Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

Inocência

Por Visconde de Taunay (1872)

—Ande, doutor, instou Pereira, vá lá fora ver o coitado do outro e despache-o depressa. Estou todo enfernizado por vê-lo no meu terreiro.

Cirino saiu então e, caminhando com lentidão, parou a alguns passos do mal-aventurado Garcia, cujo rosto repentinamente se contraiu enquanto tirava o chapéu com submissão e receio.

Vinha então a tarde descendo, e a luz do crepúsculo irradiava por toda a parte, tão melancólica e suave que, sem saber por que, a alma de Cirino de repente se confrangeu.

Com assombro o encarava o lázaro. Diante dele se erguera quem lhe ia apontar o caminho da eterna proscrição. Dos seus lábios ia cair a sentença última, irremediável, fatal!

Quanta angústia no olhar daquele homem! Que pensamentos sinistros! Quanta dor!

Também ficara ali atônito, boquiaberto, à espera que a palavra de Cirino lhe quebrasse o horroroso enleio.

—Então, disse este depois de breve pausa, que me quer o senhor? —Doutor, balbuciou Garcia... primeiro que tudo quero... pagar-lhe;... trouxe algum... dinheiro... mas, talvez... seja... pouco.

Interrompeu-o Cirino:

—Não recebo dinheiro para tratar... da sua moléstia.

—Quer isto dizer, replicou com acabrunhamento Garcia, que ela não tem cura... Eu bem sabia, mas. . é tão duro ouvir sempre isso!. . Olhe, o meu mal é de pouco . . . está em principio. Quem sabe... se o s. não conhecerá alguma erva?...

— Infelizmente, respondeu Cirino, nem eu, nem ninguém conhece essa planta...

—Enfim!

E Garcia, fechando os olhos como que para concentrar as forças, continuou:

—Ah! doutor, eu sou um pobre homem... velho já cansado... Por que não me velo a morte em lugar desta podridão que me esta comendo as carnes?... Muito tempo a senti dentro de mim... Disfarcei, até ao dia em que minha neta... a filha do meu coração.. a Jacinta. . . ela mesma, mostrou certo receio de me abraçar . . Ah! senhor, quanto se sofre nesta vida!

E Garcia parou ofegante, empalidecendo muito.

—Dê-me água, exclamou ele, água... pelo amor de Deus!... Pudesse agora...

ser o meu dia... A minha garganta... está que nem fogo! . . .

E agarrou-se aos arreios para não cair no chão. Cirino correu a buscar água.

—Onde há de ser? perguntou Pereira.

—Onde queira, respondeu o outro com pressa, veja que aquele cristão está sofrendo...

—Ah! leve a caneca de louça... Depois a quebraremos...

Com sofreguidão tomou o lázaro o vaso, bebeu de um trago e pareceu melhorar.

—Foi um vagado, disse reassumindo aos poucos a calma. Mas, como lhe contava, certeza tinha eu do mal. Agora, só quero saber uma coisa e vou-me de partida. Esse mal... pega, doutor?

—Pega, afirmou Cirino com tristeza.

—E que me resta fazer?

—Pedir à Senhora Sant'Ana paciência e a Nosso Senhor Jesus Cristo. Garcia abanava a cabeça acabrunhado....que o proteja na sua vida de desgraças.

—Meu Deus, balbuciou o morfético a meia voz, dai-me forças... coragem para que eu faça o que devo fazer.

E, com súbita resolução:

—Cumpra-se a vontade do Altíssimo! exclamou, enfim. Doutor, obrigado! O pobre lázaro há de pedir ao Todo-Poderoso que neste mundo e no outro lhe pague as suas palavras de homem de letras... Adeus! Eu me vou para as terras de São Paulo... Talvez me junte à gente da minha espécie Adeus...

E, a custo montando a cavalo, voltou-se para as pessoas que tinham de longe vindo assistir à consulta.

— Adeus, disse ele acenando com o chapéu, gente e patrícios. Senhor Pereira, senhor Coelho, mais senhores, adeus! Eu me boto de uma feita para lá das Parnaíbas...

Este sertão não me vê mais nunca!.

Acolheu o silêncio essas palavras de eterna despedida.

Garcia então, esporeando com o calcanhar o ventre da cavalgadura, a passo tomou rumo da estrada geral e sumiu-se numa das voltas do caminho, quando já vinha a noite estendendo o seu lúgubre manto.

CAPÍTULO XVIII

IDÍLIO

Mas, que luz e essa que ali aparece naquela janela? A janela é o Oriente e Julieta o Sol. Sobe, belo astro, sobe e mata de inveja a pálida lua.

(Shakespeare, Romeu e Julieta, Ato II).

Entretanto, desde algum tempo, sentia-se Virgínia agitada de mal desconhecido... Em sua fronte, não pousava mais a serenidade, nem o sorriso lhe pairava nos lábios... Pensa ela na noite, na solidão, e logo devorador a abrasa toda.

(B. de Saint-Pierre, Paulo e Virgínia).

Decorreram sem novidade dias e dias uns após outros; Cirino diagnosticando e curando ou melhor, receitando; Meyer aumentando cada vez mais a sua bela coleção entomológica, sempre feitorizado por Pereira, que cautelosamente tratava de mantê-lo no suspeito círculo da sua apertada vigilância.

Confidente de todos os infundados e mal empregados receios era Cirino.

—O alamão, dizia o mineiro, não me deixa pôr pé em ramo verde, mas também trago-o vigiado que é um gosto... Se desconfiasse, teria medo até da sua sombra... Estou em brasas... Não sei por que não chega o Manecão Doca... Quero arriar a carga no chão... Agora, mais do que nunca, devo casar Nocência... Estas mulheres botam sal na moleira de um homem. Salta! E ainda isto tudo não é nada. —Então espera muito breve o Manecão? perguntou o outro com ansiedade.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...3435363738...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →