Por Bernardo Guimarães (1872)
- Sim, meu pai? ! . . . exclamou Lúcia, levantando-se com um brilho estranho nos olhos, que o pai tomou por um novo acesso de delírio, e que não era mais do que um lampejo de uma alegria que quase se parecia com a loucura.
- Sim? continuou ela. O Sr. Leonel preso? e por que, meu pai?
- Não sei ainda; mas sem dúvida pelo crime de moeda falsa, de que o acusava o pobre Elias. . . E ninguém acreditava! . . . meu Deus! . . . como são as coisas deste mundo! . . .
- E que sina a minha, meu pai! ah! não há nada certo nem seguro neste mundo!
-tranqüiliza-te, minha filha; e dá graças ao céu que nos veio livrar talvez das garras de um embusteiro, de um monstro. Foi para nós uma felicidade.
- Foi mesmo, meu pai; foi uma felicidade muito grande. Aquele homem, não sei por que, fazia-me medo. Uma antipatia invencível me arredava dele. . . Ah! . . . foi como se me tirassem um peso de cima do coração!
- E como te resignavas a casar-te com ele? . . .
- Era um sacrifício, meu pai.
- Sacrifício!
- Sim, meu pai, um sacrifício, mas um sacrifício para sua felicidade e de minha irmã; um sacrifício imposto pelo dever. Já não se lembra de assim mo ter declarado?
- Lembro-me, Lúcia; mas se soubesse que tinhas tanta repugnância. . .
-muita! muita repugnância!
-se eu o soubesse, antes queria sofrer toda a sorte de misérias, do que tornar para sempre desgraçada a minha filha. . .
- É verdade! eu seria muito, muito desgraçada.
- E por que te não abrias comigo com toda a franqueza?
- À vista do que meu pai me falou, era meu dever calar-me e submeter-me.
- Ó boa e querida filha. . . e como teu coração adivinhava! e eu, cego e cruel pai que eu era! te ia arrastando sem piedade para tão duro sacrifício! . . . perdoa-me, minha Lúcia. Louco e desventurado pai que sou! . . .
-meu pai, esqueçamo- nos de tudo isso; agora só devemos nos alegrar e dar graças ao céu que tão a tempo nos veio livrar das mãos daquele homem que só queria a nossa perdição.
-tens razão, minha filha; demos graças ao céu. Adeus; vai descansar. Ainda não estás boa, e tens necessidade de repousar. Adeus.
Apenas o Major saiu, Lúcia foi lançar-se de joelhos aos pés de um crucifixo, que tinha pendurado à cabeceira do catre, e com todo o fervor de seu coração murmurou esta oração de graças:
“Ó meu pai do céu, eu vos rendo infinitas graças pelo imenso benefício que acabais de fazer-me, livrando-me das ciladas e um malfeitor, que me queria arrojar no abismo da perdição e da desgraça. Eu bem sei que não merecia tão assinalado favor, mas vós sois bom, e tivestes piedade de mim. Mas lembrai- vos também do infeliz Elias! . . . O pobre Elias! . . . tem direito de me querer mal. . . só me falta o seu perdão. Ah! Elias! quando souberes de tudo, tu me perdoarás. . . ”
Mal ia Lúcia acabando aquela prece, que do trono do Onipotente ia sensivelmente se desviando para a pessoa de seu amante, quando entrou Joana no quarto.
- Estava rezando, sinhazinha? faz bem; o rezar alivia muito o coração da gente, quando está aflito.
- Estava, sim, Joana; o que me queres?
- Aqui está, disse a escrava apresentando-lhe um bilhete.
Pelo sobrescrito Lúcia logo conheceu que era de Elias. O coração pulou-lhe de alegria; ainda uma vez voltou a Deus seu pensamento agradecido. Sem demora abriu e leu o bilhete. Mas logo à primeira linha sua fronte se anuviou e o brilho de seus olhos se empanou de lágrimas. O bilhete dizia assim:
“Adeus, Lúcia! adeus para sempre! foste bastantemente leviana para me desprezares por um aventureiro
desconhecido, só porque tem algum dinheiro e uma bela aparência. Praza ao céu que bem cedo não te arrependas, e que não venha a ser ele mesmo o algoz que me vingará de tua ingratidão! Vou para bem longe procurar esquecer-me de ti; não sei se o conseguirei. Quando esta receberes, já estarei mui longe daqui. Adeus! esquece-te também de mim. ”
Lúcia já esperava que naquela carta não poderiam vir senão queixas e exprobrações. Elias ignorava as circunstâncias fatais que a tinham forçado a dar o – sim – a Leonel; tinha pois sobeja razão para acusa-la e queixar-se amargamente. Mas aquela partida repentina, aquela amarga despedida para todo o sempre, lhe dilaceravam o coração. Ah! nunca mais vê-lo, nunca mais poder-se justificar para com ele, ela, inocente vítima, que ia imolar-se em um sacrifício, que a mão de Deus acabava de afastar de cima de sua cabeça, ser condenada a viver odiada e desprezada pelo ente a quem mais amava no mundo! Este pensamento continuamente a atormentava, e não podia perdoar a Elias a precipitada sofreguidão com que a condenava, e se animava a abandona-la para sempre, sem ter-lhe ouvido uma palavra, agora que o destino parecia querer abrir-lhe de novo o caminho da esperança.
- Oh! exclamava ela chorando, é preciso ter bem pouco amor para proceder assim. Eu não o condenaria tão de leve. Mas decerto que ele não me ama como eu o amo.
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. O Garimpeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1776 . Acesso em: 26 fev. 2026.