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#Romances#Literatura Brasileira

Garatuja

Por José de Alencar (1873)

No alto do pelourinho estava um retábulo armado com pintura de transparente. A tela esclarecida pelo anverso com cabeças de breu representava em grande o vulto de São Sebastião, baixando do céu ao Morro do Castelo. Com uma vergasta que tinha na mão direita, o divino padroeiro expelia da sua cidade uma caterva de porcos que se tinham introduzido nela e estavam a fossar-lhe os muros. Na mão esquerda tinha o Santo arvorada sua bandeira, e a confiava à guarda do Sebastião Ferreira Freire, ali pintado em própria figura. 

Mas o traço, sobre todos notável do painel, era que os porcos tinham tonsura e cara de gente, vendo-se no maioral da frente a do prelado, e em seguida toda a fradaria, que o rodeava, desde o vigário-geral até o Cláudio minorense. 

Atinando com a alegoria, a multidão disparou em um afrouxo de riso, cujo burburinho cobriu o murmúrio das ondas a rolar na praia. Rompeu a revolução da gargalhada, a mais assoladora, e ás vezes a mais cruel de todas as revoluções. 

O respeito de que o seu caráter sacerdotal cingia o prelado, a força moral, essa formidável barreira que resiste às iras populares, nos seus mais terríveis assomos, o ridículo a acabava de aluir com um sopro. 

Era obra do Ivo, bem se percebe, a tal alegoria ou como hoje diríamos, a caricatura, e não ficava somenos nem pelo chiste, nem pelo desenho, às melhores que figuram aí pelas ruas da corte em dias de carnaval. 

Desde meio-dia trabalhara o Garatuja sem descanso, ajudado pela malta de estudantes que pulava de contente com a estrepolia, e aplaudia a lembrança do rapaz, sem importar-se com o desacato à religião, que estavam preparando naquele retábulo. 

Enquanto ele pintava, os outros preparavam a armação e as cabeças de breu para o transparente. 

O rebate foi dado por um pirralho, que animosamente trepou ao telhado da casa da Câmara, e lá se foi com a sutileza de um gato até o campanário, onde debruçado à beirada, conseguiu tanger o sino. 

Entretanto o povo, passada a primeira impressão, indagara entre si do autor dessa lembrança; e não faltava quem atribuísse o inesperado e misterioso aparecimento do retábulo à intervenção do poderoso São Sebastião que aí se representava para assim comunicar sua vontade aos moradores da cidade. Esse encanto do maravilhoso é irresistível para a imaginação popular. 

Aproveitando o momento de comoção, Ivo galgou os degraus da pilastra hasteando uma bandeira de São Sebastião, em tudo semelhante à do painel: 

— Povo de São Sebastião; é preciso entregar sua bandeira àquele a quem o nosso divino padroeiro escolheu para defendê-la! 

— Bem avisado! gritou uma voz. 

— Vamos sem mais detença à casa do Senhor Sebastião Ferreira, nosso tabelião!

— A casa do tabelião! gritaram todos. 

Estremunhado de sono, saltou o Freire da cama aos clamores que o apelidavam, e às tontas chegou à janela para ver o que lhe queriam; mas não antes de lhe assegurarem de fora que eram de paz. 

Num instante a turbamulta o envolveu e arrebatou; de modo que o pacífico tabelião achou-se sem acordo próprio e quase sem conhecimento de si, no meio da rua, levado em charola, com a bandeira de São Sebastião arvorada na sinistra, e uma catana empunhada na destra. 

Como isto se fizera, não o sabia ele. Viu-se no meio de um torvelinho de gente, e cercado de fogaréus, que lançavam pelas ruas onde passavam uns lampejos sinistros e faziam-lhe calafrios, lembrando-lhe os autos-de-fé. 

Eis como inventou o Ivo o “homem da situação”. O que ele fez com o seu pincel, ainda hoje há quem o faça com uma gazeta, e com o mesmo desembaraço e petulância. Do que não se precisa mais é de povo, essa antigualha sem serventia. Paga-se a música dos alemães; abre-se uma finta com o nome de subscrição para retrato ou jantar; e aí está uma notabilidade, um chefe de partido, um medalhão. 


XXV 

 

UM DOS CASOS EM QUE A AUTORIDADE OBTEMPERA 

PRONTAMENTE À VONTADE DO POVO, E TIRA 

A SARDINHA COM A MÃO DO GATO 

 

A troça dos estudantes com o Ivo à frente, servil de vanguarda ao motim, e fazia uma algazarra tremenda ao estalo da matraca, e ao zunido das cega-regas. 

— Abaixo o prelado! 

— E mais a sua clerezia! 

— Fora com a súcia! 

— Não queremos simonia! 

— A fogueira com eles! 

— E os formigões? 

— Havemos de pô-los à viola! 

— Qual viola, uma pisa! 

— E o tal Cláudio? 

— Eu cá, em o pilhando, migo-lhe os focinhos! 

Tomando a direção que lhe deu o Ivo, chegou a multidão em frente à casa do ouvidor, a quem saudou com repetidos clamores, instando por sua presença. 

Velava ainda o Dr. Mustre, cogitando nos sucessos do dia e suas conseqüências; e pois ouvindo os reclamos do povo, acudiu pronto. Foi recebido com estrondosa ovação ao aparecer no lumiar da porta. 

— Viva o Dr. Portugal! 

— Viva! 

— Por muitos e longos anos! 

— Viva!. 

— São Sebastião, pelo nosso ouvidor! 

— Pelo nosso ouvidor! 

Destacou-se o Ivo, e acenando aos sujeitos que traziam em charola o Sebastião Ferreira para chegá-lo à frente, assim falou ao magistrado: 

(continua...)

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