Por José de Alencar (1875)
— Êste amigo é o capitão João Correia, do têrço do Recife; estoutro é o licenciado Manuel da Ailva Ourém, de Lisboa, que veio visitar e conhecer nossos sertões; aquele é o alferes Daniel Ferro, filho do dono das Flechas nos Inhamuns, ambos meus parentes e vizinhos.
— Estão todos em sua casa, disse o capitão-mór, convidando-os a sentarem-se.
Depois de alguns cumprimentos dos recém-chegados e encarecimentos das excelências,
granjeio das terras e boa casaria, o capitão-mór disse, retribuindo a cortesia:
— Vão os senhores ver também a fazenda do Bargado que é das mais belas dêste Quixeramobim. No tempo em que alí morava o finado coronel Fragoso, poucos podiam competir com ela; mas depois que êle morreu tem estado ao desamparo. O sr. capitão Marcos não quis ser nosso vizinho como foi seu pai; os mancebos gostam mais da praça; não há que estranhar.
— Costumo demorar-me no Recife, é certo, senhor capitão-mór; mas tenho minha casa nas Araras, onde fico mais perto de meus parentes, que são todos de Inhamuns. Meu pai gostava mais do Bargado.
— E tinha razão.
— Não digo o contrário; foi êle de natural reconcentrado e amigo da solidão.
— Isso era. Em tantos anos que tivemos de vizinhança receberíamos dele três visitas, se tantas, observou Campelo.
— Eu que alí me criei nunca vim a Oiticica, porque êle não gostava de trato e comunicações que o tirassem de seus hábitos sertanejos.
— E como consumia o tempo neste deserto? perguntou o licenciado Ourém.
— Quanto a isto não falta em que ocupar-se um homem ativo, acudiu o Daniel Ferro.
— Basta a labutação da fazenda, acrescentou o capitão Fragoso. Se não acredita, Ourém, eu o emprazo para Bargado.
Voltando-se depois para o capitão-mór prosseguiu:
— Sabendo do desamparo em que vai a minha fazenda resolví passar aí o inverno e vim com êstes amigos assistir às vaquejadas. Durante a minha estada conto prover o necessário, para tornar o Bargado ao estado próspero em que o deixou meu pai, que não é de razão se perca tão rica herdade.
Na continuação da prática veio a falar-se do Recife e das festas que houve pela chegada do Conde de Vila Flor:
— Nunca mais se descobriu quem foi aquele embuçado que se intrometeu no jôgo da argolinha? perguntou o capitão-mór.
— Oh! Êle terá o cuidado de sumir-se de minha vista, pois sabe quanto lhe sairia cara a graça! redarguiu Marcos Fragoso com arrogância de voz que mal encobria o vexame produzido pela alusão.
— Aquilo foi uma surpresa vil, acudiu o Ourém em abono do amigo. Se não fosse o imprevisto do ataque, nunca lograria o intruso arrebatar o argolão ao nosso Marcos Fragoso, que é campeão para maiores façanhas.
— Todos nós sabemos que é; mas também que o outro, o embuçado, não lhe fica após disso, não há quem possa duvidar. O mesmo repente do assalto, como êle o praticou, surdindo num relance não se sabe donde, e arremetendo como um raio, não é proeza para qualquer.
Esta observação partiu do alferes Daniel Ferro, que a-pesar-de amigo e parente, não deixava de ter sua ponta de rivalidade com o Marcos Fragoso.
— Todos os dias a estão fazendo nossos vaqueiros, Daniel Ferro, sem que lhe mereçam nota, quanto mais os gabos que lhe dá agora.
— E que pensa, Fragoso, que nossos vaqueiros não seriam homens para medir peças em jogos de destreza aos mais esforçados paladinos de outras eras? Por mim tenho que nunca Roldão, Lançarote, ou algum outro dos doze pares de França, estacou na ponta de sua lança um cavalheiro à disparada com tanta bizarria, como tenho visto topar um touro bravo na ponta da aguilhada.
— Lá isso é verdade, acudiu o João Correia.
— Certo que é; mas não se medem proezas de cavalheiros com agilidades de peôes, tornou o Fragoso, e continuou voltando-se para o capitão-mór com ar prazenteiro. O atrevimento do vilão não causou nenhum mal em suma, pois restituiu a prenda à pessoa a quem a destinei desde o princípio da cavalhada; e não foi senão o mêdo do castigo que o moveu a amparar-se com a boa sombra da sra. D. Flor, que mais santa guarda não podia dar-lhe sua estrêla.
Marcos Fragoso ao entrar na sala, relanceara disfarçadamente a vista para as portas interiores, com o sentido de surpreender por alguma fresta os olhos curiosos que porventura dalí estivessem espreitando.
Havia no fundo da sala, entre as portas do serviço, duas janelas gradeadas como o locutório dos conventos, e de que ainda se encontraram amostras nas casas construídas pela gente abastada até princípios dêste século.
Êsse crivo miudíssimo, tecido de rótulas delgadas, servia para esclarecer o corredor de passagem, vedando ao olhar curioso do hóspede a vista do interior, mas permitindo às pessoas da casa esmerilhar o que ia pela sala.
(continua...)
ALENCAR, José de. O Sertanejo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1848 . Acesso em: 27 jan. 2026.