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#Romances#Literatura Brasileira

A Pata da Gazela

Por José de Alencar (1870)

Acompanhando com o olhar a carruagem, Horácio a viu rodar por algum tempo vagarosamente por causa de embaraço no transito e parar próximo à esquina da Rua dos Ourives. O lacaio, com a mão na aldraba, esperava naturalmente ordem para abrir.

Horácio apressou o passo. Por duas vezes avistara a fronte de Amélia coroada com um chapeuzinho de palha da Itália, assomando no postigo, a fim de percorrer a rua com o olhar. A idéia de que a moça lhe desejava falar passou pela mente do leão, que a repeliu, sem contudo considerá-la impossível.

Em todo caso ele acreditou que mais ou menos tinha parte naquela parada do carro, e não se enganava.

— Para que mandaste parar? perguntou D. Leonor.

— Quero comprar luvas no Masset, respondeu a filha.

— Ficou atrás.

— Podemos ir a pé.

Quando o leão chegou a dez braças do carro, a portinhola abriu-se, e Amélia, em companhia de sua mãe, saltou na calçada.

A moça tinha um roupão cor de café, de extrema simplicidade, porém muito elegante; as luvas eram da mesma cor de cinza das fitas do chapéu de palha.

As duas senhoras dirigiram-se para a casa do Masset. Horácio procurou cortejá-las na passagem, mas elas não lhe deram ocasião. Contudo o leão reparou que a moça disfarçadamente voltou o rosto para olhá-lo.

Enquanto as senhoras compravam luvas, Horácio as esperava em frente da casa do Valais, a alguns passos do carro. Pouco tardaram. Amélia vinha só na frente. Felizmente o transito pela calçada diminuiu naquele instante, de modo que o conquistador pôde ver a gosto a moça aproximar-se dele. Levados por impulso irresistível os olhares do mancebo abaixavam-se para os volantes do vestido, e rastejaram no chão que a moça pisava.

Amélia percebeu a insistência do olhar, e um ligeiro sorriso fugiu-lhe dos lábios. Imaginando que na calçada havia lama, colheu com ambas as mãos a frente da saia, e com tanto estouvamento que descobriu os pés até o colo da perna.

Horácio ficou fulminado.

Vira pousados na calçada dois pezinhos mimosos que palpitavam dentro de botinas de merinó cor de cinza. Pareciam um par de rolinhas, arrulhando na praia e beijando-se com o biquinho rosado. Durante o rápido instante, que seus olhos puderam admirar esses primores de graça e gentileza, não escaparam a Horácio as ondulações voluptuosas e os contornos suaves dos dois silfos. Nunca ele observara no talhe elegante da mais formosa mulher requebros tão aveludados, como tinha aquele dorso arqueado e aquela palmilha sutil.

Tamanho foi o pasmo de Horácio, que senhor deu por si quando a moça, passando por ele, entrou na carruagem. Voltou-se então precipitadamente, sem consciência do que ia fazer; mas a parelha já tinha partido a trote largo.

Momentos depois o leão descia a Rua do Ouvidor completamente absorto. Seu lábio distraído ia debulhando, sem o sentir, alguns trechos dos lindos versos do conselheiro José Bonifácio:

"Padres, não me negueis, se estais em calma, "Um coração no pé, na perna um'alma!"


CAPÍTULO  XVIII

Laura e Amélia eram primas e amigas de infância; havia entre elas apenas a diferença de dezoito meses.

Desde a idade de três ou quatro anos, isto é, desde que deixou as faixas, Laura usou sempre de roupas compridas. Isso causava reparo a todos que viam a menina trajada como uma senhora. Muitos achavam extravagante e ridículo o capricho e censuravam a mãe.

Esta ouvia as censuras de suas amigas, assim como os motejos estranhos, e calava-se; mas não alterava o vestuário da menina. A ternura e piedade materna lhe davam a paciência necessária para arrostar com as zombarias do mundo.

Laura tinha um aleijão; nascera com os pés disformes. Para mais agravar o desgosto dos pais, essa monstruosidade vinha ligada a uma beleza angélica. A senhora avaliou do infortúnio de sua filha, e preparou-se para todos os sacrifícios. Consultas foram dirigidas aos melhores médicos da Europa; chegou a empreender uma viagem para tentar os recursos da ciência; foram todos ineficazes.

Desenganada afinal, dedicou-se a esconder a desgraça de sua filha, a fim de que ela não fosse obrigada a envergonhar-se na sociedade. Durante muito tempo Laura não teve outra criada, além de sua mãe. À custa de esforços constantes, de uma vigilância incessante de cada dia e cada hora, conseguiu a senhora manter esse segredo de família, do qual dependia a felicidade da filha.

Atingindo a idade de oito anos, a menina com o instinto da mulher, compreendera seu infortúnio; e desde então descansou a mãe daquele cuidado incessante. Ficando moça casou-se, e seu marido que a amava estremecidamente, morreu ignorando o segredo.

Com bastante mágoa sua, Amélia surpreendeu o segredo da prima e amiga.

A filha de Sales tinha dois pezinhos de fada, breves, arqueados, com uns dedos que pareciam botões de rosa. O desgosto e vexame que isso causava à moça, ninguém o imagina. Ela supunha-se aleijada; apesar de seus 18 anos, seus pés eram de menina.

(continua...)

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