Por Visconde de Taunay (1871)
Puseram-lhe fogo, e com tal êxito que não fora um mato de pindaíbas, felizmente provido d'água, teria a coluna sido colhida pelo incêndio, Mal teve Lopes o tempo de nos alojar neste abrigo; deu-nos o Coronel ordem de acampar. Atacados, até aí, defendemo-nos como quem defende o refúgio derradeiro. Afinal obrigou o tiro de nossos canhões o inimigo a retirar-se.
Tudo e volta de nós era fumo, trevas e vapores ardentes. Caiu um de nossos soldados asfixiado. Outro, cego, no meio de um redemoinho, metera-se entre os paraguaios, conseguindo, contudo, graças à escuridão, safar-se e voltar sem ser reconhecido.
Neste dia fez a cólera nove vítimas. Assinalaram-se vinte caves novos: o chefe dos Terias, Francisco das Chagas, chegou moribundo numa rede que sua gente carregava . Estavam estes desgraçados índios no auge do terror, mas não podiam mais abandonar a coluna, ocupado como se achava todo o campo por um inimigo que, quando os apanhava, jamais deixava de os fazer perecer nos mais horríveis suplícios.
A que cause devíamos atribuir esta irrupção da cólera ou, melhor, a que cause não a atribuirmos? Seria talvez a carne estragada que éramos obrigados a comer, ou a fome curtida quando as náuseas venciam o apetite, ou ainda o insuportável ardor dos incêndios que nos escaldavam o sangue, quiçá a infecção oriunda de sodas as substancias vegetais que devorávamos, brotos, frutos verdes e podres, ou também, enfim, a insalubridade do ar viciado pela água estagnada dos charcos e lodaçais que naquela região tanto abundam.
Supunham alguns fosse o próprio inimigo o veiculador do morbo. É muito possível que aos paraguaios houvesse acontecido —embora jamais suportassem as mesmas privações que nós — porque, de seu exército do Sul, dizimado pelo flagelo, tinham recebido reforços. Uma circunstancia ocorria fazendo-nos crer que também reinasse o mal em suas fileiras: a frouxidão, para o fim, dos ataques, embora sempre freqüentes.
No entanto, o número do Semanário de Assunção, anexo a esta narrativa, nenhuma menção faz da epidemia na coluna paraguaia.
Para a noite caiu abundante chuva, agravadora de todos os nossos padecimentos. Amontoados perto da pequena barraca dos médicos, sem abrigo e ao ar livre, receberam os coléricos, nos corpos gélidos, as bátegas que desabavam, de espaço em espaço. Era horrível ver estes míseros, presos de agitação extrema, dilacerando os andrajos com que procurávamos cobri-los, rolando uns sobre os outros, a se torcerem com caimbras, vociferando soltando brados, que se fundiam numa só voz articulada: Água!
Tinham os médicos esgotado os recursos; a princípio zelosos e ativos, desanimavam os enfermeiros ante o número crescente dos enfermos e apesar da ordem que proibira o uso da água, como fatal, davam-na alguma para satisfazer, um instante ao menos, aos moribundos. A isto se limitavam os seus cuidados.
Apesar de tudo, recomeçamos a caminhar no dia 21. A carreta e o carroção, com o dobro da lotação, de todos os lados deixavam pender braços, pernas, cabeças onde já se imprimiam os sinais da morte. Aos manchegos aos armões das peças igualmente atulhavam desventurados recentemente atacados e já agonizantes.
Mas logo que a macega perdeu a umidade empregou-se novamente contra nós o odioso expediente de guerra dos paraguaios. Cerca de um quarto de légua de nossa última parada pareceu o incêndio, tangido por esperta aragem, na iminência de nos envolver, exatamente no mesmo lugar onde nos detivéramos e onde, de todo, se baldaria o zelo de Lopes, se acaso uma mudança do vento não houvesse desviado aquele furacão de chamas. Recomeçamos o lúgubre desfilar; mas ainda não vencêramos meia légua, quando os bois da artilharia afrouxaram, por não terem bebido, desde o acampamento do dia 19.
Estávamos felizmente num terreno cuja macega escapara ao fogo da manhã, graças, provavelmente, à corrente de ar que nos salvara.
Era uma chapada extensa que, inesperadamente, se levantava de uma depressão onde corre um riacho. Outra chapada, um pouco mais alta, e voltada para o sul, ligava-se a um campo imenso, 0 mesmo que Lopes, numa primeira incursão, batizara Campo das Cruzes; e no fundo do qual se erguia a nossa baliza — o morro da Margarida. Tem o perfil deste pico algo de notável em sua regularidade elegante. Já da Bela Vista o avistáramos; agora o saudamos como a velho amigo.
Se tal foi a nossa impressão, teve Lopes outra muito mais viva, ainda. Via-se, após tantas dúvidas cruéis, justificado no seu foro íntimo. Restituíra-lhe a alegria toda a vivacidade da primeira mocidade. Arrebentara naquele momento novo incêndio no campo; vimo-lo correr, de archote em punho, para o combater, com armas iguais, dizia. E conseguiu-o, varando por entre os cavaleiros paraguaios, espalhados pelo campo e que quase o apanharam.
Estava, novamente, na plena posse de si, liberto da responsabilidade que o acabrunhava e quando lhe observávamos quanto precisava poupar-se, respondia que ninguém podia ir de encontro à vontade de Deus, devendo cada qual entregar-se às mãos do Senhor. Dizia-lhe Ele que estávamos chegando ao termo de nossas provações. "Saibamos morrer, acrescentava; dirão os sobreviventes o que fizemos".
(continua...)
TAUNAY, Visconde de. A Retirada da Laguna. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17499 . Acesso em: 28 fev. 2026.