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#Romances#Literatura Brasileira

O Garimpeiro

Por Bernardo Guimarães (1872)

Entretanto ainda uma vaga esperança a alentava. Elias talvez chegasse a ter conhecimento, se é que já não tinha, do sucesso que trouxe ou havia de trazer inevitavelmente o rompimento de seu contrato de casamento com Leonel. Se lhe tinha verdadeiro amor, havia por certo de arrepender-se da precipitada resolução que tomara de nunca mais vê-la, e voltaria. Se não fosse o amor, a curiosidade mesmo o faria voltar, e, quem sabe? também desejo a vingança para ter o prazer de vê-la humilhada em razão do triste desfecho da projetada união. Fosse porém qual fosse o motivo que o trouxesse, ela só suspirava por vê-lo na Bagagem; não faltaria ocasião de revelar-lhe tudo o que ocorrera, e o seu perdão era certo.

Como já vimos, Lúcia não se enganara: a resolução desesperada de Elias apenas tinha durado algumas horas. Mas antes que Lúcia o soubesse, teve de passar ainda muitos dias de cruel incerteza e inquietação.

Elias, em conseqüência dos profundos pesares e violentas comoções de espírito por que havia passado durante aqueles dias, sofreu um novo e grave ataque de febre intermitente que tinha apanhado em sua volta do Sincorá, ataque que o prostrou na cama por muitos dias. Não querendo incomodar nenhum dos habitantes da Bagagem, contra os quais estava possuído do mais vivo e justo ressentimento, recolhera-se a um tosco e pobre ranchinho, separado cerca de um quarto de légua do rio acima do grosso da povoação, onde era tratado por uma pobre parda velha, sua conhecida de Uberaba, que como tantos outros tinha mudado para a Bagagem os seus penates.

Elias conhecia e trazia consigo os medicamentos necessários para combater sua moléstia, e portanto, dispensou o médico que a boa velha em vão instava que se chamasse. Graças a esse curativo e aos cuidados da caridosa enfermeira, no fim de oito dias achava-se inteiramente fora de perigo.

Durante essa forçada reclusão, as dores físicas o incomodavam menos do que as inquietações do espírito e as amarguras do coração.

Lúcia não lhe saía do pensamento. Nos sonhos delirosos da febre ela lhe aparecia, ora risonha e feliz ao lado de um esposo, amável e brilhante cavalheiro; e então lhe escapavam bramidos roucos de raiva e desespero, que pareciam despedaçar-lhe o peito. Ora a via pobre e envolta nos andrajos da miséria, mas pura, santa e sempre fiel à lembrança de seu amor; e então lágrimas doridas lhe rebentavam dos olhos; chorava e soluçava como uma criança. Sabia que com a prisão de Leonel achava-se desfeito o casamento de Lúcia, que o Major estava arruinado, e que a miséria em breve prazo o esperava a ele e a toda a família. Esta consideração o enchia de amargura; então mais que nunca maldizia o infame embusteiro que o iludira, praguejava a sorte e blasfemava contra o céu.

Na sua pobre cabana ninguém o vinha ver, porque ninguém o supunha ali, crendo todos, em razão do seu desaparecimento, que tinha saído da Bagagem.

Um dia disse-lhe a velha caseira:

-meu moço, Vmcê. Está aqui tão só, não tem com quem conversar; isto não está bom; não quer que eu chame algum de seus amigos para entreter o tempo?

- Amigos! . . . oh! minha velha; pelo amor de Deus! não me fale nos amigos da Bagagem, quisera antes ver o rosto de Satanás.

- Pois como? . . . não há por aí nem uma viva alma com quem tenha tomado caipora? ! . . .

- Nenhuma, minha velha, nenhuma! . . . mas não. . . minto. . . havia uma: um velho e pobre camarada. Em vão tenho perguntado por ele. . . ninguém me dá notícias; nem sei se é vivo ou morto.

- E é só esse?

- Ainda há mais outra pessoa; e essa eu daria a minha vida para vê-la, ainda que fosse um instante; mas essa, ai de mim! . . . essa não pode vir aqui.

- Vá vendo, que é alguma moça bonita.

- É verdade! . . . muito bonita; bonita como não há nem pode haver nenhuma.

-mas, meu moço, Vmcê. Está muito doente para pensar agora em moças bonitas. Pense na Virgem Santíssima, que é quem lhe há de valer.

- Entretanto se essa de quem falo, me aparecesse agora aqui, estou certo que no mesmo instante eu sararia.

- Então é mágica?

- É mais do que isso; é um anjo.

- Anjo! . . . nesse caso não me canso em ir procura-la, porque é coisa que não existe mais neste mundo.

- Não te canses mesmo, minha velha; tu não a encontrarás; nem ela virá cá. Ela é do céu; não pode descer a este inferno em que estou penando.

XIV – A LAVADEIRA

No dia seguinte bem cedo a boa velha veio pressurosa acordar Elias.

- Levante-se, meu moço; o dia amanheceu bonito, e tenho uma bela notícia para lhe dar.

- Boa notícia para mim! . . . não é possível! para mim! . . . neste mundo já não pode haver notícia nem boa nem má. A única boa notícia que me poderiam dar era que já morri.

- Qual! quem fala agora em morrer! . . . dou-lhe parte que temos agora aqui perto uma bela vizinhança: já Vmcê. Não ficará tão sozinho.

- Vizinhança! oh! que bela nova! tomara que me deixem sozinho, e que eu nunca lhes veja a cara. Senão me mudarei ainda para mais longe.

- Sozinho se veja o diabo! . . . olhe que uma vizinhança como esta não é para desprezar. É um velho, uma menina muito linda, e uma moça bonita como um sol. Não os conheço, nem me lembro de ter visto essa gente em parte nenhuma.

-mas não me recordo de ter visto casa nenhuma aqui por perto, e pensei que estava livre de toda a vizinhança.

- Pois não viu uma casinha coisa de uns cem passos ali mais adiante?

- De todo não me lembro; também eu estava tão doente. . .

(continua...)

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