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#Romances#Literatura Brasileira

Garatuja

Por José de Alencar (1873)

Terríveis deviam ser as conseqüências desse embate da onda popular, e não era dado prever os excessos que praticaria essa plebe, irritada com a resistência, e dirigida por meia dúzia de rapazes estouvados.  

— Entregue os réus! 

— Queremos os minorenses! 

— Havemos de trancafiá-los na cadeia. 

O prelado esmagou-os sob o olhar altivo e recolheu-se com a dignidade de um ministro da Igreja. 


XXVI 

 

AINDA UMA VEZ SE PROVA QUE O POVO É EM TODOS OS 

TEMPOS A MESMA CRIANÇA TRAVESSA, A QUEM SE 

ENGAMBELA COM UM DOCE OU UM BONECO 

 

Felizmente nesse momento da ‘maior exacerbação, apareceram ali os camaristas, acompanhados de outros moradores que andavam na governança da terra e tinham preponderância sobre o povo. 

Avisados do tumulto que ia pela cidade, e do perigo que ameaçava o Dr. Almada, receosos por um lado dos desmandos populares, e por outro do desagrado d’El-Rei que por certo não levaria a bem o desacato à Igreja com ofensa da dignidade prelatícia, tinham às principais acudido com presteza no intento de evitar algum desastre.  

Chãos e simples, como eram, os “homens bons” daquele tempo, valiam mais sem contestação do que os “eminentes estadistas”, que por aí andam a granel, pois não há gazeteiro que os não amasse em tal quantidade que o forneiro-mor ocupado em cozinhá-los para ministros, não lhes dá vazão. 

Às suasões do Batista Jordão, o juiz, às advertências e rogos dos mais camaristas e principais, moderou-se a turba sofreando os ímpetos com que já investia contra a casa do prelado. Porventura obteriam os prudentes que se retirasse o ajuntamento, e aguardasse o povo a resolução que ia tomar o Senado se não fosse a rapaziada, que embirrou em levar a sua avante. 

— Sem os formigões, daqui não arredaremos o pé! 

— Querem que nos retiremos? Pois dêem os culpados à prisão. 

— Cumpra o mandado!... 

— Ou havemos nós de cumpri-lo. 

— Não reconhecemos couto! 

— Faremos respeitar a justiça d’El-Rei! 

— Não o afrontarão na pessoa do seu ministro, que não consentimos! 

Estas vozes carregadas de ameaças, circunscritas no princípio ao tropel dos estudantes, se propagavam logo pelo grosso da multidão. Conheceram os camaristas a dificuldade de obter a dispersão do povo, sem até certo ponto atender à sua reclamação, que no fundo era da maior justiça, pois não pedia mais do que a execução de um mandado e expedido pela Ouvidoria da Comarca. 

Assentaram então os apaziguadores do motim em instar com o prelado para entregar os minorenses à prisão, por bem da paz e para evitar dano irreparável. 

— É preciso lavrar o auto de resistência, ponderou um dos camaristas. 

— Meirinho!... 

O beleguim sacou do bolso o tinteiro de chifre, e sentando-se na soleira da porta, começou a lavrar sobre o joelho o auto de resistência que precede ao arrombamento. 

Aproveitaram-se os camaristas dessa pausa para interporem sua mediação; e avisado o meirinho que demorasse quanto pudesse a sua grifaria, alcançaram o juiz e o procurador que o prelado os admitisse a entrar para conferirem sobre o caso. 

A princípio mostrou-se intratável o reverendo; mas ouvindo a vozeria do povo, que já revolvia-se impaciente com a demora da conferência, e percebendo o terror de que se achavam possuídos os próprios camaristas, assustados com os excessos em que ia romper o motim, tornou-se mais acessível à acomodação. 

Instira o juiz nestes termos: 

— Não dizemos que Vossa Reverendíssima entregue seu sobrinho, ou aqueles fâmulos seus de mor estimação; porém os outros... se os entregasse, podia-se alcançar do povo que se aquietasse, enquanto que assim recusando-lhe tudo, vai-se irritando, e ao cabo quem sofre somos todos nós. 

— Os clérigos menores, de hábito e tonsura, fâmulos da Igreja, de que sou humilde ministro, esses, senhor juiz, não há poder que mos faça entregar à justiça secular, da qual não são súditos. 

— Neste caso caia sobre Vossa Reverendíssima o peso das calamidades, que vai acarretar a sua obstinação. 

— Havia um meio, insinuou o prelado.

— Vossa Reverendíssima dirá. 

— Tenho aí dois moços que ainda não receberam a tonsura, mas destino-os também para clérigos, se forem aptos. Esses, vestindo-lhes o hábito, podiam servir para apaziguar a canalha, se Vossas Mercês interpuserem seu bom conselho. 

O primeiro impulso dos camaristas, foi repelir essa mistificação, mas urgia um remédio qualquer, se não queriam ver desencadear-se a fúria popular, alagando a cidade de sangue. 

Vieram os tais moços, como os chamava o prelado. Eram um moleque e um caboclo, ambos cativos, os dois coitados, que iam servir de vítimas expiatórias das estrepolias dos minorenses. Vendo-os, quiseram recuar os camaristas; mas o povo fora rugia de cólera, e começava a assaltar as janelas com pedras e calhaus. 

— Ao menos, observou o Chaves, que era gracioso, arranjemos-lhes uma tonsura ou coisa que se pareça. Venha lá uma tesoura. 

(continua...)

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