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#Romances#Literatura Brasileira

O Seminarista

Por Bernardo Guimarães (1872)

— A concupiscência — dizia ele — é a serpente, que destila dos lábios enganosos o veneno que nos dá morte à alma e nos faz perder para sempre as delicias da celeste Jerusalém. Feliz aquele que? como a virgem mártir cujas virtudes hoje a igreja comemora, pode esmagar aos pés a cabeça da serpente maldita, e exclamar triunfante, enquanto ela se estorce moribunda no chão — "Afasta-te, Satanás!..."

Inspirando-se nas páginas ardentes e sublimes do santo de seu nome, exclamava com ele:

"Soldado efeminado, que fazes tu sentado à sombra do lar paterno? tu repousas, e a trombeta divina enche o espaço dos seus clangores! O divino combatente aparece sobre as nuvens; uma espada de dois gumes sai de sua boca. Ele corre, derriba e despedaça; e tu não queres deixar o teu leito pelo campo de batalha, a escuridão em que jazes pelo esplendor do sol! levanta-te! a coragem te dará força."

"Visses embora teu pai, tua mãe ou tua amante atravessada à soleira de tua porta para impedir-te a passagem, passa sem derramar lágrimas; passa, tu és soldado; lá está o teu estandarte; é a cruz!

"Deserto esmaltado de flores de Cristo!... solidão, onde se engendram as pedras de que é construída a Sion celestial! santos eremitérios, em que se conversa familiarmente com Deus, infeliz daquele que vos desconhece, e mais infeliz ainda aquele que, vos conhecendo, vos foge e vos evita!"

Fazendo aquela, viva e eloqüente apologia da vida casta e solitária, Jerônimo procedia por pedido especial e recomendação de seus colegas de Congonhas, que o tinham inteirado da situação de Eugênio, e assim todas aquelas calorosas e veementes apóstrofes iam com direção calculada ao espírito do mancebo, o qual sem nada suspeitar as escutava absorto, e sentia a palavra santa penetrar-lhe como lâmina ardente até o âmago do coração.

A pintura da serpente rastejando aos pés de Eva no paraíso para seduzi-la e arrastá-la à perdição, fez a mais viva impressão, e trouxe-lhe à memória a aventura da infância de Margarida, enleada e afagada por uma cobra, aventura que tão funesta apreensão deixara no espírito de sua mãe. Encontrando a mais exata e palpitante analogia entre o episódio do Gênesis, e aquele incidente de sua infância, Eugênio estremeceu.

Já para ele não havia dúvida: aquele acontecimento era um aviso do céu; aquela serpente fatídica era o demônio; e Margarida, nova Eva por ele seduzida, lhe oferecia o pomo fatal, e o levava ao caminho do exílio e da perdição eterna.

Ajoelhado em oração e debruçado à beira do leito, Eugênio adormeceu, e viu-se em sonho transportado ao meio de um templo magnífico, inundado de esplendores, de perfumes e harmonias. Súbito abriu-se a abóbada do templo, e um coro de anjos, que descia do céu, baixou sobre ele. O anjo que vinha à frente de todos tinha a figura de Margarida, e trazia na mão uma palma. Postando-se diante dele entregou-lhe a palma, e disse-lhe apontando para o altar: — Eis ali o caminho do céu!

Eugênio olhou para o altar e viu que a Virgem, que se achava sobre o trono lhe sorria e acenava chamando-o a si.

Este sonho impressionou-o vivamente. Era uma revelação; a vontade do céu se achava manifestada do modo mais patente e irrefragável. Entendeu que Margarida era morta, e transformada em anjo de Deus no céu como já o fora sobre a terra, viera-lhe anunciar que era só ordenando-se que se encontraria com ela na bem-aventurança. Seu destino estava decretado no céu, e a sua vocação irrevogavelmente firmada sobre a terra.

Pobre Margarida, entre ti e o teu amante uma sombra espessa se interpunha, e a estrela de luz pura e suave, que luziu sobre vossos berços, e sorriu à vossa infância, obumbrada pelas fuscas asas do gênio austero do ascetismo se eclipsava totalmente na alma do teu Eugênio.

Nessa alma agora entregue a mil beatificas alucinações, a tua imagem ia-se de todo apagando, e apenas de quando em quando lhe aparecia como visão longínqua, envolta em brumas melancólicas em um ponto obscuro do horizonte.

Pobre Margarida!

CAPÍTULO XIX

Eugênio, com o pé alçado sobre a cabeça da serpente fascinadora, achavase em véspera de cantar triunfo.

Ainda a paixão não se havia extinguido de todo; o cancro pecaminoso ainda lhe atracava ao coração seus enredados filamentos; mas o moço, premunido de ascético heroísmo, com a mão firme e resoluta havia empunhado buído escalpelo para extirpá-lo de uma vez, embora lhe custasse gritos de agonia e lágrimas de sangue.

Dispunha-se Eugênio a ir dar conta ao seu diretor das grandes vitórias que ia alcançando sobre si mesmo, e manifestar-lhe a firme e inabalável resolução em que se achava de tomar ordens sacras e até de entrar para as fileiras dos filhos de S. Vicente de Paulo, quando recebeu um recado do mesmo diretor chamando-o ao seu cubículo.

— Senhor Eugênio — disse o padre, apenas o seminarista compareceu -, acabo de receber uma carta do senhor seu pai, em que me comunica uma importante notícia. Se fosse em outros tempos eu hesitaria em dar-lhe semelhante nova, mas hoje creio posso dar-lhe sem receio de consterná-lo, certo de que a receberá com toda a sobranceria e serenidade de ânimo de um homem superior às paixões do século.

A esta linguagem Eugênio sobressaltou-se.

— Diz respeito a meus pais? — perguntou com ansiosa inquietação.

— Não, não; a esse respeito esteja tranqüilo. Estão vivos e com saúde, louvado seja Deus... É outra coisa...

(continua...)

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