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#Romances#Literatura Brasileira

Sonhos d’Ouro

Por José de Alencar (1872)

- Não foi por isso; o passeio tinha perdido a graça para mim, respondeu a altiva menina com serena candidez. Fábio conversava com D. Paulina, que ria-se dos seus gracejos. Guida, que se afastara do grupo das senhoras para sentar-se perto da mãe, tomou parte na conversa; e à hora do jantar estavam, ela e Fábio, muito camaradas um do outro. 

Na ocasião de passarem à sala da comida, Fábio aproximando-se de Ricardo, disse-lhe rapidamente ao ouvido:

- Então ainda achas que fiz mal? 

Ricardo encolheu os ombros. Fábio o tinha resolvido contra vontade a aceitar o convite do Soares. Para isso foi necessário afiançar-lhe que dera sua palavra de honra a Guimarães, e o fizera para esmagar a calúnia de que ele se tornara eco. 

Era Ricardo dos homens para que não há bagatelas em matéria de probidade. Desde que exigiam dele um sacrifício em nome dos escrúpulos de consciência e do respeito à palavra de honra, era certo obtê-lo ainda que se tratasse de uma ninharia. Assim exprobrando a Fábio de se haver comprometido sem o consultar, e quando já conhecia sua repugnância, se resignou à humilhação de que bem desejava poupar-se. 

O primeiro acolhimento de Soares foi como uma nomeação que ele recebesse, ali ante toda gente, de parasita da casa. O sentido daquelas palavras feitas em amabilidade, à guisa de filhoses de algodão, ele bem o compreendeu: “Entra; eu te admito no rol dos gaudérios desta casa; come, diverte-te, intriga; arranja teus negócios; caloteia os meus amigos; namora nossas filhas; desfruta-me por todos modos. Dou-te licença para tudo, até para falares mal de mim; contanto que mobilies minha casa com decência. Tenho grandes salas, ricos tapetes, cadeiras de estofo, soberbos jantares; mas preciso de gente de casaca, para encher estas salas, pisar esses tapetes, sentar-se nessas cadeiras, e comer estes jantares.” 

A Ricardo não surpreendeu a recepção: ele a esperava. Todavia incomodou-o tanto a realidade que decidiu eclipsar-se no meio da confusão, e retirar-se antes do jantar, sem prevenir Fábio. 

Demoveu-o desse intento a distinção com que logo depois o tratou Soares e a família. As prevenções que trazia, se de todo não se dissiparam, ao menos emudeceram, diante do caráter franco do banqueiro, da singeleza ingênua de D. 

Paulina, e na natural e graciosa isenção de Guida, que parecia flor exótica naquele áureo clima do milhão. 

Sentiu que deixara de ser um número de rol, um anônimo perdido na turba; e por conseguinte não tinha já o direito de se escapar, sem dar satisfação. A delicadeza, e também o assomo ainda vago dum desejo a espontar, exigiam que assistisse ao banquete do Soares. 

- Chamam-nos para jantar! disse o dono da casa convidando com um gesto seus hóspedes a passarem ao salão. 

A Ricardo estava destinado um lugar à direita de D. Paulina; quanto a Fábio, como não se lembravam dele, e pela simples razão de já haver tomado conta da casa, a igual de conhecido velho, foi colocando-se ao lado de D. 

Guilhermina, que mostrava-se encantada com a lábia cintilante e espirituosa do bacharel. 

- Doutor Nunes, cuide de si! disse o Soares logo depois de tomada a sopa, senão minha mulher deixa-o com fome.

- Fico prevenido! respondeu Ricardo sorrindo. 

- Está sempre a brincar! Observou D. Paulina, respondendo ao sorriso do moço. 

- Como quer começar? À francesa pelo peixe, ou cá à nossa moda brasileira pelo cozido? tornou o dono da casa. 

- Já estou servido. 

Um criado acabava de trazer o prato de peixe, que lhe servira a Guida fazendo como de costume as honras da casa. No correr do jantar conversando com D. Paulina, Ricardo sentia um prazer íntimo, como que um aroma das rosas guardadas no seio d’alma. Era que o aspecto sereno da senhora, a efusão de bondade que ressumbrava de toda a sua pessoa, e especialmente as maneiras tão lhanas, lhe estavam retratando na imaginação o aspecto venerável de sua mãe, e mostrando a tal como havia de ser, se a fortuna a colocasse no pináculo da riqueza. 

Às vezes, Guida sentada à cabeceira e atenta a seus deveres de dona-de-casa, que ela exercia com exímio tato, intervinha com alguma observação na conversa de D. Paulina; e Ricardo recordava-se de Bela, tão linda como a filha do banqueiro, embora lhe faltasse o garbo que dava ao talhe da última supremo realce. 

Falando a mãe dos vários sítios da Tijuca, a moça disse para Ricardo: 

- Domingo, havemos de ir à Vista Chinesa! 

- Com muito prazer. 

- É um passeio agradável! observou D. Paulina.

- A vista é soberba; mas como passeio, a Barra. 

- E tem razão; é mais pitoresco! replicou Ricardo. 

- Por que então não convidaste antes o Sr. Dr. Nunes para ir à Barra? 

- Por quê?...repetiu Guida a sorrir. O caminho do Jardim é melhor para galopar.

- Travessa! disse D. Paulina com bondade. 

- Gosta muito de andar a cavalo? perguntou o advogado. 

- Muito! É minha paixão!... 

Ao exíguo visconde, sumido atrás do enorme peru, não escapavam as várias impressões que se manifestavam na fisionomia do banquete, sob o ruído da conversa banal travada de uma à outra ponta da mesa, e acompanhada do tinir dos cristais e ranger dos talheres. 

(continua...)

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