Por Visconde de Taunay (1871)
A 22 apenas andamos três quartos de légua, pois dependíamos inteiramente das juntas que puxavam os canhões e ainda na véspera quase não tivera o gado o que beber. Mal dera o minguado filete, junto ao qual acampáramos, água bastante para os homens.
Tivemos de parar, forçadamente, junto a um brejo, cuja vestimenta era bastante capaz de dar algum alento aos nossos animais. Aí ficamos encostados a um mato que, felizmente, ia até um riacho chamado Prata, o primeiro afluente meridional do Miranda, como Lopes no-lo disse. Já, portanto, nos abeirávamos desse caudal, objeto de tantos anseios.
Uma vez neste lugar, entendeu o Coronel que nada obstava informar a gente de Nioac de nossa proximidade e da do inimigo. Estava o caminho livre, pela mata do Prata, que se perde na do Miranda; não correndo risco algum quem a atravessasse. Para esta comissão escolheu dois homens corajosos, afeitos à vida do mato, caçadores sabidos daquelas terras.
Fora o bilhete, que se lhes deu, endereçado ao coronel honorário que comandava o depósito redigido em francês para, pelo menos, escapar às probabilidades mais fortes de divulgação. Noticiava em suma que a coluna batera em retirada; e, provavelmente, atingiria Nioac antes do inimigo, convindo, no entanto, transportar para lugar seguro e o mais depressa possível, as munições, os víveres, o arquivo, e alguma bagagem dos oficiais. Era, sobretudo, necessário que toda a tropa disponível marchasse às ordens do capitão Martinho a emboscar-se para deter os paraguaios, caso aparecessem.
A 24 chegavam os mensageiros à colônia de Miranda ali encontraram os negociantes que com a lentidão habitual haviam retrocedido, tendo achado, ainda, avolumados pelas chuvas, os grandes rios, que evitáramos graças à estrada pela fazenda do Jardim. Deixando este comboio à retaguarda, a 27 atingiram Nioac os nossos correios, com a missiva do comandante, divulgando o que em nosso acampamento haviam presenciado, assim como todos os boatos sinistros de que se fizeram ecos mercadores em caminho.
A 25 progredimos cerca de légua e meia, considerável esforço, pois os nossos soldados válidos quase todos se empregavam em carregar as padiolas dos enfermos e destes padioleiros, vários, subitamente atacados, em vez de ajudarem aumentavam a carga.
As contínuas convulsões dos agonizantes ainda e de tal modo agravavam esta faina horrivelmente penosa que os soldados, estafados, punham-se de repente, como à porfia com os coléricos, a soltar selvagens gritos impacientes, ameaçando arriar e abandonar o fardo.
Só algumas redes, ocupadas por oficiais, conservavam certo decoro lúgubre: jamais esqueceremos o belo rosto resignado do tenente Guerra, moço exemplar, filho único de uma viúva que nunca o tornaria a ver... Neste dia! ao incêndio precedeu um ataque de atiradores . Repeliram-no alguns dos nossos e o fogo também passou; mas o outro inimigo, a cólera, o adversário oculto, redobrou os golpes com que nos feria, a ninguém perdoando Desapareceu no mesmo dia uma família inteira; pai, mãe e filho em horas fulminados juntos. De inanição pereceu uma criança de peito que, dos braços da mãe moribunda, passara aos do pai e deste aos de camaradas, que também não tinham alimento algum.
Soubemos que dois soldados haviam enlouquecido. Assim se explicavam os gritos, cujas notas estridentes se haviam associado aos ruídos que habitualmente nos afligiam; lamentos, furores e desespero. Outro mal começou: a deserção; desapareceram vinte e quatro soldados da linha de defesa do acampamento.
E no entanto impossível lhes era escapar à morte pela fome ou às mãos do inimigo. A datar deste dia não houve, no mato, moita onde se não escondesse algum fugitivo. Abandonaram-nos os nossos índios Guaicurus, não conseguindo mais detê-los o receio do fado que os aguardava, se os paraguaios os apanhassem.
Tais os incidentes que entre nós ocorriam. Embora dizimados, serenamente mantinham os oficiais o espírito geral da corporação; uns procuravam os outros reuniam-se, trocavam palavras amigas e de bom conselho. Esta serenidade d'alma só era natural entre homens de têmpera especial como José Tomás Gonçalves,
Pisa-flores e Marques da Cruz; ou excepcionalmente fortes como Lago, Catão e José Rufino. A mesma atitude impassível tornava-se em outros igualmente notada, embora menos energicamente constituídos. Tomava, no tenente-coronel Juvêncio, laivos de melancolia ao lembrar-se da família. Quanto ao comandante este se reconcentrava em sua dignidade e no sentimento do dever. Aproximava-se a hora em que, a tal respeito, nos daria as mais extraordinárias provas.
(continua...)
TAUNAY, Visconde de. A Retirada da Laguna. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17499 . Acesso em: 28 fev. 2026.