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#Romances#Literatura Brasileira

O Garimpeiro

Por Bernardo Guimarães (1872)

-também a casa é tão pequena, é como esta mais ou menos, e está tão escondida no mato, que mal se avista.

- Então são tão pobres como nós? . . .

- Assim parece, ou talvez mais ainda, coitados; mas parece ser muito boa gente. Quando fui apanhar água fresca numa fonte que há para lá da casa, pediram-me para encher o pote, e estive conversando um pouco com eles. O homem estava para dentro; mas a menina é muito dada e muito meigazinha; a moça é também muito boa e bonita, meu moço, bonita até ali. . . mas não sei que tem, que anda tão triste! . . . comparando mal, parece uma imagem de Nossa Senhora das Dores.

- Pois de todo não sabes quem é essa gente? de onde é? de onde veio? perguntou com sÔfrega curiosidade Elias, a quem um súbito pensamento tinha atravessado o espírito.

- Nada sei de todo.

- Um velho, uma moça e uma menina, não é o que disseste?

-tal e qual.

- Um velho alto e cheio de corpo. . .

Isso mesmo.

- A menina é morena e terá dez ou onze anos. A moça é clara, bem feita, olhos grandes, cabelos castanhos. . .

- Justamente! . . . pelo que vejo, são seus conhecidos? . . .

- Parece-me que sim.

- Um velho, uma moça, uma menina! refletiu consigo Elias, e com estes sinais! não podem ser outros. O Major estava em vésperas de completa ruína! . . . infeliz família! . . .

- E não tiveste ocasião, continuou Elias, de ouvir o nome de alguma das pessoas da família! . . .

- Acho que sim. . . espere. . . Ah! agora me lembro. . . ouvi o velho chamar lá de dentro a moça pelo nome de. . . de. . . Lúcia.

- Lúcia! . . . que nome divino acabas de pronunciar, minha boa velha! são eles mesmos! é ela! . . . ah! desventurada Lúcia! e mais desventurado de mim, que não posso valer-te! . . .

- Estou vendo que essa moça é o anjo de que Vmcê. Há pouco falava? . . .

- É, minha velha, é ela mesma. E dirás ainda que os anjos não andam cá pela terra? . . .

Elias não teve mais sossego, e levantou-se imediatamente. Só a idéia de que ali tão perto dele achava-se Lúcia, davalhe vigor e alma nova. Era impetuoso, irresistível o desejo de vê-la; mas ao mesmo tempo a lembrança da pobreza, em que ia encontra-la, o contristava e enchia-lhe de amargura o coração. Vieram-lhe ao espírito todos os tristes transes de sua vida passada, e refletiu amargamente sobre os cruéis e estranhos caprichos da sorte. Ele, que outrora fora quase que despedido da casa do Major, e considerado indigno de pôr os olhos em sua filha, ele que há poucos dias fora tratado desabrida e brutalmente em casa do mesmo Major por amor de um infame aventureiro, ele o via esse mesmo Major, a seu lado, tanto ou mais miserável do que ele próprio. Se tivesse alma maldosa e vingativa, oferecia-lhe então uma bela ocasião de espezinha-lo humilhando- o com a sua visita; a sua presença por si só seria um sarcasmo vivo que devia encher de confusão e vergonha aquele homem outrora tão fátuo e ambicioso. Mas Elias nada tinha de vingativo e rancoroso. Sua alma nobre era incapaz de desrespeitar o infortúnio de quem tanto adorava.

Entretanto crescia-lhe o desejo cada vez mais impaciente de ver Lúcia. Passado o abalo e a comoção violenta dos primeiros dias, e enfraquecido o corpo pela enfermidade, acalmou-se a irritação do espírito do infeliz mancebo, começou a refletir com mais frieza, e uma voz interior como que o advertia de que Lúcia era inocente, e o amava ainda como sempre, e que algum motivo muito poderoso a forçara a condescender com a vontade de seu pai.

Posto que ainda bastante fraco, Elias parecia lesto e disposto como em seus dias de perfeita saúde; uma força interior o reanimava como por encanto. Seu primeiro cuidado foi ir ver, ainda que a certa distância, a casinha em que viera habitar a família do infeliz major. Era uma tosca choupana, a última que se via à orla do caminho que seguia rio acima para o comércio de Mundim. Mas essa choupana aos olhos de Elias tinha mais encantos que um palácio: era o templo que encerrava uma divindade.

Sentado sobre a relva que se estendia pela encosta acima em frente de sua casinha, esteve por largo tempo contemplando- a e examinando- a minuciosamente; mas não viu ninguém. Apenas a fumaça que saía pelo telhado, e algum rumor confuso de vozes atestavam que a choupana era habitada. Depois de estar ali mais de uma hora a contemplar a casa, e embebido em mil pensamentos, ora risonhos e esperançosos, ora amargos e sombrios, a porta se abriu, o Major saiu, e imediatamente a porta se fechou. Envolvido num largo sobretudo, chapéu de pêlo de lebre, carregado sobre os olhos, a cabeça descaída sobre o peito, arrimando-se a uma grossa bengala, lá ia o Major a caminho da povoação.

Ao vê-lo, Elias teve o mais profundo dó e sentiu apertar-lhe o coração. Como estava a certa distância do caminho, o Major passou sem vê-lo.

(continua...)

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