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#Romances#Literatura Brasileira

Inocência

Por Visconde de Taunay (1872)

Nesta ocasião sacou Cirino da canastra outros remédios e passou-os a Coelho, dando-lhe minuciosas informações sobre o modo por que havia de usar deles.

—Tem muito enjôo, quando come? perguntou o curandeiro.

—Muito, Senhor doutor.

—Assim é, mas deixe estar; depois do leite de jaracatiá, volta-lhe a apetência. Nos primeiros tempos, o senhor só há de beber claras de ovos bem batidas. Depois, ira a pouco e pouco tomando mais alimento. —Deus o onça...

Levantou-se Pereira e, chegando-se à porta, anunciou:

—Ai vem gente... Estou ouvindo passos de animal montado... Sem dúvida e algum pobre engorovinhado de doença. Isto de moléstias, não faltam no mundo. Também há tanta maldade, que não pudera ser por menos.

Depois de ligeira pausa, acrescentou em tom de surpresa e aborrecimento.

—Hi meu Deus!... Nossa Senhora nos socorra... Sabem quem vem

chegando?... É o Garcia; está com o mal! há mais de dois anos e não quer crer na desgraça... Pobre coitado, sem dúvida vem comprar o desengano... Tenho muita pena dessa gente... mas, deveras, não a quero ver em minha casa... Vamos, senhor doutor, despache o Garcia depressa. Com lázaros não se brinca. A Senhora Sant'Ana de tal nos livre! Nem olhar é bom.

E, Pereira, voltando-se para dentro, pediu apressadamente:

—Não deixe o homem desapear, doutor: ficava-me depois o desgosto de ter que lhe fazer alguma má-criação. Pelo amor de Deus vá lá fora... Veja o que ele quer... e dê-lhe boas tardes da nossa parte... Olhe, esta chamando... Sala, doutor, saia!

Ouvia-se, com efeito, uma voz perguntar se estava em casa o Senhor Pereira.

Este, vendo que Cirino não se apressava à medida dos seus desejos, ou temendo que o recém-chegado lhe entrasse na sala, sem demora apareceu à soleira da porta e, com manifesta sequidão, respondeu ao humilde cumprimento de chapéu e à meiga saudação que lhe era dirigida.

CAPÍTULO XVII

O MORFÉTICO

O leproso. — Interesse? Ah! nunca inspirei senão compaixão...

O militar — Quão feliz fora eu se pudesse dar-vos algum consolo!...

( Xavier de Maistre, O Leproso de Aosta).

Não devo ter sociedade senão comigo mesmo, nenhum amigo, senão Deus. Generoso estrangeiro, adeus, se feliz. Adeus para sempre!

(Idem).

A pessoa que chegara, bem que tivesse descavalgado, não se adiantou ao encontro do dono da casa. Pelo contrário como que recuou, conservando-se depois imóvel, encostado a um burrinho, cujas rédeas segurava.

De seu lugar, perguntou-lhe Pereira com expressão não muito prazenteiro:

—Então, como vai, senhor Garcia?

— Como hei de ir, respondeu o interpelado. Mal... ou melhor, como sempre.

—Pois esteja na certeza de que muito sinto.

—Está ai o cirurgião? indagou Garcia.

—Não tarda a vir vê-lo ai fora... Olhe, é um instantezinho.

Palavras tão cruéis não pareceram fazer mossa ao desgraçado.

— Esperá-lo-ei com toda a paciência, replicou melancólico.

—Já sei que volta hoje para casa, afirmou Pereira.

—Volto. Se a noite me pegar em caminho, ficarei no pouso das Perdizes.

—E verdade: lá há uma tapera. Mas o senhor não tem medo de almas do outro mundo? Dizem que o tal rancho velho é mal-assombrado.

—Eu? exclamou o infeliz. Só tenho medo de mim mesmo. Quisesse um defunto vir gracejar um pouco comigo, e de agradecido lhe beijava os dedos roídos dos bichos. Olhe, Senhor Pereira, continuou com voz um tanto alta e agoniada, não levo a mal o senhor não me convidar para entrar em sua casa; não, no seu caso havia de fazer o mesmo.

—Oh! Senhor Garcia! quis protestar Pereira.

—Nada;... digo-lhe isto do coração... Na minha família sempre tivemos nojo de lázaros... Sou o primeiro... O senhor nem imagina... Vivi muitos anos meio desconfiado... A ninguém contei o caso... De repente, arrebentou o mal fora. Já não era mais possível enganar nem a um cego... Ah! meu Deus, quanto tenho sofrido!...

—Permita Ele, interrompeu Pereira em tom compassivo, que este doutor tenha algum remédio... Bem vê... às vezes...

—Curar a morféia? replicou Garcia com sorriso pungente de sarcasmo. Não há esse pintado... que em tal pense...

—Então para que quer ver o médico?

— Só para uma coisa... Saber pelos livros que ele tem lido e pelo conhecimento das moléstias, se isto pega... É só o que quero... Porque então fujo de minha casa. Desapareço desta terra... e vou-me arrastando até tombar nalgum canto por ai... Dizem uns que pega... outros que não... que é só do sangue... Eu não sei...

É, abanando tristemente a cabeça, apoiou-se ao tosco selim. Depois, ergueu os olhos para os céus, e exclamou:

—Cumpra-se tudo quanto Deus Nosso Senhor Jesus Cristo houver determinado!... Se o médico me desenganar, não quero que a minha gente fique toda... marcada... Irei para São Paulo...

Pereira cortou este doloroso diálogo:

—Está bem, patrício Garcia, disse, vou já mandar-lhe o homem... espere um pouco. . .

E, entrando, reiterou o pedido a Cirino, que se demorara a receitar a Coelho umas beberagens de velame e pés-de-perdiz, plantas muito abundantes naquelas paragens, de grandes virtudes diuréticas e que deveriam ser empregadas um mês depois da aplicação do leite de jaracatiá.

(continua...)

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