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#Romances#Literatura Brasileira

O Sertanejo

Por José de Alencar (1875)

Flor tinha destinado essa manhã para abrir seus baús e tirar os enfeites e galantarias de que a tinham acumulado, durante a estada no Recife, a ternura de sua mãe e a generosidade do pai. 

Para ajudá-la nessa tarefa e gozar do prazer de admirar aquelas bonitas coisas, chamou Alina; e ambas dirigiram-se à direita do edifício, onde ficavam seus aposentos. 

Havia de ser então mais de nove horas da manhã. O sol, ainda ardentíssimo a-pesar-dos anúncios do inverno, dardejava no céu do mais puro azul, em cuja imensidade não se descobria nem um esgarço de nuvem ou tênue vapor. Majestosa serenidade do clima tropical, em que aliás se ostenta a pujança dessa natureza em repouso, e se pressente a violência de suas comoções, quando percutida pela tempestade. 

Já a alegria e animação que sempre traz a manhã nessa estação ardente, ia-se dissipando; e começava a calma da soalheira, que infunde no sertão indefinível melancolia. 

 

XV – A cavalhada 

 

O camarim ricamente alcatifado à moda do tempo era esclarecido por uma janela que abria para o terreiro, e da qual se descortinava ao longe a mata a cingir as faldas da serra. 

As duas moças, reunindo as fôrças e galhofando da própria fraqueza, tinham conseguido, depois de muitas risadas, arrastar para o meio da casa um baú da Índia, coberto de marroquim amarelo e cravejado de tachas de prata. 

Aberto o cadeado e virada a tampa, D. Flor sentou-se à frente em um estradinho baixo forrado de veludo, e Alina ajoelhou-se ao lado com os olhos cheios de prazer e curiosidade. 

DA mesma idade que a filha do capitão-mór, e também formosa, tinha essa moça o tipo inteiramente diverso. Era loura, de olhos azues, e corada como uma filha das névoas boreais. 

Foi ela talvez um dos primeiros frutos dessa anomalia climatológica do sertão de Quixeramobim onde, sob as mesmas condições atmosféricas, se observa com frequência e especialmente nas moças, aquela notável aberração do tipo cearense, em tudo mais conforme à influência tropical. 

Alina era filha de um parente remoto de D. Genoveva. Ficando órfã em tenra idade, o capitão-mór, a pedido da mulher, a tinha recolhido com a mãe viúva, prometendo educá-la e arranjá-la. 

A primeira parte dessa promessa o fazendeiro já a tinha cumprido, repartindo com a órfã a mesma educação que dera à sua filha querida. Quanto ao resto havia quem afirmasse que êle destinava Alina para o Arnaldo, e só esperava que a moça comletasse os dezoito anos. 

D. Flor tirou de dentro do baú galantarias de toda a sorte, das mais finas e custosas que então se vendiam nas lojas e tendas do Recife, onde ainda se mantinham os hábitos de luxo oriental com que as colônias do Brasil ofuscavam a metrópole. 

Alina soltando gritozinhos de prazer, não achava expressões para manifestar sua admiração; com os olhos e a alma cativos do objeto que D. Flor lhe havia passado, deixava-se ficar em êxtase, até que outra louçainha a vinha disputar por sua vez. 

Já a tampa do baú estava cheia de estofos que Alina aí fôra arrumando, depois de os admirar, quando D. Flor, encontrando uma comprida caixa coberta de primavera e que procurava, ergueu-se com ela. 

— E êste vestido, Alina? Quero saber o seu gôsto. 

D. Flor tirara de dentro da caixa uma peça de escarlatim, e desdobrando o lindo estôfo de sêda arrugou-o com a mãozinha faceira, e deixou-o cair da cintura como o fôlho de uma saia. 

— Que maravilha, Flor! exclamou a órfã cruzando as mãos. 

— Quanto mais quando estiver no corpinho gentil de certa pessoa que eu conheço!

— Não é seu? perguntou Alina pesarosa. 

— Em mim não ficaria tão bem como na dona. Quer vewr? 

D. Flor levou Alina surpresa diante do tremó e aí envolveu-a nas dobras do estôfo carmesim. 

— É para mim, Flor? 

— E para quem mais podia ser, menina? Cuidou então que todo êste tempo, no meio de tantas festas, não me tinha lembrado de si, ingrata? 

— O bem que você me quer, Flor, eu sei; mas eu é que não mereço estas lindezas. 

— Merece meu coração que é maior preciosidade do que todas as galas do mundo, respondeu D. Flor sorrindo-se. 

As duas amigas e companheiras de infância abraçaram-se com efusão e encheram-se mutuamente de carícias. Quando acabaram de desafogar sua ternura, a filha do fazendeiro tornou ao baú, deixando a outra ainda em contemplação diante do estôfo de sêda desdobrado sôbre o tremó. 

Não era admiração unicamente o que sentia Alina: era quase adoração, inspirada pela linda tela, em cujo brilhante matiz revia porventura naquele instante o resplendor dos sonhos de sua imaginação. 

— Está vendo êste listão, Alina? disse D. Flor, voltando-se para mostrar o objeto.

— Como é bonito! 

— Fica-me bem? 

— Fica uma jóia. Com ela você parece uma princesa encantada, Flor. 

Alina tinha razão. A faixa de chamalote azul que a moça acabava de passar a tiracolo, prendendo-a ao ombro direito com o broche de ouro, dava ao seu talhe airoso um porte regíneo. 

(continua...)

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