Por Visconde de Taunay (1872)
—Então, como lhe dizia, prosseguiu o outro dirigindo-se para Coelho, o senhor pagar-me-á no principio da aplicação e no fim. Assim, não há enganos... Serve-lhe?
—Que remédio! suspirou Coelho. Eu lhe darei... até trinta mil-réis... ou...
quarenta...
—Qual! retorquiu Cirino. O meu preço é um só.
—E a quanto monta?
—A cem mil-réis.
—Cem mim réis! exclamou Coelho aterrado. —Cinqüenta no principio, cinqüenta no fim.
Gemeu o doente lá consigo.
—Ora o que é isto para você, compadre? interveio Pereira. Um atilho de milho para quem tem tulhas cheias a valer!...
—Nem tanto, nem tanto assim, objetou Coelho.
—Deixe-se de historias, continuou Pereira. Se vosmecê não tivesse bons patacos, eu diria logo ao nosso amigo:—Olhe que este é dos nossos, não tem onde cair morto — e ele havera de curar de graça... não é?
—Decerto, decerto, declarou Cirino com muita prontidão.
—Mas com vosmecê o caso é defronte! Doutra maneira, por que razão havia um cirurgião de andar por estes socavões? Também quer bichar um pouco...
— É muito justo...
—Cinqüenta... mil... réis, balbuciava Coelho; assim de pancada. . .
—Se o médico o cura, disse Meyer intrometendo-se, é negócio da China.
Nada dizia Cirino por dignidade própria. Estava folheando o Chernoviz, cujas páginas mostravam continuo manusear, algumas até enriquecidas de notas e observações à margem.
Assim no artigo opilação ou hipoemia intertropical havia ele escrito ao lado: "E o que se chama no sertão moléstia de empalamado". E, no fim abrira grande chave para encerrar esta ousada e peremptória sentença: "Todos estes remédios de nada servem. Sei de um muito violento, mas seguro. Foi-me, há anos, ensinado por Matias Pedroso, curandeiro da Vila do Prata, no sertão da Farinha Podre, velho de muita prática e que conhecia todas as raízes e ervas do campo".
—Pois bem, disse Coelho depois de grande hesitação, está o negócio fechado. Mas, olhe que entrará no pagamento o preço das mezinhas, e as visitas hão de ser feitas em minha casa...
—Não há duvida, concordou Cirino; irei à sua fazenda todos os dias... Não é longe daqui?
—Nhor-não... duas léguas pequenas, pela estrada.
—Bem. O senhor, em voltando a casa, meta-se logo na cama.
Coelho fez sinal que sim.
—Amanhã, continuou o moço, deve tomar estes pós que lhe estou mostrando. Divida isto em duas porções; há de fazer-lhe muito efeito; depois descanse dois ou três dias, se acaso se sentir muito fraco; em seguida:
E parando de repente, encarou Coelho alguns instantes:
—O senhor quer mesmo curar-se?
—Oh! se quero!
—E tem confiança em mim?
—Abaixo de Deus só mecê pode salvar-me.
—Então, tomará às cegas o que eu lhe receitar?
—Até carvão em brasa.
—Olhe bem o que diz . . Não gosto de começar a tratar para depois parar... —Não tenha esse medo comigo...
Viver como vivo, antes morrer...
—Então, continuou Cirino com pausa, acabados os dias de sossego, há de o senhor engolir uma boa data de leite de jaracatiá.
— Jaracatiá?! exclamaram com assombro o doente e Pereira.
—Jarracatiá?! gaguejou por seu turno Meyer, arregalando os olhos, que é jarracatiá?
—Mas isso vai queimar as tripas do homem, observou o mineiro.
Cirino replicou um tanto ofendido:
—Não sou nenhum criançola, senhor Pereira. Sei bem o que estou dizendo. Este remédio é segredo meu, muito forte, muito daninho; mas não é nem uma, nem duas vezes, que com ele tenho curado empalamados. A coisa está no modo de dar o leite e na quantidade: por isso, é que não faço mistério, avisando contudo que com uma porçãozinha mais do que o preciso, o doente está na cova...
—Salta! atalhou Pereira, tal mezinha não quero eu... antes ficar empalamado. —Que é jarracatia? tornou a perguntar Meyer.
Coelho abaixou a cabeça e parecia estar refletindo na resolução que havia de abraçar.
Depois, com voz melancólica:
—O dito, dito, declarou, aceito tudo o que vosmecê me der. Agora, quanto fizer está bem feito... Como é que devo tomar o jaracatiá??
—Em tempo lhe direi, replicou Cirino. Fazem-se três cortes no pé da árvore e deixa-se correr o primeiro leite: eu mesmo hei de recolher o que for bom. Tenha toda a confiança em que o senhor ficará são... Bem sabe, ninguém em negócio de doença, mais do que outro qualquer, pode nunca dizer: isto há de ser assim ou assado... Todos estamos nas mãos de Deus. Só Ele pode saber se a moléstia nos sairá do corpo ou nos há de atirar à sepultura. Todo o bom cristão conhece isto e deve conformar-se com a vontade divina... O que o médico faz é ajudar a natureza e dar a mão ao corpo quando ele pode ainda levantar-se...
—Justo, justo! apoiou Meyer, então todo empenhado em picar um formoso coleóptero.
—Assim também é que eu entendo, disse o mineiro.
—Mas, o que é jarracatiá, senhor Pereira? insistiu o alemão.
Voltou-se o interpelado com impaciência:
—E uma árvore, Sr Meyer, árvore grande, de folhas cortadas, que dá umas espécies de mamõezinhos. Deitam leite muito grosso e queimam os beiços quando a gente não tem cuidado. E uma árvore, ouviu? Uma árvore! —Ah! exclamou o alemão concertando a garganta.
(continua...)
TAUNAY, Visconde de. Inocência. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17500 . Acesso em: 28 fev. 2026.