Por Bernardo Guimarães (1872)
Dizendo isto o infeliz velho lastimava-se e chorava como uma criança, arrancando as cãs e praguejando da sua sorte.
– Ânimo, meu amigo!... disse-lhe Eduardo, chegando-se mansamente para ele. Não se entregue assim ao seu pesar. O estado de sua filha não é ainda para desesperar. Com a minha ausência seu espírito acalmará; não há sofrimento algum, a que o tempo não traga algum alívio. Quanto a mim não devo parar mais nem um instante nesta casa, onde a minha presença parece que é e será sempre um desastre. Adeus, senhor Ribeiro!... perdoe-me, se sou a causa involuntária de tantos sofrimentos... por piedade, não se queixe de mim... sou digno de lástima, mais do que ninguém... eu também sofro... sofro tanto como ela... e vou ser para sempre infeliz.
Falando assim o moço abaixava o rosto e tapava os olhos com a mão para ocultar suas lágrimas.
– Acredito e lastimo-o de todo o coração, senhor Eduardo,– respondeu-lhe o fazendeiro; – mas espero que me fará o favor de não ir ainda hoje; espere ainda até amanhã ou depois, tenha paciência. Quem sabe se aquele estouvado cairá ainda em si?... ele estava atordoado com o golpe que recebeu; não sabia o que dizia, nem o que fazia... o caso não era para menos. Mas talvez que refletindo pense melhor... Esperemos; sou eu que lhe peço em nome de Paulina.
Não havia resistir. Eduardo deixou-se ficar e com o coração atravessado das mais raladoras angústias encaminhou-se para a gameleira, a cuja sombra foi se sentar. Era ali o horto, em que há tempos fizera tragar à mísera Paulina o cálix da amargura; era ali também, que agora ia sorver as fezes do fel das desventuras, que ele por uma cruel fatalidade tinha preparado com suas próprias mãos para si e para ela.
Que de amargas reflexões, que de pungentes recordações não o assaltaram ali naqueles curtos momentos, que resumiam uma vida inteira de decepções, de mágoas e de angústias!
Capítulo XIII
Desengano tardio
Joaquim Ribeiro, deixando Eduardo no curral, entrou para casa e foi procurar o padre, que estava na sala de jantar acabando de consumir pausadamente uma excelente refeição. Ali comunicou ele confidencialmente ao padre, que era conhecido e velho amigo seu, a verdadeira causa dos padecimentos de sua filha, e as cruéis dificuldades, em que se via, expondo-lhe minuciosamente tudo o que havia ocorrido em sua casa, desde a primeira vez que Eduardo nela aparecera, até o último incidente, que entre ele e Roberto acabava de ter lugar.
– Então já vejo, – disse o padre, que bem pouco pode valer neste caso a medicina, e que no meu caráter de padre e de amigo poderei talvez prestar-lhe melhores serviços aconselhando a esses malucos para entrarem no caminho da boa razão, do qual me parece que ambos eles andam bem desviados, ou consolando a pobre menina, e prestando-lhe, – caso precise, o que Deus não há de permitir, – os socorros do meu ministério. Se o senhor me permite mesmo não sairei de sua casa, enquanto não vir todo esse negócio acomodado e arranjado do melhor modo que for possível.
– Oh! senhor padre, quanto lhe fico agradecido!... faz-me com isso o maior favor do mundo; eu mesmo já lhe ia pedir. Ajude-me, por quem é, a salvar aquela pobrezinha.
– Esse é o meu dever como médico, como padre, e muito particularmente como amigo. Por agora vamos ao quarto da menina a ver como vai passando.
A febre de Paulina tinha declinado consideravelmente, e tinha-lhe voltado a calma e lucidez do espírito; mas achava-se em estado de debilidade e prostração tal, que parecia estar em delíquio. O médico e o pai fizeram-lhe algumas perguntas, a que respondeu com voz lenta e fraca, porém com muito acordo e conveniência.
– Está extremamente fraca, – disse o padre, – mas antes isso... é a reação da febre; se não sobrevier algum outro acesso, não há mais perigo... É preciso ir-lhe dando desde já os cordiais, que indiquei, nada de alimentos, e sobretudo muito sossego. Vamo-nos, sr. Ribeiro; deixemos a menina descansar...
– Não, senhor padre; podem ficar e conversar... não sinto por ora necessidade de repouso. Por que não aparece também o sr. Eduardo?... e o primo... que é dele, meu pai?...
– Roberto, – respondeu-lhe o pai, – teve precisão de ir a casa, – e volta logo à noite. Queres que chame o sr. Eduardo?
Paulina fez um aceno afirmativo.
Ribeiro fez um sinal ao padre chamando-o para fora do quarto.
– Que diz, senhor padre, – perguntou-lhe, apenas saíram, – acha que não haverá inconveniente em deixar que Paulina se entretenha alguns instantes com esse moço?...
– Eu sei, meu amigo?... a presença dele vai-lhe avivar uma lembrança que convinha trazer-lhe sempre arredada do espírito o mais que fosse possível.
– Mas, senhor padre, de que serve não se achar ele ali, se ela o traz sempre presente na imaginação? assim melhor será, que de fato esteja presente; ela quer-lhe tanto... talvez a presença dele lhe sirva de algum alívio e consolação.
– Pode ser; mas recomende ao moço toda a cautela e moderação...
uma conversação só para distraí-la e nada de tocar em assuntos melindrosos, nada de excitar-lhe emoções...
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. Histórias e tradições da Província de Minas Gerais. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2142 . Acesso em: 24 fev. 2026.