Por Bernardo Guimarães (1872)
Paulina estava plácida e calma, mas em tal palidez e imobilidade, que mais parecia uma estátua de alabastro. Pouco a pouco porém ao contato daquele ar puro e embalsamado, daquela luz suave, suas feições foram-se reanimando, um leve matiz de rosa assomou-lhe às faces, seus olhos encheram-se de um meigo fulgor, e denunciavam que uma alma vivificava ainda aquele formoso e delicado corpo. Apesar da sua prostração, no rosto de Paulina transluzia um bem-estar, uma serenidade angélica; seus seios arfavam brandamente, um meio sorriso da mais suave expressão estava fixo em seus lábios, e sobre a fronte parecia que lhe pairava um reflexo da bemaventurança.
Parecia reinar naquele aposento um não sei quê de místico e beatífico, um eflúvio celestial que todos aspiravam em santo e silencioso recolhimento. Eduardo, sobretudo, cheio de emoção, de amor e de esperança, contemplava em adoração o rosto de Paulina, e julgava-se transportado ao paraíso.
O silêncio, que há alguns instantes reinava naquele aposento, como em um santuário, teria durado ainda mais longo tempo, se não viesse quebrá-lo bruscamente um pajem, que entrou aceleradamente no quarto, e entregou uma carta a Joaquim Ribeiro. Este no mesmo instante abriu-a sem refletir, que ia excitar a curiosidade de Paulina, e que a carta que vinha da fazenda do pai de Roberto, podia conter uma má nova. Dentro dela vinha outra carta dirigida a Eduardo, que Ribeiro imediatamente lhe entregou.
Ribeiro passou rápida e silenciosamente os olhos pela carta que lhe era dirigida; o seu conteúdo era o seguinte:
– “Dou-lhe a triste notícia que meu filho Roberto amanheceu hoje morto em seu quarto com a cabeça atravessada por uma bala. O infeliz, quando aqui chegou ontem, encerrou-se em seu quarto sem aparecer a ninguém. Ao romper do dia ouviu-se um tiro no seu quarto; acudiu-se prontamente, arrombou-se a porta, e fomos achá-lo estendido no chão e lavado em sangue. Que desgraça, meu amigo!... não posso atinar com o motivo que o levou a tal loucura... Achou-se sobre sua mesa essa carta ao senhor Eduardo, com a recomendação de ser entregue imediatamente, como verá no sobrescrito.”
Por mais esforço, que fizesse Ribeiro para ocultar a sua perturbação durante a leitura, a mágoa e a consternação pintavam-se em seu rosto.
Paulina, que tudo estava observando, perguntou-lhe com a ansiedade: – É carta do primo Roberto, não é, meu pai?
– Não, minha filha ;– respondeu o velho esforçando-se por mostrar-se tranqüilo; – é um simples recado de teu tio; não tem importância alguma; pede-me apenas que entregue imediatamente aquela carta ao senhor Eduardo, e pede-me notícias de tua saúde.
– Ah! meu pai!... meu pai!... quem sabe?... Vosmecê quer me enganar... e essa outra carta?... de quem é, senhor Eduardo?... leia, leia em voz alta... por favor, se não é algum segredo...
Eduardo, que acabava de decifrar não sem dificuldade os terríveis garranchos, que o infeliz Roberto com mão convulsa tinha traçado naquele papel, vendo que nenhum inconveniente havia na leitura daquela carta, que à exceção da última frase, – a qual envolvia um sentido sinistro, – continha uma lisonjeira notícia, que ele estava ansioso por comunicar a Paulina, leu em voz alta o seguinte:
“Senhor Eduardo. Confesso e reconheço, que ontem fui estouvado e grosseiro com o senhor. Hoje, pensando melhor, vejo que o senhor tem razão, e que eu sou um desgraçado que nada tem mais que fazer neste mundo. Desisto de tudo; faça de conta que eu nunca existi; e que nunca o senhor me deu juramento nenhum. Adeus! sejam felizes, e rezem por minha alma. Roberto.”
Estas últimas palavras Eduardo suprimiu-as na leitura.
– Pobre de meu primo! – exclamou Paulina, apenas Eduardo acabou de ler; – e eu que supunha que ele não seria capaz de dar esse passo!... que injustiça!... hei de lhe pedir perdão de joelhos... que coração! que alma de anjo!... meu pai!... senhor Eduardo!...
A moça quase não podia mais falar de emoção; soluçava e arquejava comprimindo o peito com as mãos, como temendo que lhe rebentasse.
– Basta, – exclamou o pai já cheio de inquietação; basta, minha filha; não convém que fales mais. Acalma-te; o céu acaba de fazer tudo para a tua felicidade; agora o que precisas é saúde... vamos; deita-te e descansa... nada de conversas por ora;... retiremo-nos, meus senhores.
– Para quê, meu pai?... eu acho-me tão contente... e tranqüila...
senhor Eduardo, por favor demore-se um momento... meu pai há de permitir, que lhe diga duas palavras.
– Paulina!... mais tarde, minha filha, conversarás com ele quanto quiseres.
– Não tenha susto, meu pai; duas palavras só, e ele sairá logo, – disse Paulina cravando-lhe um olhar suplicante.
O pai não teve ânimo de contrariá-la mais.
– Pois bem, minha filha; porém cautela; por quem és, não fales muito, nem te comovas.
Capítulo XIV
Conclusão
– Ah! senhor Ribeiro, – disse o padre com tom severo, apenas se acharam fora do aposento de Paulina, – foi uma grave imprudência a entrada daquele rapaz com as cartas no quarto da menina!... queira Deus daí não venha algum mau resultado.
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. Histórias e tradições da Província de Minas Gerais. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2142 . Acesso em: 24 fev. 2026.