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#Romances#Literatura Brasileira

O Sertanejo

Por José de Alencar (1875)

— Não se soube. Via-se que não era dos campeões, pois estava com trajo de cidade; e além disso tinha a cara amarrada com um lenço que lha cobria toda, deixando apenas a descoberto os olhos, por baixo da aba do chapéu. 

— Que bioco! 

— Houve quem visse o embuçado sair do meio do povo, pular na teia, apanhar a lança no chão, saltar na sela de um cavalo desmontado que passava, e correr sôbre o mastro, onde chegou justo no momento em que o Fragoso ia tirar o argolão, e para lho disputar.

— E o que sucedeu? 

— Os dois campeões forcejaram cada um de seu lado para arrancar o argolão, mas não o conseguiram. Foi então que o desconhecido correu sôbre o seu contrário e arrebatou-lhe a lança da mão. Todos aplaudiram a façanha, menos o Fragoso que ficou passado no meio da praça, enquanto o vencedor, chegando ao palanque onde eu estava apresentou-me o argolão na ponta das duas lanças, repetindo - «À mais formosa». 

— E você, Flor, o que fez? 

— Eu, menina, não sabia o que fizesse de contente e ao mesmo tempo acanhada que fiquei, vendo todos os olhos fitos em mim. Foi minha tia D. Catarina, que recebendo o listão o passou pelo meu ombro, com o que redobraram os aplausos à proeza do desconhecido. E acabou-se a história; que eu não vi mais nada, nem dei por mim dêsse momento em diante até que tornámos à casa. 

— E o desconhecido? 

— Ouví depois que desaparecera assim como viera, de repente, antes que o pudessem descobrir; e não se soube mais dele. 

— Mas você não desconfiou quem seria? Pois pelo modo parece que era pessoa conhecida.

— Quem podia ser, menina? E como havia eu de suspeitar? 

— Pela voz. Êle não lhe falou? 

— Três palavras. 

— Pelo jeito do corpo, e modo por que montava a cavalo. Não reparou? 

— Naquele instante, entretida como estava com a festa, não me lembrava de mais nada. 

Alina calou-se um instante sob a preocupação da idéia que lhe acudira ao espírito, e depois inclinou-se para falar à companheira com a voz submissa e tímida expressão.

— Não se parecia com Arnaldo? 

— Quem, Alina? O embuçado? 

Alina confirmou com um gesto. 

— Que lembrança! tornou D. Flor com surpresa. 

— É porque você não sabe que Arnaldo desapareceu da fazenda no mesmo dia em que o senhor capitão-mór partiu. 

— Sei, que já me contou mamãe Justa. Arnaldo foi à Serra Grande atrás de uns barbatões.

— Isto é o que êle diz. 

— Mas, menina, que razão tinha êle para esconder-se? 

— Não sei, Flor, respondeu Alina esquivamente. 

A filha do capitão-mór não insistiu, e divagando os olhos pela floresta, ficou pensativa, 

enquanto Alina inclinando a fronte absorvia-se também de seu lado em íntimas reflexões. 

 

XVI – O vizinho 

 

Um tropel de animais que ressoou perto de casa tirou as duas meninas de sua distração. 

Ambas, impelidas por igual movimento de curiosidade, debruçaram-se à janela e retrairemse tomadas de surpresa pelo que viram. 

Luzida quadrilha de cavaleiros acompanhados de seus pagens acabava de parar no terreiro. Eram todos mancebos, bem parecidos e trajados com o apuro e gala que então usavam, ainda mesmo no sertão, as pessoas de grandes posses. 

O Agrela, que fôra prevenido da aproximação dos forasteiros desde que de longe os tinham avistado, saíra a recebê-los. 

— Olhe, Alina, aquele mais alto, que tem a casaca de sêda açafroada. Sabe quem é?

— O Fragosos, de quem você falava pouco há? 

— Êle mesmo. 

— É um galante fidalgo. 

Nesse momento o mancebo avistando as moças fez com o chapéu profunda saudação a D. Flor, que respondeu confusa e recolhendo-se da janela. 

— Que virá êle fazer à Oiticica? perguntou ingenuamente a filha do fazendeiro à sua camarada. 

— Não adivinha, Flor? disse Alina sorrindo. 

— Eu não, menina. 

— Dí-lo a cantiga. 


Saudades que me deixaste,

Saudades me levarão.

Aonde foram-se os olhos,

Vai após meu coração. 

 

D. Flor ouvindo a copla que Alina cantarolou à meia voz com ar malicioso, correu a ela para fazer-lhe cócegas, e retribuindo-lhe a amiga, desataram ambas a rir da mútua travessura. 

Entretanto o capitão-mór Campelo, saindo ao patamar, convidava os hóspedes a entrarem. Adiantou-se o mancebo, que vestia casaca de sêda côr de açafrão, e saudou o fazendeiro com estas palavras: 

— O capitão Marcos Fragoso, de jornada para sua fazenda do Bargado com êrstes amigos que lhe fizeram o obséquio de sua companhia, não podia, passando a primeira vez pela Oiticica, faltar à cortesia de saudar o sr. capitão-mór Gonçalo Pires Campelo, como vizinho, e ainda mais como filho de um velho amigo seu, o coronel Fragoso. 

— O capitão Marcos Fragoso e seus amigos serão sempre bem vindos à nossa casa, e nos darão prazer se quiserem receber o agasalho que lhe oferecemos de boa vontade. 

— Era nossa intenção pedí-lo, para refrescar da calma; epois do que seguiremos para o Bargado, onde já deve estar a nossa comitiva, da qual nos separámos pouco há na encruzilhada. 

Entrados na sala, o Marcos Fragosodesignou ao capitão-mór seus amigos cada um por seu nome e indicações: 

(continua...)

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