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#Relatos#Literatura Brasileira

A Retirada da Laguna

Por Visconde de Taunay (1871)

Nauseante espetáculo revelou-nos, nesse lugar, quanto entre os nossos soldados era a fome tremenda. Ia matar-se um boi estafado, quase agonizante. Formara-se um círculo em torno do animal, cada qual mais ansioso esperando o jato do sangue, uns para o receberem num vaso e o levarem, outros para o beberem ali mesmo. Chegado o momento, atiraram-se todos a ele, I os mais afastados e os mais próximos. E assim era diariamente. Mal tinha o magarefe tempo de cortar a rês; era quase necessário arrancar às mãos dos soldados os nacos a fim de os levar ao local da distribuição. Os resíduos, as vísceras, até o couro, tudo se despedaçava ali mesmo e era logo devorado mal assado ou cozido; repulsivo pasto de que não podia deixar de originar-se alguma epidemia.

Na manhã de 19 lançou o major Borges, sobre o ribeirão, convertido em rio estreito, mas profundo, improvisada ponte que, experimentada, não apresentou solidez bastante, obra que fora de operários mais debilitados pela fome do que com efeito desprovidos de ferramenta. Julgamos necessário reforçá-la com um tronco enorme de aroeira, encontrado pelas vizinhanças. Foi só então que a artilharia pôde sem acidente atravessar. Uma carreta única a seguia: queimáramos as demais para entreter as fogueiras que nos preservaram de completo tolhimento; e esta mesmo só fora poupada porque podia prestar-se para o transporte dos feridos de uma para outra margem.

Estava inundada a ribanceira que atingíramos e ainda várias vezes se ensoparam os desventurados inválidos levantados a braço antes de acomodados em padiolas ou cangalhas. Eram as mulheres que nos acompanhavam setenta e uma, contadas à entrada da ponte. Iam todas a pé, exceto duas, montadas em bestas; carregavam quase todas crianças de peito ou pouco mais velhas. Por heroína passava uma e todas a apontavam. Havendo-se encarniçado um paraguaio em lhe arrancar o filho, tomara ela de um salto uma espada largada no chão, e num ápice matara o assaltante. Mais infeliz vira outra o filhinho recém-nascido espostejado por um inimigo, que pelas pernas lho arrancara do colo. Traziam todas no rosto, aliás, os estigmas do sofrimento e da extrema miséria. Ainda vinham algumas carregadas de objetos provenientes do saque; mantas, ponchos, pesadas espadas paraguaias, baionetas e revólveres.

Caíra a noite; quando muito conseguíramos estabelecer-nos em frente ao nosso acampamento da véspera; mas já era imenso termos atravessado o rio.

CAPÍTULO XVI

Lampejo de esperança que se desvanece logo. A cólera Reaparece o inimigo. O incêndio sempre. Recrudesce a cólera. Um recurso: os palmitos. Terrível passagem de um pântano. O tenente Santos Sousa Acampamento. Conseguimos acender fogo.

Lopes que, desde algum tempo, víramos perturbado a ponto de duvidar de si, acabara, enfim, descobrindo onde estava, e orientando-se. A vista de uma eminência, a distancia, dissipara-lhe subitamente o mistério apontando-a, deu-nos a certeza de que dois dias mais tarde chegaríamos à sua fazenda. "De lá se avista, afirmou, aquele pico que os senhores vêem". Aos mais fracos e desanimados, reanimou esta notícia. Chegados a 21 a distância do Jardim, poderíamos, pelo dia 25, entrar em Nioac antes dos paraguaios e preservar a vila de novo saque, graças a esta marcha executada em onze dias, e não em quinze.

Assim tínhamos muito próximo de nós o termo de tantas misérias, quando outra novidade, mais terrível que tudo, veio agravar a situação, além de qualquer pressão por mais sinistra que fosse: circulou de repente pelo acampamento a notícia que nele havia cólera.

Já desde algum tempo tinham os doutores Quintana e Gesteira levado o fato ao conhecimento do Coronel Pouco depois morrera, com um dia de moléstia apenas um índio teria recebido na enfermaria de Bela Vista.

Supusera-se, a princípio, que seria mero cave esporádico; e sobre o fato se guardara segredo, nada se podendo fazer, tudo nos faltando pare dominar o morbo Em sodas as paradas, enormes fogueiras se acenderam supondo os soldados que se empregava um processo saneador da atmosfera do pantanal. No silêncio consistia, realmente, o melhor preservativo contra a propagação da peste. Mas a 18 rasgou-se o véu do mistério: caíram três homens atacados pela epidemia e com os mais graves sintomas, e, desde então, os nossos dois médicos que haviam assistido à primeira irrupção da cólera no Rio de Janeiro, julgaram imperioso dever não mais dissimular a verdade. Fora-nos necessário, contudo, prosseguir na marcha, subitamente salteados de mal-estar e desmaios caíram alguns soldados; o que provocou a perturbação e a confusão gerais em nossas fileiras. Não se caminhava mais. Os três homens já atingidos pelo flagelo sucumbiram. Dentro em pouco estavam a carreta que nos restava e um carroção de munições, que se lhe adicionara, repletos de enfermos, cujos gemidos por toda a parte apressavam o surto da epidemia.

Teve este dia cruel uma tarde e uma noite como era de prever. A 20, pela manhã, o tempo, a princípio chuvoso, melhorou; e logo tornou-se o sol ardente. Ainda caminharam menos os animais e os homens mal se arrastavam, tendo a morte sob os olhos e no coração.

Haviam os paraguaios reconstruído a ponte e passado. Já à nossa frente estavam, apenas dissipara o calor do dia o orvalho e secara a macega.

(continua...)

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