Por José de Alencar (1872)
- Ora pois! dizia o Soares, eis-me comendador por unânime aclamação dos povos. Mas há de ser da ordem do bacorinho!
Essa referência à humildade de sua origem, ele a fazia freqüentemente; e percebia-se que tinha sua vaidade em ter subido de tão baixo àquela sumidade financeira. Custava-lhe a compreender o vexame do barão do Saí, quando aludiam ao começo de sua carreira, e por isso estava sempre a apoquentar o amigo chamando-o de barão do lote, com o que este se resmoía.
Ficou pois o Soares comendador, por uso e cortesia, como tanta gente boa; e ninguém havia nesta corte imperial que não o acreditasse inscrito no grande livro das ordens; no que de todo não erravam, pois era ele terceiro de São Francisco de Paula. Mas este Santo não consta que fosse cavaleiro, e palmilhava como qualquer plebeu sem esporas, nem prosápias.
Em cartas, sobretudo nas de empenho, em listas de acionistas de banco, chapas de diretores, e gazetilhas, lá vinha estampado o infalível “comendador”; que aderira ao nome do Soares, como uma dessas alcunhas implacáveis que perseguem certos indivíduos toda a vida, e afinal colam-se à geração, criam raízes e transmitem-se a toda a descendência. O público é um tirano, e bem gaiato às vezes.
É bem possível, pois, que à imitação dos mais, já o trataste eu de comendador e continue a fazê-lo.
XIII
A partida estava empenhada. O Barros fizera a vaza; cabia-lhe a mão.
- Quem joga? perguntou Soares.
- É o conselheiro! respondeu o Barão.
- Então podemos ir jantar. Temos tempo, e ainda chegaremos cedo.
De fato o Barros, na forma do costume, esperava que o concílio dos sujeitos que o estavam aperuando, decidisse a grande questão da melhor carta a jogar.
- O homem quer abarrotar-nos? observou o visconde. Está pensando.
- Anda conselheiro, instou o Soares; se pensas tanto, ficas em branco para outra vez.
O banqueiro queria bem, do fundo d’alma, ao filho de seu falecido benfeitor, e por ele faria todos os sacrifícios. Mas a veia sarcástica, que ao próprio dono não poupava, às vezes sem ele o querer, beliscava o inofensivo e pachorrento amigo. Nunca o Soares pudera tomar ao sério o título de conselheiro do Barros; e por isso inventara aquele termo mais apropriado, pela etimologia idêntica à de cabeleireiro.
Impassível como sempre, o Barros nem se ressentiu, nem se apressou.
Foi nessa ocasião que aproximou-se o Guimarães, acompanhado de Ricardo e Fábio, a quem fora receber na entrada:
- Sr. Comendador, tenho o prazer de apresentar-lhe os meus amigos, os Srs. Dr. Nunes e Dr. Araújo!
- Tenho muito prazer em conhecê-los! Esta casa está sempre ao seu dispor, quando queiram. Nada de cerimônias. Estamos em família!
Estas palavras, Soares as proferiu soerguendo-se da cadeira, no tom de cortesia e amabilidade corriqueira, de que na sua qualidade de milionário era obrigado a fazer gasto freqüente com a turba de parasitas e gaudérios, que assaltam as casas ricas.
Depois do usual aperto de mão, voltava à partida que fora um instante distraído, e já esquecera os novos hóspedes, em cujas feições nem reparara, quando sentiu no ombro o doce toque da mão de Guida:
- Papai, é o Dr. Nunes que esta manhã encontramos no passeio.
- Ah! exclamou o milionário erguendo-se e abandonando a mesa do jogo.
Notara Guida de parte a desagradável impressão que deixara na fisionomia de Ricardo aquele acolhimento de carregação que lhe fizera o banqueiro; e por isso indiretamente advertira o pai de que tratava-se de um hóspede especial, e não de um intrometido.
- Eu é que devia primeiro visitá-lo, doutor, para agradecer-lhe seus obséquios; mas os velhos merecem desculpa dessas faltas, não é assim?
- Quando as há; mas neste caso, só vejo uma extrema fineza da sua parte, Sr. Comendador.
- Perdão! Não tenho comenda de qualidade alguma; é uma intriga de certa gente. Não faça caso. Chame-se Soares, sem mais.
- Queira desculpar, acudiu Ricardo. Eu não sabia, Sr. Soares.
- Sem dúvida, nem vale a pena falar mais nisso. Quero apresentá-lo à minha mulher. Onde está tua mãe, Guida?
- Na sala.
Apresentando Ricardo a D. Paulina, o Soares deixou-o em companhia das senhoras.
- Desceu muito depressa a Pedra Bonita? disse Guida ao advogado. Nós voltamos logo depois e já não o avistamos.
- Estavam à minha espera.
- E o seu cavalo é muito bom!
- Está acostumado aos morros. É um bonito passeio o da Pedra Bonita; não o tinha feito ainda.
- Que pena! Não chegarmos até acima! disse D. Clarinha.
- Iremos outra vez! acudiu Guida.
- Depois que o encontramos, o senhor não faz idéia, Guida ficou impaciente por voltar! disse a sonsa da Clarinha.
- O sol estava muito quente! observou Ricardo.
(continua...)
ALENCAR, José de. Sonhos d’Ouro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1849 . Acesso em: 27 jan. 2026.