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#Romances#Literatura Brasileira

Garatuja

Por José de Alencar (1873)

— Aqui estamos, os povos da cidade, e o Sr. Sebastião Ferreira Freire, a quem por influição do seu e nosso divino padroeiro, escolhemos e nomeamos por nosso procurador para defender-nos contra a arrogância da clerezia; e todos vimos para requerer a vossa mercê, como ouvidor de nossos agravos e principal ministro da Justiça de El-Rei, aquela que nos é devida, pela afronta que sofremos na pessoa do nosso tabelião. 

— Queremos despicá-lo! 

— Cala-te daí! Deixa falar o rapaz. 

— Está conclusa em mão de vossa mercê, continuou o Ivo, a devassa tirada contra os criados do prelado; e porque não é bem que se retarde a punição dos culpados, pedem os povos aqui reunidos que vossa mercê profira sua respeitável sentença, para ser executada esta mesma noite; assim que daqui não sairemos sem ela. 

— Venha a sentença! gritou a turba. 

Não podia o Dr. Mustre cogitar melhor desforra contra o prelado do que essa que lhe acabava de sugerir o Garatuja. 

Vendo-se apoiado pela efervescência popular, e podendo em todo o tempo escusar-se a pretexto de coato, decidiu-se o magistrado a responder à mitrada com uma chibatada de sua vara branca de ouvidor. 

— Despachar os leitos com a maior presteza, é da obrigação do juiz: como é da minha satisfação prover as urgências dos povos de minha jurisdição, e deferir as suas súplicas, sendo elas fundadas em boa razão. Esperai enquanto torno! 

Já se dissipara o atordoamento em que havia caído o Sebastião Ferreira; mas ao passo que fora saindo desse embotamento moral, o começara a invadir uma sorte de embriaguez; era a carraspana dessa jerebita, que chamam popularidade, e à qual não resistiam os pacíficos tabeliães de outrora, como também não lhe escapam hoje os nédios ç maciços barões. 

Vendo-se à testa daquele ajuntamento de gente, que requeria dos ministros d’El-Rei em tom de mando, e não de súplica, o nosso tabelião revestiu-se da sua importância de cabeça dos povos de São Sebastião, e enchendo-se de entusiasmo, exclamou: 

— A sentença, senhor ouvidor, pois se recusais a estes povos a justiça real, não estranheis que apelem eles para a justiça de Deus! 

— Sim, apelaremos! 

— Apelemos já! 

— À toca do padre! 

— Deite-se fogo à casa! 

— Devagar, camaradas, clamou Ivo; é preciso fazer as cousas em regra. Se os bichos têm de ir lá parar, que vão com todas as cerimônias. 

— Assim é! 

— Esperemos a sentença. 

Esta não se demorou. Breve assomou de novo à porta o Dr. Mustre, que deu leitura do decreto judicial pelo qual declarando procedente a devassa, sujeitava a prisão e livramento aos minorenses, fâmulos do prelado, ordenando se incluísse seus nomes no rol dos culpados, e se expedisse mandado de captura. 

Com uma salva de aplausos foi acolhida a sentença, da qual o escrivão ad hoc lavrou logo o termo de publicação, passando incontinenti o mandado de captura, que foi entregue aos beleguins da Ouvidoria para o cumprirem com assistência dos povos. 

Poucos momentos depois atopetava-se a multidão na Rua da Quitanda em frente da morada do prelado, cuja cerca foi invadida, e posta em sítio a casa. Esta conservava-se fechada como estava, e em silêncio, apesar do vozerio e burburinho do povo. Adiantou-se o beleguim, e batendo na porta com a vara, proferiu a seguinte intimação: 

— Em nome d’El-Rei, e por ordem do senhor ouvidor-geral, intimo os moradores da casa, ou quem nela estiver, a que abram a porta a fim de cumprir a diligência que me foi ordenada, e não o fazendo à 3ª notificação, procederei a arrombamento e penetrarei à viva torça e de mão armada, se for preciso. 

Mal acabava o beleguim, que de supetão abriu-se a porta e assomou nela o vulto do prelado.

— Retirem-se, desavergonhados, que não se pisa a soleira desta casa, sem nossa vênia!

— Vênia? Nós do povo lha escusamos. 

— Avie com isso, meirinho! 

Impelido pelo arrojo do popular, o meirinho desenrolou o mandado: 

— Com o presente mandado de captura, requeiro a Vossa Reverendíssima, Sr. Dr. Manuel de Sousa Almada, que entregue à prisão os seus fâmulos, Cláudio de Sousa... 

— Insolente, bradou o padre, cuja cólera fez explosão. Desafio-te e a essa canalha, que transponham o batente desta porta. Aquele que o fizer será maldito; em nome de Deus o excomungo, e o teto desta casa se abata sobre os ímpios que a profanarem.  

Ante essa execração, feita com gesto solene e voz retumbante, a multidão recuou pávida; mas ali estavam os estudantes para meterem o padre a ridículo, desarmando-o assim do prestígio que devia exercer no espírito daquela gente. 

Rapazes, em lhes dando para rir, não respeitam as cousas mais sagradas: assim que soltaram os garotos um chorrilho de impropérios: 

— Como grunhe o cevado! gritou um brejeiro, aludindo ao painel. 

— Anda lá, acudiu outro farsola; deite os bacorinhos para fora! 

Romperam as gargalhadas e chacotas com que a multidão, de novo excitada, assaltou a casa do prelado. 

(continua...)

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