcho

Por José de Alencar (1870)

Desde 1832, quando se realizou em Jaguarão o desarmamento de D. Juan Lavalleja pelo coronel Bento Gonçalves da Silva, plantaram-se na província os germes de uma conspiração, no sentido de proclamar a independência da república. O caudilho oriental tinha empregado os maiores esforços para fomentar essa propaganda, que favorecia seus planos de trêfega ambição. 

Data desse tempo a criação das sociedades secretas, ramificadas por todos os pontos da província. Aí se preparavam, sob a invocação de liberdade, os elementos políticos para a revolução, cuja tendência real havia de ser determinada no momento pelos homens de influência, que assumissem a direção dos acontecimentos. 

Retirando-se da província, onde permanecera algum tempo, Lavalleja, de volta a Buenos Aires, obteve para o futuro estado a proteção secreta de Rosas, já elevado à ditadura, pela necessidade da salvação pública, como o declarou o congresso. Acompanhara ao caudilho o Fontoura, que tão saliente papel veio a representar na república de Piratinim. Naturalmente assistiu ele às conferências onde se planejou a grande Confederação do Prata, formada dos três estados independentes: de Buenos Aires sob a ditadura de Rosas, Montevidéu sob a ditadura de Lavalleja, e Rio Grande sob a ditadura de Bento Gonçalves. 

Nesse partido que se preparava para a resistência armada, havia uma fração que era francamente republicana, e aspirava à independência para formação de um estado unido da grande  Confederação do Rio da Prata. O espírito republicano dominava essa fração a tal ponto que desvanecia de momento a repugnância tradicional das duas famílias da raça latina. Mais tarde essa antipatia se teria de manifestar, como sucedeu com a Cisplatina. 

Neto e Canabarro eram a alma da opinião republicana. 

A outra fração muito mais numerosa do partido da resistência não tinha idéias de separação e independência. Limitava-se a restaurar e manter o que chamava liberdade, palavra tão vaga na linguagem dos partidos, que em seu nome se cometem os maiores atentados contra a lei e a justiça. 

A essa numerosa parcialidade, da qual era chefe incontestado Bento Gonçalves da Silva, o homem de maior influência na província, aderiram sinceramente não só os liberais da campanha como a classe militar, decaída do antigo lustre com a política democrática e pacífica, inaugurada pela revolução de 7 de abril. 

Assim, por uma contradição muito freqüente em política, dois interesses opostos, mas ofendidos, se reuniam para destruir o obstáculo comum. É o efeito dos governos fracos e perplexos como foi o da regência trina; sofrem ao mesmo tempo a irritação dos aliados e o desprezo dos adversários. 

Por muito tempo Bento Gonçalves, apesar da sedução do mando supremo, que sorria à sua ambição, resistiu às instâncias do grupo republicano. A história lhe fará essa justiça: que sua energia, a lealdade de seu caráter, e o grande prestígio de seu nome, contiveram a revolução, desde muito incubada no ânimo da população. 

Porventura não atuaria  no espírito do coronel o princípio monárquico tão fortemente quanto o sentimento da nacionalidade e sobretudo da dignidade da raça. Como brasileiro devia repugnar-lhe a comunhão com os povos de origem espanhola, que ele, veterano encanecido nas pelejas, havia combatido desde os primeiros anos. 

Nem podia escapar à sua perspicácia o futuro que estava reservado ao Rio Grande, na sonhada confederação. Fora preciso cegar-se completamente para não conhecer que o novo estado seria mais uma presa do caudilho feliz, que nos devaneios de sua ambição aspirava à restauração do antigo vice-reinado de Buenos Aires, para trocar então por uma coroa o chapéu de ditador. 

Receoso da agitação que se manifestava na província, o governo da regência chamara à corte Bento Gonçalves, e afirma-se que ele voltara disposto a empregar sua influência em bem da ordem pública. A verdade é que, embora acusado de excitar os ânimos, não se aproveitou para proclamar a revolta de tantas ocasiões que lhe ofereceram repetidos motins, especialmente o de 24 de outubro de 1834. 

Bem longe de defender a revolução, a julgou talvez com extrema severidade. Não foi unicamente um crime político, um atentado à integridade do Império, foi mais do que isso: foi um grande erro que felizmente não se consumou. A separação do Rio Grande seria um sacrifício de sua nacionalidade, que brevemente ficaria absorvida, senão aniquilada pela anarquia das repúblicas platinas. Não se decepa um membro para dar-lhe força. 

A história, superior às paixões, restabelecerá a verdade dos fatos. Não é meu propósito antecipá-la. Dessa página apenas destaco o vulto do homem que figurou como protagonista da tragédia política, em cuja cena também se representou o drama simples e obscuro que me propus narrar. 

(continua...)

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