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#Romances#Literatura Brasileira

O Seminarista

Por Bernardo Guimarães (1872)

Eugênio saiu de junto do padre com o espírito um tanto abalado; pelo menos achava-se resolvido a implorar o auxílio do céu para extinguir aquela paixão, que era ao mesmo tempo o encanto e o tormento de sua existência. Ainda que sem fé a princípio, e sem esperança alguma de resultado — e talvez por isso mesmo — entregou-se como outrora às práticas do mais austero ascetismo, e na solidão de sua cela deu-se à vida de penitência e contemplação com uma exaltação e fervor dignos dos antigos anacoretas dos desertos da Calcida, da Nitria e da Tebaida.

À força de orações e jejuns, vigílias e macerações, de novo conseguiu reduzir o seu corpo a múmia ambulante, e o espírito a um foco de visões beatificas e fanáticas alucinações. Desta vez porém o áspero e pesado manto do ascetismo não logrou abafar a chama teimosa que abrasava o peito do mancebo. A fibra do seu coração tinha-se fortalecido com os anos. O vaso frágil das afeições infantis se convertera em urna diamantina, que conservava inteiro e inalterável o filtro fatal que os lábios de Margarida nele haviam vazado entre os beijos de mel e lágrimas de fogo.

Embora, procurava o anjo de devoção, com a sombra mística, de suas asas, acalmar os tumultuosos transportes daquela alma apaixonada. Na maior exaltação de seus êxtases beatíficos, no rigor de suas austeras mortificações, lá mesmo lhe aparecia a imagem de Margarida, formosa como visão celeste, e com um sorriso melancólico dizia-lhe com acento de triste e amarga exprobração:

— Louco, que pretendes esquecer-me e pedes ao céu forças para ser perjuro e desapiedado! Lutas em vão; eu sou o anjo que leva ao céu teus pensamentos e tuas orações, e jamais consentirei que cheguem ao trono de Deus tuas mentirosas preces. Esquece-me se puderes, mas não peças auxílio ao céu para caíres no inferno!

Então Eugênio, alucinado e quase em delírio, batia com a fronte na terra, estorcendo-se e bradando com voz sufocada entre soluços:

— Perdão, Margarida, perdão!

Assim continuou por longo tempo a luta travada no espírito do mancebo entre o amor e a religião, entre duas paixões que com ele nasceram e com ele poderiam viver e fazer a sua felicidade, se as instituições humanas não houvessem erguido entre elas uma barreira insuperável.

Entretanto, a ausência, o decurso dos anos, a falta absoluta de relações e mesmo de notícias da mulher amada eram circunstâncias que não podiam deixar de influir poderosamente em desvantagem da paixão profana, que insensivelmente se ia arrefecendo como lâmpada velada, que se consome a si mesma e fenece à míngua de alimento. Outro tanto não acontecia ao misticismo, que alimentado por contínuas práticas de devoção, exaltado por eloqüentes e calorosas exortações e conselhos, cada dia ia ganhando terreno, e contava com todos os elementos da vitória.

Duas circunstâncias vieram contribuir poderosamente para acelerar o triunfo das idéias teocráticas e fazer paliar a estrela do amor no horizonte da vida do mancebo.

Era um domingo. Celebrava-se missa solene por ocasião de uma festividade da igreja.

Por esse tempo o padre missionário Jerônimo Gonçalves de Macedo, o digno e venerável companheiro de Viçosa e de Leandro, achava-se em Congonhas do Campo de passagem para o sertão da Farinha Podre, onde por sua grande ilustração e virtudes apostólicas era chamado para lançar as bases de um novo colégio na extremidade ocidental da província de Minas — o seminário de Campo Belo.

Jerônimo foi convidado a pregar o sermão desse dia.

Possuía ele em alto grau os mais eminentes predicados de orador sagrado. A uma bela e imponente figura, a um acionado largo e majestoso, a uma voz cheia, vibrante e sonora reunia a palavra ardente e repassada de unção, a eloqüência que se inspira em sua verdadeira fonte, na abundância do coração. O rico e formoso templo do Bom Jesus regurgitava de povo que acudira ansioso para ouvir a palavra do santo e eloqüente missionário.

Quando assomou no púlpito aquela nobre e veneranda figura, aquele busto, cujas linhas corretas e harmoniosas podiam servir de modelo ao escultor de gosto o mais severo para a imagem de um santo, possuído de respeito e admiração, cuidaríeis ver surgir do interior do templo o vulto do santo seu homônimo, do austero cenobita dos desertos da Calcida.

Era uma santa virgem e mártir que a igreja comemorava nesse dia. O elogio da castidade formou naturalmente o tema principal do sermão.

O orador depois de ter feito um brilhante panegírico da vida da santa, passou no epílogo a fulminar com os raios de sua eloqüência a moleza, o apetite sensual e os desvarios das paixões mundanas, e divinizou a castidade — a mais excelsa entre todas as virtudes, esse lírio puro e peregrino, cuja fragrância é mais grata ao Senhor do que os cânticos dos anjos, e do que todo o incenso que se queima em seus altares.

Para dar maior realce ao painel, traçou com mão de mestre uma viva pintura da sedução de Eva tentada pela serpente no paraíso.

(continua...)

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