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#Romances#Literatura Brasileira

O Seminarista

Por Bernardo Guimarães (1872)

— Margarida?... exclamou o moço, mas logo atalhou-se envergonhado.

— Sim, sim; essa menina, que foi criada em casa de seus pais, e sua companheira de infância, essa menina, conforme me escreve seu pai...

O padre fez uma breve reticência, como hesitando sobre o modo por que havia de exprimir-se.

— Morreu?... perguntou Eugênio tornando-se pálido como um cadáver. — Não, senhor; casou-se.

A esta revelação Eugênio estava lívido, convulso, atordoado; como se um raio houvesse estalado junto dele, apenas pôde murmurar com lábios trêmulos:

— Casou-se!... ah!... muito bem!

Como quem arranca subitamente as ataduras a uma ferida profunda, que apenas começa a cicatrizar e a faz de novo abrir-se entre dores cruéis, golfando o sangue aos borbotões, assim o padre com aquela fatal e inesperada nova veio despertar em um momento todo o ardor e frenesi da paixão que começava a adormecer no coração do moço. Turvou-lhe os olhos a sombra trêmula de uma vertigem, as pernas lhe esmoreceram, e foi-lhe mister encostar-se a uma mesa para não cair redondamente em terra.

Em vão esforçou-se por afetar tranqüilidade e resignação; forçoso lhe foi retirar-se para ocultar aos olhos do diretor a agitação do seu espírito.

Este porém, a quem não podia escapar aquela tão visível e extraordinária perturbação, não se inquietou muito com isso. Proveito conhecedor das paixões e fraquezas do coração humano, bem previa que outro não podia ser o resultado imediato daquela revelação; mas estava também certo que ela seria o golpe de morte desfechado sobre a paixão do mancebo. Passada aquela primeira irritação, um salutar desengano convencendo-o da inconstância e fragilidade das afeições mundanas, lhe serviria de escarmento eterno contra todas as seduções do espírito das trevas.

— Margarida infiel!... Margarida casada!... — exclamava Eugênio ao entrar no seu quarto, delirante, a arquejar e apertando a cabeça entre as mãos convulsas. — Quem o diria .... pôde tão facilmente esquecer-se de mim para entregar-se a outro.... e eu tantos anos luto em vão para arrancar daqui a imagem dela e entregarme nos braços de meu Deus!... que vergonha!... que miséria!... À força de jejuns, de penitências, de mortificações tenho quebrantado meu corpo, acabrunhado meu espírito e flagelado meu coração rebelde, e nem assim consegui apagar este fogo que me devora... sim, não consegui nada; era engano meu... agora o vejo... e ela tranqüila e risonha, sem escrúpulo e sem constrangimento algum voa aos braços de outro, e dá-lhe a gozar estas delícias, que eu... louco que eu fui!... estava trocando por um inferno de amarguras e martírios!... Oh, Margarida! Margarida! que fizeste!... ah!... tu eras mesmo a serpente; teus lábios destilavam veneno de morte... era o fogo do inferno que te incendiava os olhos... Com teu amor mostravas-me o paraíso, que era a porta do inferno!... com tua traição e falsidade me abres também o inferno nesta e na outra vida! Por toda parte tu és o anjo mau destinado a precipitar-me no abismo das torturas!... mas... que importa!... ah!... se continuasse a querer-me quem... sabe?... que valem sem ti o paraíso e todas as suas delicias?... eu te acompanharia de bom grado pelos ásperos e tenebrosos caminhos do desterro, como Adão acompanhou a sua Eva; suportaria alegre todos os trabalhos e tribulações da vida, se sentisse tua mão enlaçada com a minha, e o teu coração palpitando junto ao meu!... — Mas ah!... meu Deus! eis em que deram tantos anos de luta e sacrifício!... Desprezei um tesouro que possuía, para correr após um bem quimérico, uma sombra vã... e agora aperto os braços, e não encontro nem um nem outro... e acho-me abraçado... com quê? com as chamas do inferno!... Ai de mim!... meu Deus! como eu blasfemo! eu sou um réprobo!...

(continua...)

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