Por José de Alencar (1870)
Eram dez horas do dia. O sol brilhava em céu límpido; uma aragem fresca sussurrava entre as folhas; os coleiros trinavam nas ramas das laranjeiras. Esse concerto de perfumes e harmonias convidava o coração a abrir-se e cantar o seu hino de amor.
Laura reclinou a fonte e emudeceu, com os olhos embebidos no seio de uma rosa, que tinha no regaço. Horácio tomou-lhe a mão, que ela cedeu com tênue resistência.
— Sabe desde quando eu a amo, Laura? Desde o dia em que a vi pela primeira vez passar em um carro. Foi, se não me engano, na Rua da Quitanda; ia com a filha do Sales. Lembra-se?
A moça fez um gesto afirmativo.
— Depois encontrei-a no teatro. A princípio seus olhos me deixaram conceber alguma esperança; mas o desengano foi cruel.
— Nem imagina como sofri! Cuidei que não houvesse mulher capaz de obrigar-me a voltar às ingenuidades dos 18 anos. Um dia ainda me lembro, via-a de longe entrar no Passeio Público; apressei-me para ter o prazer de cortejá-la, receber um olhar. Debalde corri todas as ruas; quando voltei à porta fiquei desesperado. A senhora tinha saído, sempre com a filha do Sales. Recorda-se?
— Recordo-me, respondeu a moça. Mas era por mim que fazia tudo isso?
— Duvida, Laura?
— Nega que esteve apaixonado por Amélia? Até diziam que já a tinha pedido.
— Que ingratidão! Não sabe então por que me fiz apresentar em casa do Sales? Para vê-la; era preciso procurar um meio; a senhora já não se lembra da dureza com que me tratava.
— E por isso consolava-se com Amélia?
— Se amasse, Laura, havia de saber o que é o ciúme, e as loucuras que ele nos obriga a fazer! Mas a senhora não ama!
— Quem lhe disse?
— Essa frieza.
— E o que eu sofri?... balbuciou a moca pondo os olhos languidos no semblante do mancebo.
— Perdão, Laura, exclamou Horácio ajoelhando. Eu era um louco, indigno de teu amor; e não mereço tanta felicidade. Mas deixa-me implorar o meu perdão; deixa-me beijar teus pés, que...
— Ah! .. .
Horácio proferiu aquelas palavras apaixonadas, de joelhos diante da moca que sorria inclinada para ele; de repente abaixou-se para beijar-lhe os pés, esse objeto de sua adoração. Foi então que ela soltando um grito de espanto, o repeliu para longe de si com horror.
Contudo, o moço, que preparara toda aquela cena para chegar à realização do desejo por tanto tempo afagado, conseguira ver... mas não o que esperava: um pezinho mimoso e gentil; e sim dois pés ingleses de sofrível tamanho, que lhe pareciam descansar sobre uma almofada preta.
O semblante de Laura se tinha demudado de uma maneira espantosa; em suas faces intumescidas respirava uma expressão feroz de ódio e vingança.
Horácio compreendeu que naquele momento qualquer explicação era impossível. O que tinha de melhor a fazer era eclipsar-se. No fim de contas esse desenlace lhe convinha, pois cortava todas as dificuldades da retirada.
Cortejou e saiu.
A alguns passos da casa, o leão não pôde conter uma gargalhada, que lhe estava a sufocar, e desabafou-a. Realmente havia de que rir; duas vezes mistificado em sua paixão, ele, o rei da moda, o conquistador sempre feliz.
Insensivelmente começou a refletir sobre o ocorrido. Por mais que se desse tratos à imaginação, não podia decifrar o enigma.
A botina que achara fora perdida por uma das duas moças; mas não pertencia a nenhuma. Seria encomenda de outra amiga, e talvez para alguma menina de dez anos?
De repente surgiu no espírito de Horácio uma idéia tão original, como a situação em que se achava.
— Eu vi os dois pés de Laura; mas de Amélia, só vi um; é verdade que esse valia por três. Mas... Não resta dúvida. A natureza tem destes caprichos. A maravilha a par do monstro, o mimo em face da deformidade! É o princípio do contraste, que rege o mundo. Eu vi o direito, o aleijão. O esquerdo ficou oculto como a pérola e o diamante.
Compenetrado dessa idéia, de que o pezinho adorado pertencia a Amélia, a quem a natureza em compensação aleijara o outro, Horácio admitiu a possibilidade de que sua paixão pela moça revivesse, embora menos ardente, ou mais positiva.
Ter aquele pezinho em suas mãos, senti-lo estremecer e palpitar de emoção, cobri-lo de beijos, acariciar a rósea cútis diáfana tecida de veias azuis, brincar-lhe com as unhas crespas, como conchinhas de nácar, cingir ao seio esse gnomo gentil, titilante de amor e volúpia!...
Não podia haver para o leão maior delícia neste mundo. Ele daria por ela todo o quinhão de prazer que porventura lhe estava reservado para o resto da existência.
Foi engolfado nestes devaneios que Horácio apeou-se à Rua Direita de um tílburi, que tomara no Largo do Machado.
Seguindo para a Rua do Ouvidor, a passo lento e descuidado, o leão aspirava o ar da cidade, como o ocioso que não sabe em que há de consumir o dia e fareja uma aventura qualquer.
De repente avistou coisa que o pôs alerta. Um carro que subia a Rua do Ouvidor passou por ele; era o cupê do Sales. O rosto encantador de Amélia apareceu-lhe a princípio de relance na penumbra que azulava o acolchoado de damasco, e depois em plena luz moldurado pelo quadro do postigo.
(continua...)
ALENCAR, José de. A Pata da Gazela. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16673 . Acesso em: 8 jan. 2026.