Por José de Alencar (1873)
Enquanto se metiam o moleque e o caboclo em hábito e tonsura, saiu o juiz à porta.
— Moradores de São Sebastião, e povos da cidade! Por bem da paz e sossego de todos pensamos em conferenciar com o reverendíssimo prelado sobre a entrega dos réus; e mostrando a plena justiça da vossa reclamação, o reduzimos a destituir desde já à prisão dois dos culpados, fazendo o mesmo aos outros logo que os tenha à mão.
— Todos, queremos, todos e já!
— Mais como? gritou o Chaves. Se amolaram as palanganas, e lá se vão zunindo!
— Aonde?
— Para o mosteiro em busca de asilo. Agora é assobiar-lhes às botas, ou aos calcanhares.
— Pega! exclamou um mais ardente e disparou a correr.
Outros o seguiram maquinalmente. Ao mesmo tempo o meirinho com seus acólitos, capturando os dois improvisados minorenses, se afastaram com eles, levando após a maior porção do povo.
Assim conseguiram os camaristas salvar a casa do prelado da devastação que a ameaçava.
A poucos passos de distância os estudantes, expulsando os beleguins, tomaram conta dos presos e fizeram com eles coisas do arco-da-velha. Basta que, no dia seguinte, o caboclo amanheceu em cuecas, atado a um mastro, à guisa de judas em sábado d’aleluia, e com o couro pintado de azul. Quanto ao moleque, nu em pêlo, com uma crosta de vermelhão que o envolvia do cabelo à sola dos pés, e com o apêndice de um cabo de navio servindo-lhe de cauda saltava no meio da rapaziada em figura de diabrete, e representava menos mal o seu papel de palhaço do inferno.
Era já dia claro; e ainda o motim percorria as ruas da cidade, esperando a hora da sessão, que a Câmara convocara para o quartel do governador.
XXVII
ONDE SE VÊ A IMPORTÂNCIA JURÍDICA DO MEDO NA
DECISÃO DOS CASOS MAIS INTRINCADOS DA TEOLOGIA
A casa de residência do governador, ou seu quartel, como diziam então pelo respeito ao elevado posto de capitão-general, ainda estava por aquela época na Rua da Cruz, que depois veio a ser Rua Direita, e ultimamente com o sestro em que deu a nossa vereança passou a Rua de 1º de Março.
Essa mania de mudar os nomes às ruas e pô-los à moda, é nada menos que uma barbaria e degradação igual à que se perpetrava com os antigos monumentos e quadros empastando-os de arrebiques à moderna. Em um caso, profanação da arte; em outro, profanação da história: dois relicários do coração humano.
Nas mudanças sucessivas por que passa o nome de uma parte da grande cidade, escreve o povo fluminense um capítulo da sua história íntima. Assim, folheai essa página de pedra e cal, que se chamava até o ano atrasado Largo do Paço.
Sua primeira designação, nos tempos primitivos, foi campo do Ferreiro da Polé. Subiu depois a Rossio quando as casas o cercaram. Carmo, atesta a edificação do convento dessa Ordem; Terreiro do Governador, a residência da primeira autoridade da capitania; Praça do Palácio, a elevação de cidade a capital de vice-reinado; e finalmente Paço, a corte real que pouco tardou em trocar-se por Imperial.
Entretanto que significa Pedro II escrito naquelas esquinas? Simples lisonja de cortesão. O augusto filho do fundador do império não tem particularidade alguma com essa praça, onde estão os paços que, se hoje o hospedam, foram de seu pai e de seu avô; e triste daquele a quem cinge uma coroa, se carecesse de uma esquina de rua para ir à posteridade!
O que dizemos do primeiro cidadão, aplica-se aos patriarcas e aos outros medalhões da política. Erijam-lhes estátuas de ouro, se quiserem; levantem-lhes monumentos de bronze; dediquem-lhes templos e altares; mas não se meta a câmara a tralhona, usurpando essa prerrogativa do povo soberano de criar os nomes e formar as tradições de sua cidade natal.
Se não mente a crônica, era no lugar onde está hoje a Caixa da Amortização e Correio, que se levantava a residência do governador, a qual foi destruída na invasão dos franceses em 1710.
Para aí se dirigiram desde as 7 horas o juiz e oficiais da Câmara, bem como as pessoas gradas e sabedoras pelo senado convocadas; iam todos solícitos de acudir com pronto remédio ao sucesso extraordinário que desde a véspera trazia em alvoroto a cidade.
Esperava-os o Governador Tomé Correia de Alvarenga, não menos sôfrego de pôr termo à agitação do povo. Durante a noite, ciente do que ia pela cidade, mandou ficar sua guarda assim como a gente do terço a postos e de prontidão para o que pudesse acontecer; mas fez-se desentendido, e absteve-se da menor intervenção.
Empenhado em arranjar uma representação da Câmara e povos de São Sebastião pedindo a El-Rei para provê-lo, a ele Tomé Correia, no efetivo governo das capitanias no sul, que estava servindo interinamente, tratava de agradar a todos e pois não lhe convinha tirar razões e ir às mãos com o motim que era lá com a clerezia.
(continua...)
ALENCAR, José de. Garatuja. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1841 . Acesso em: 26 jan. 2026.