Por Franklin Távora (1879)
Deixando os negros no serviço, fora ele tomar banho à sombra de umas árvores copadas, juntos das quais passava o rio. O ponto era inteiramente ermo. À direita, morriam os canaviais e à esquerda estendia-se um capinzal vasto. Corriam pelo meio as águas, deixando do lado do engenho, entre elas e as últimas touceiras de cana, uma pano de área descoberto; lambiam as raízes salientes do arvoredo; e desapareciam obra de cem passos adiante por baixo de uma vegetação aquática muito cruzada e basta, que se confundia no capinzal.
Antes de descobrir a natural banheira formada pelo rio, Paulo ouviu o ruído de vozes e o ressoar de risos esganiçados, que não lhe pareceram de todo estranhos. A natural curiosidade o fez cauteloso. Abaixou-se algum tanto, e por entre as folhas das canas descobriu o ponto donde vinham tais rumores. Eis o que viu. Estavam dentro da água um homem e uma mulher. Brincavam, riam-se, mergulhavam e davam cambapés estrepitosos. Quando a mulher gritava com mais força, ou fazia nas águas mais barulhos, o homem recomendava-lhe moderação e silêncio; mas não tinham essas recomendações a menor importância para ela, que prosseguia com os seus movimentos agitados e aumentava o diapasão das suas vozes.
Do lugar onde estava, não pode Paulo saber quem eram os desconhecidos. As árvores cobriam com sombras todo o âmbito das águas onde eles procediam àqueles violentos exercícios, e a distância não era pequena. Paulo, entretanto, começou a sentir maior curiosidade em reconhecê-los. Por ali perto, não se apontavam moradores, e até lhe pareceu digno de nota que tais pessoas, não sendo da redondeza, soubessem que havia essa banheira só conhecida da gente do engenho ou de quem tinha a liberdade de atravessar os canaviais e as lavouras. Mas ao mesmo tempo que desejava conhecer os folgazões, o seu natural pudor vedava-lhe empregar os meios mais prontos para chegar a este conhecimento. Pensava já em voltar, quando um ruído mais forte e uma gargalhada mais vibrante chamaram novamente a sua atenção para a banheira. Fora o caso que a mulher correra de destro das águas para fora em busca do pano de areia, que vinha morrer poucos passos diante do ponto onde ele estava oculto. A mulher, correndo, parando, tornando a correr e olhando para trás, atravessou todo o espaço que havia descoberto. Paulo viu-a, em toda a nudez natural, de frente para ele; e logo que, saindo da sombra, a luz do sol pode cair em cheio em cima dela, reconheceu a Janoca. O espanto, a que esta visão deu lugar em seu espírito, subiu de ponto, quando ele ouviu a homem chamar por ela em voz mais elevada. Era a voz de Bezerra.
— Sai daí; volta — disse Bezerra. Olha que pode vir gente.
— Que é que tem? — retorquiu a mestiça com disfarce impudente.
— Não quero; não quero que alguém te veja.
— Quero eu.
— Volta, Janoca.
— Venha você buscar-me. Tenho já frio e o sol está muito bom.
E a mestiça estendeu-se a fio comprido na areia.
Paulo teve, então, ocasião de observar as formas que ele nem sequer imaginara nunca. A sua primeira impressão, vendo a rapariga correr para a banda dele, fora fugir, desaparecer; mas a novidade e o escândalo puderam mais que o escrúpulo do rapaz, posto que educado nas lições de sã moralidade.
— Se não vier buscar-me, não voltarei tão cedo - prosseguiu a mestiça.
— Deixa-te disso; vem. Se eu for lá, hei de trazer-te arrastada pelos cabelos.
— Não vê! Os meus cabelos são as suas prisões. Sua mulher há de ter inveja deles. Não tem?
— Vem, diabo! - tornou Bezerra contrariado.
— Que é isto? Está com raiva porque falei na sua mulher? Bonito que você é!
A sua mulher sou eu.
— Pois sim, és tu mesma; mas o que eu quero é que saias daí.
— Eu não. Está com ciúmes? Cuidarás que alguém, vendo-me nua, vai tirarme do seu poder?
— Deixa-te de asneiras, e não me metas raiva.
Dizendo estas palavras, Bezerra correu da água para a margem, onde a rapariga se espojava, ora encolhendo, ora estirando as pernas. Vinha resoluto a levá-la por força, mas quando entre ele e ela não se interpunham mais de dez passos, Janoca, por diabrura, encheu a mão de areia e atirou-lhe sobre a cara, acompanhando este movimento de cínica e estrepitosa risada. Bezerra deu um grito, sobresteve um momento com as mãos no rosto, e depois voltou ao rio. A areia caíralhe nos olhos.
Então, Janoca levantou-se rapidamente e correu após ele.
— Caiu-lhe nos olhos a areia, meu benzinho? — perguntou com voz sentida. Coitado do meu marido!
E foi ela que arrastou Bezerra para dentro da água, onde, abraçando-o e dando-lhe beijos, começou a banhar-lhe o rosto e a pedir-lhe perdões ao mesmo tempo.
(continua...)
TÁVORA, Franklin. O Sacrifício. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16632 . Acesso em: 28 fev. 2026.