Por Visconde de Taunay (1872)
—Viagem, para onde?... Até a vila?
—Homem; Mochu, observou o mineiro um tanto desabrido, vosmecê está que nem mulher velha, tudo quer saber...
Meyer, nessa repreensão, que lhe causou vexame e alguma admiração, só enxergou censura justa a sua curiosidade, falta que confessou com toda a nobreza, embora agravando a situação.
—É verdade, Senhor Pereira, concordou ele. A boa educação não manda o que eu fiz .. mereço, porém, desculpa, mereço... Sua filha é tão interessante... que me lembro sempre dela... Tenho comigo uns presentezinhos...
—Guarde-os, rosnou Pereira abafando a reflexão num acesso de tosse.
E para evitar o prosseguimento de semelhante assunto, deu por finda a refeição, levantando-se da mesa.
— Aí vem o Coelho, doutor, exclamou ele olhando para fora. Xi! como esta amarelo!... Há tempos que o não via... já parece alma do outro mundo... É do tal em quem falamos... Aperte-o, porque é mofino como tudo...
E, interpelando a quem chegava gritou:
—Bons olhos o vejam!... Se não fosse, amigo senhor Coelho, ter médico em casa, nunca havera de vê-lo por cá; não é verdade?
—Ora, respondeu o outro com um gemido, ando sempre tão doente. Nem faz gosto viver assim... Mas qu'é dele, o homem?
—Está aqui...
—Já me disseram que faz milagres. Deixou nome para lá das Parnaíbas...
Sabia?
— Lá que tivesse deixado nome, não: mas que é cirurgião de patente, tenho certeza, porque, num abrir e fechar de olhos, me pôs de pé uma pessoa cá de casa.
—Se ele me curar... não sei mesmo como lhe agradecer.
—É pagar-lhe, concluiu Pereira, tratando logo de advogar os interesses do hóspede.
—Sim, hei de... pagar-lhe, confirmou o outro com alguma hesitação. —Em todo caso, desça do animal.
Pouco depois, entrava na sala e cumprimentava a Cirino e a Meyer a pessoa a quem o mineiro chamara Coelho. Era homem já de idade, muito mais quebrantado por enfermidades que pelos anos; tinha a testa enrugada, as bochechas meio inchadas e balofas, os lábios quase brancos e os olhos empapuçados.
—Qual dos senhores é o doutor? perguntou ele.
—Sou eu, respondeu Cirino, revestindo-se de convicto ar de importância, enquanto Meyer apontava para ele, cedendo direitos que talvez pudesse contestar.
Interveio Pereira com amabilidade:
—Sente-se, senhor Coelho, sente-se. Não se ponha logo a falar de moléstias... Isto não vai de afogadilho... Descanse um pouco... Olhe, já almoçou?
—O pouco que como, retrucou o outro, já está comido.
—Pois bem, ponha-se primeiro a gosto: depois então, converse com o doutor... Diga-me: que há de novo pela vila?
—Que eu saiba, nada... Também há mais de ano que de lá nenhuma noticia tenho... já não se me dá do que vai pelo mundo... Quem não goza saúde, perde o gosto de tudo... E mesmo uma calamidade . . .
Enquanto Coelho, em toada monótona, desfiava outras queixas no mesmo sentido, tirara Cirino da canastra o seu Chernoviz e algumas ervas secas que depôs em cima da mesa.
—O senhor, declarou ele voltando-se para o doente, está empalamado..
—É verdade, Senhor doutor.
— Eu, que não sou físico, observou Pereira, diria logo isso...
—Xi, compadre! atalhou Coelho com impaciência e pedindo silêncio.
—O senhor, continuou Cirino com entono, teve maleitas muitos anos afins depois começou a sentir fastio e o estômago embrulhado; inchou todo e em seguida definhou... Aos poucos, foi perdendo a sustância e o talento.
—Tal qual! murmurou Coelho seguindo com cautelosa atenção a marcha do diagnóstico.
—Agora, o senhor não pode comer que não sinta afrontação, não é?
—Muita, senhor doutor.
—Este homem, disse Pereira para Meyer, leu bastante nos livros... —Veio-lhe depois uma canseira, e, quando o senhor anda, dão-lhe uns suores e tremuras por todo o corpo... O baço está ingurgitado e o fígado também... De noite fica o senhor sem poder tomar respiração, mais sentado que deitado... Ás vezes tosse muito, uma tosse sem escarrar, como quem tem um pigarro seco...
—Tal qual! repetiu o enfermo com unção e quase entusiasmo.
—Pois bem, terminou Cirino, como já lhe disse, o Senhor está empalamado.
—E não há cura? perguntou Coelho meio duvidoso. —Há, mas o remédio É forte —Contanto que faça bem...
—Muita gente, replicou Cirino, tenho já curado em estado pior que o Senhor; mas, repito, o remédio É violento...
—Tomarei tudo, afirmou Coelho: há anos que faço um horror de mezinhas e de nenhuma delas tiro proveito. Vamos ver.
Cirino neste porto mudou o tom de voz e olhando para Pereira:
—O Senhor sabe, observou ele que o meu modo de vida é este...
Com um movimento de cabeça aplaudiu o mineiro aquela entrada em matéria. O mesmo não pensou Coelho, que tartamudeou:
—Ah!... Estou pronto... Sou pobre, muito pobre...
Piscou Pereira um olho com malícia.
—Costumo, continuou Cirino, receber o pagamento em duas metades. . .
Depois acrescentou, um tanto vexado:
—Se falo nisto agora com esta pressa, É porque também tenho precisão urgente de dinheiro. . Não acha, Senhor Meyer?
—Pois não, pois não, concordou o alemão: tem todo o direito.
—Meu amigo, corroborou Pereira, o doutor não trabalha para o bispo; tem que ganhar honradamente a vida.
(continua...)
TAUNAY, Visconde de. Inocência. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17500 . Acesso em: 28 fev. 2026.