Por Bernardo Guimarães (1872)
Nesse momento vinha descendo pela estrada que passava pela frente da casa a uns cem passos de distância, um cavaleiro todo embuçado em seu ponche e com o rosto quase inteiramente encoberto por seu largo chapéu desabado. Ao presenciar aquela cena, parou, deixando que primeiro passassem a escolta e o preso. Quando iam passando por diante dele, ergueu o chapéu e descobrindo o rosto, clamou com acento de voz satânico:
- Ainda bem, que a vingança do céu veio mais cedo do que eu esperava!
A esta voz Leonel, que marchava rapidamente e com os olhos cravados no chão, levantou sobressaltado a cabeça, estremeceu, cambaleou, e teria caído, se não se tivesse escorado ao braço de um dos guardas. Tinha reconhecido Elias.
Elias, que na manhã daquele mesmo dia tinha partido com o firme propósito de nunca mais voltar a Bagagem, ao sair da mata e avistar as vastas e formosas Campinas que se estendiam diante de seus olhos, sentiu cobrir-lhe o coração uma nuvem da mais sombria tristeza, e a custo se arrancava daqueles sítios onde deixava para sempre sepultadas suas esperanças e sua felicidade. As rédeas bambaleavam frouxas ao pescoço do animal, que marchava como lhe aprazia, enquanto o cavaleiro se esquecia no abismo de seus melancólicos pensamentos. A cada espigão que transpunha, cada buritizal que via atrás de si pelos imensos chapadões, sentia-se-lhe desfalecer a alma, a fraquear a resolução. Seu imenso amor, talvez também uma réstia de luz de esperança, que ainda lhe bruxoleava no fundo d’alma, ou mesmo algum oculto pressentimento o arrastava para junto de Lúcia. Enfim, tanto refletiu, calculou, devaneou, que, depois de ter cismado muito e andado bem pouco, estaria apenas a três léguas de distância, quando já o sol descambava, torceu bruscamente as rédeas ao cavalo, e voltou a galope.
- Vamos! exclamou; quero ir ver com meus próprios olhos a consumação de minha desgraça. Sim! quero ver, assistir a tudo; e seja para ela a minha presença como imagem viva do remorso, e como prelúdio da vingança que não tardará a cair do céu.
Quis o acaso que Elias chegasse exatamente a ponto de assistir ao ato da prisão de Leonel. Depois desta cena a que já assistimos, Elias enterrou outra vez o chapéu sobre os olhos, esporeou o cavalo e seguiu seu destino, murmurando consigo:
- Ah! Lúcia! Lúcia! tu me traíste, mas nem assim meu coração pode odiar-te, e agora sinto-me feliz por te ver livre das garras daquele malvado, do que por me ver tão cabal e solenemente vingado!
XIII – OS VIZINHOS
Depois da triste ocorrência da noite de sábado,Lúcia bem quisera mandar a Elias um bilhete, um simples recado mesmo, não para reatar relações culpáveis com seu antigo amante; seu honesto coração repelia semelhante idéia, mas para explicar seu procedimento, pedir-lhe perdão, e dizer-lhe um derradeiro e eterno adeus. Mas como? sempre rodeada de pessoas que a cercavam de cuidados às vezes importunos, não lhe era possível satisfazer esse desejo. Seu pai mesmo, receando que de novo se reavivasse um sentimento que já supunha quase extinto, posto que tivesse toda a confiança na honestidade de sua filha, contudo, à vista do estado de exaltação em que caíra sua imaginação enferma, julgou necessário observa-la com todo o cuidado e vigilância.
Esta contínua obsessão ainda mais lhe irritava o espírito, e aumentava os martírios do coração. Ser odiada, desprezada talvez por Elias sem deparar um meio de justificar-se para com ele e pedir-lhe perdão, era a mais pungente das torturas que a atormentavam. Queria só poder lhe dizer:
- Elias, tens razão de me odiar, de me amaldiçoar mesmo; mas acredita-me, eu não sou culpada; um dia saberás tudo, e estou certa que me perdoarás. Eu te amo ainda, e te amarei sempre; mas o céu não quer que sejamos um do outro. Curvo-me à impiedade de meu destino, esperando que a morte em breve virá pôr termo a meus martírios. Adeus! . . .
Seriam estas as últimas palavras, que lhe dirigiria, e depois se devotaria inteira ao sacrifício que lhe era imposto. Mas nem isso, nem esse extremo consolo lhe era dado, e ainda mais penível se tornava sua situação, quando se lembrava que naquela fatal noite Elias apenas lhe relanceara um olhar sinistro e exprobrador.
No dia em que fora preso Leonel, Lúcia inculcando-se restabelecida, levantou-se da cama, em que há dois dias jazia; mas achava-se ainda muito alquebrada para poder sair do quarto.
Logo depois da cena da prisão, o Major dirigiu-se ao quarto de sua filha.
-minha filha, disse ele, reveste-te de paciência e de coragem; tenho mais um triste contratempo a anunciar-te.
- Qual é, meu pai? . . . fale! fale! . . .
- Não te aflijas, querida Lúcia. O golpe é bem sensível, mas creio que mais para mim, do que para ti. O negócio há de ser sabido imediatamente, e antes que outro te conte, quero que o saibas de minha própria boca.
- Então o que é, meu pai? . . . pode falar sem susto. Eu já estou acostumada a ouvir más novas.
- Acabo de assistir a uma cena bem triste. Leonel, o teu noivo, acaba de ser preso aqui à porta de nossa casa! . . .
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. O Garimpeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1776 . Acesso em: 26 fev. 2026.