Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

Encarnação

Por José de Alencar (1878)

— Perdão, Julieta, perdão! Confesso que Amália me fascinou; mas o que eu amei nela foi unicamente a tua lembrança, a tua alma que às vezes eu ouvia em seus lábios, e via em seus olhos. O que era ela, e só ela, a sua beleza, essa eu a admirava; mas enchia-me de terror. Resistia à tentação, refugiando-me em teu amor; e se tu não me amparasses, teria sucumbido! Salvei-me, preservei minha alma; ela está pura como a deixaste, e vai reunir-se à tua pela eternidade. Eis o momento. Recebe-me em teu seio; não me deixes mais um instante neste mundo, pois aqui mesmo, perto de ti, próximo a infundir-me no teu ser, eu a vejo, eu a sinto, a ela, a Amália; e tenho medo que venha arrebatar-me de ti, e separar-nos para sempre.

A voz de Julieta murmurava-lhe então ao ouvido:

— Não tenhas este receio, meu Hermano. Queres saber por que tu vês Amália, em mim, em tua Julieta? É porque ela te ama como eu te amei, com igual paixão. Ela e eu não somos senão a mesma e única mulher que tu sonhaste. Podes dar-te a ela; é como se te desses novamente a mim. Vi que estavas triste e só no mundo; que a minha lembrança não te bastava, e então revivi em Amália, transmiti-lhe minh' alma para que fosse tua esposa; para que tu me adorasses em uma imagem viva, que te retribuísse, e não em uma estátua de cera.

— Embora; estou cansado de viver; quero reunir-me a ti, em espírito, desprendendo-me dessa materialidade impura, que pode subjugar a alma, e arrastá-la ao crime. Amália é minha esposa perante os homens; e desde que nela está a alma de minha Julieta, ela é também minha esposa perante Deus; poderia pertencer-lhe legitimamente, porque te pertenceria a ti; mas essa poderosa sedução de sua beleza, se eu a sofresse de outra mulher?... Não passaria de novo pelo martírio que me atormentou?... Melhor é nos reunirmos no céu; recolhe a alma que deste a Amália, e leva-nos com ela.

A voz melodiosa suspirou outra vez:

— Queres morrer, meu Hermano? Queres deixar o mundo? Pois bem, dá-me tua alma: deixa-me absorvê-la na minha, e confundi-la que não formem senão uma só. Então abandonaremos a terra e iremos esconder-nos no seio de Deus, que nos criou.

Então Hermano sentiu uns lábios que se embebiam nos seus e hauriam-lhe a vida. Esse beijo ideal foi como a inalação do espírito que animara o seu corpo e que, absorvido por Julieta, o desamparou. Desde esse momento ele não foi mais do que uma múmia.

E assim, como um corpo ermo de vontade e pensamento, seguiu Julieta, ou melhor diria, a alma gêmea em que se tinham condensado a sua e a da esposa. Atravessaram uma série de anos; eram os de sua existência, cujo curso haviam remontado, e agora de novo repassam. Todas as fases de sua história, ele as reviveu com uma mulher que não era nem Julieta, nem Amália; mas as duas vazadas em um só molde.

O passado e o presente se travavam e confundiam. O seu primeiro casamento, que fora de manhã, e o segundo, que celebrara à noite; as noivas, de tipos tão diversos; aqueles dois toucadores, um azul e branco, e outro rosa e ouro; todas essas coisas se haviam identificado.

A mulher que ele amara tinha a beleza de Amália e a alma de Julieta. Com essa mulher percorreu toda a sua vida até aquele momento em que resolvera deixar o mundo para consumar o consórcio da eternidade.

Uma nuvem branca e nítida vendava-lhe o céu. Ali estava um objeto cuja forma não distinguia; parecia-lhe um altar; uma pira, onde o fogo ia consumir-lhe o corpo, depurando a alma e preparando-a para a bem-aventurança.

Ele estava só; junto dele não havia outro corpo, mas uma essência divina, em que se imergia; um resplendor que se condensava em formas voluptuosas para envolvê--lo de luz. As chamas dessa luz o abrasavam, mas com uma lava doce e inebriante, que lhe acrisolava o ser. Enfim ele sentiu sua alma desprendendo-se das cinzas, remontava ao céu.

Nesse momento D. Felícia, que voltava do baile com o marido, soltou um grito de terror vendo o grande clarão que avermelhava o horizonte.

Um incêndio violento devorava a casa de Hermano.

Capítulo 21

Cinco anos permaneceram em abandono as ruínas da casa incendiada. Um ilhéu, que alugara a horta para negócio, tratava da chácara.

Já se tinha desvanecido a lembrança do sinistro, quando uma manhã, cerca de onze horas, parou ao portão uma vitória descoberta, conduzindo pessoas com o aspecto muito conhecido de viajantes que desembarcam.

O assento principal era ocupado por uma senhora de rara formosura, trajada com elegância, e por um homem de parecer distinto, ainda moço, apesar dos fios de prata que matizavam os seus cabelos negros.

Em frente a eles ficava uma gentil menina de quatro anos, na qual reproduzia-se como em uma miniatura a beleza da senhora, porém, com certo contraste de fisionomia. Tinha as feições da mãe, os mesmos traços, a mesma expressão; mas os cabelos e os olhos eram castanhos, e não louros.

Um criado velho, que vinha ao lado do cocheiro, saltara do carro e abrira o portão, enquanto o cavalheiro apeava-se com a família.

— Espera-nos aqui, Abreu, disse a senhora entregando a filha ao criado, e não deixe Julieta apanhar sol.

Tomando então o braço do marido, seguiu pelo passeio gramado da chácara na direção das ruínas que apareciam por entre as árvores e indicavam o lugar onde fora a casa.

O incêndio desmoronando o teto e consumindo todo o madeiramento deixara em pé as paredes do edifício de modo que de fora via-se como um esqueleto a antiga habitação com seus aposentos e divisões.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...3132333435Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →