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#Romances#Literatura Brasileira

Sonhos d’Ouro

Por José de Alencar (1872)

Fora de casa, não saindo com ele, entregava-o a mulher  a um lacaio de confiança, que o levava a visitas e negócios indicados no rol; ou o conduzia direito ao escritório, onde tomava conta dele o seu jovem sócio e “suplente no mercantil e doméstico”, segundo o maligno visconde da Aljuba. 

Filho do consignatário, onde se arrumava em rapaz João Barbalho, quando deu demão ao ofício de tocador de tropas, herdara o Barros bom patrimônio, o qual se lhe multiplicava na burra, sem que ele se apercebesse do como isso se fazia. Quando o sócio no fim do ano lhe atestava com o balanço os grandes lucros da casa, não se imagina o pasmo em que ficava por muitos dias. 

Chegado o tempo de entrar para a roda dos figurões, lembrança que bem se vê não partiu dele, mas da mulher, e entabulada a negociação, tratou-se da escolha do título. D. Guilhermina tinha paixão pelo de condessa, e achava que uma coroa de três castelos ia às maravilhas com as tranças opulentas de seus cabelos negros. 

Desta vez, porém, o marido quis ter voto e ser homem. Preferiu o título de conselheiro; e turrou de modo que não houve meios de arrancá-lo daí. Nem a mulher, nem o sócio, nem mesmo o Soares, que era um oráculo para ele, o demoveram do seu propósito. Essas almas de gelatina têm isso de particular, que em se inteiriçando, tornam-se guascas; não dobram mais. 

Foi o único momento, em que esse homem, habituado desde a sua vinda ao mundo a ser qualquer, foi eu. Toda a energia que devia ter despendido a pequenas doses durante quarenta anos, acumulou-a para empregá-la de um só jacto. Debalde tentaram persuadi-lo que podia ser conselheiro e conde ao mesmo tempo contando que pagasse em proporção. Na paga, não havia dúvida de sua parte; mas a prática do mundo lhe ensinara que o conde mata o conselheiro; e se ele caísse em afidalgar-se, ninguém o trataria jamais por “conselheiro Bastos”, que era a sua grande ambição. 

A maior concessão, a que chegou, foi consentir que a mulher se fizesse condessa, ela só, ficando ele conselheiro. Neste sentido, a instâncias de D. Guilhermina, deram-se os passos necessários; mas o governo, depois de ouvir os mestres da lei, decidiu que uma condessa só pode ser mulher de um conde. 

Resignou-se pois D. Guilhermina, com o maior pesar, ao seu nome de batismo; mas não perdeu de todo a esperança. Consta que apelou para a emancipação das mulheres, idéia de que era ardente sectária, e com razão, porque de seu casal foi ela sempre em contestação o cabeça. 

Já agora aproveitemos a ocasião para completar o quadro, com alguns traços biográficos do Soares. 

Era ele paulista; e dos quatro o mais moço, e mais rico ele só do que todos os outros juntos. Viera ao Rio de Janeiro pela primeira vez aos onze anos de idade, tocando uma porcada, que trazia ao mercado seu tio, velho roceiro de Lorena. 

Naquele tempo as porcadas percorriam as ruas, como ainda hoje os bandos de perus. Estando parados em uma rua, enquanto o velho comprava chita, um moleque à sorrelfa introduziu no ouvido de um leitão uma bicha. Ao estalo do foguete, espirrou o bacorinho, e ei-lo a correr espavorido. O rapazinho barafustou atrás, para atar-lhe a corrida. Mas corrida foi aquela que o meteu por um labirinto de ruas, onde a cabo de uma hora achou-se às tontas, sem novas do bacorinho nem do tio. Quanto mais procurava orientar-se, mais se atrapalhava; e todo o resto do dia levou a quebrar esquinas, até que exausto de fome e de cansaço, acocorou-se no vão de uma porta, a engolir as lágrimas que lhe queriam saltar aos bugalhos. 

Passava um menino de volta do colégio, acompanhado de seu pajem, que sentindo lhe puxarem pelo jaqué, voltou-se e viu o lapuzinho, de mãos postas a implorá-lo. 

- Que tem você? perguntou-lhe com pena. 

- Me perdi! 

O menino era Barros, filho do consignatário, onde já estava de caixeiro João Barbalho. Levou o caipirinha para a casa; e a família compadecida o agasalhou, mandando em busca do velho roceiro, que não foi possível encontrar apesar de todas as pesquisas. Resolvido a encarreirar o rapazito, o consignatário o arranjou de caixeiro em casa de um cambista; e aí começou ele a carreira que devia levá-lo ao apogeu da riqueza. 

De gênio franco e jovial, tinha Soares uma fonte perene de alegria, com que orvalhava as agruras da vida; mas através dos risos e pilhérias, seu espírito pronto e seguro trabalhava com a inflexibilidade da moda de aço que move as figuras de um realejo. 

Suas melhores operações, combinava-as no meio de um jantar ou de uma partida de jogo, e executava-as a galhofar. Brincava com seus milhões, como um menino com seus trebelhos. 

Sendo de todos o mais rico, era para notar-se que fosse o menos graduado. A comenda era uma história, e vale a pena saber-se. 

Quando a riqueza de Soares tornou-se sólida e incontestável, até para os invejosos, começaram a chamá-lo de comendador, e por mais que o milionário metesse a coisa a ridículo, defendendo-se contra a honraria, por tal modo vulgarizou-se o tratamento, que não houve meio de resistir-lhe. O público soberano entendeu que um homem tão recheado de ouro não podia existir sem que fosse ao menos comendador, como qualquer troca-tintas.

(continua...)

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