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#Romances#Literatura Brasileira

O Seminarista

Por Bernardo Guimarães (1872)

Já não era só o amor, era um dever mais santo e porventura mais forte que o amor, que o forçava a jamais abandonar ao seu destino aquela infeliz criatura, que o céu como que havia confiado à sua guarda e proteção, fazendo-a nascer junto dele, e colocando-a à sombra do mesmo lar, como a tenra trepadeira, que nasce enleada ao viçoso e copado arbusto, amparando-se com sua sombra e nutrindo-se de sua seiva. Margarida, mesmo não podendo ser sua esposa, era sua irmã; embora o não fosse pelo sangue, o destino, colocando junto ao seu o berço dela, os tinha feito irmãos pela alma. Agora que seus pais com tanta desumanidade a repudiavam, e que não lhe restava senão sua velha e mísera mãe, ele que era seu único amparo sobre a terra devia viver só por ela e para ela.

O espírito do mancebo bem queria nas asas da religião e da piedade desprender-se da terra, e consagrar-se exclusivamente ao culto da divindade; mas um laço poderoso lhe tolhia os vôos e o tinha atado aos interesses e afeições mundanas.

Depois de ter volvido na alma todas essas tristes e anfargas reflexões, Eugênio exclamava: — Não, não posso, não devo ser padre! — e passava a excogitar os meios de despedir-se do seminário o mais breve que fosse possível.

CAPÍTULO XVIII

Eugênio, que já então tocando os vinte anos, conservava na alma toda candura e singeleza da infância, confiava ao seu diretor espiritual por miúdo e sem disfarce todas essas lutas íntimas, todas as irresoluções, fraquezas, inquietações do seu espírito. Expondo-lhe a obrigação sagrada, em que se considerava, de amparar e proteger na vida a companheira da sua infância o padre lhe fez ver que nada obstava a que ele satisfizesse aquele nobre e louvável impulso do coração, e que nisso não havia estorvo a que se ordenasse, uma vez que banindo do coração todo o sentimento amoroso, considerasse Margarida como sua irmã.

Para esse efeito porém era forçoso que evitasse o mais que pudesse a sua presença, fugisse de toda e qualquer relação com ela, e fosse como a Providência, que esconde a mão que derrama tantos benefícios sobre a terra, aliás recairia inevitavelmente em suas antigas fraquezas e desvarios. Ponderava-lhe demais, uma vez ordenado, que seu pai não duvidaria em restituir a Margarida as suas boas graças, e tomaria decerto a seu cargo ampará-la, prover à sua sorte futura, procurando-lhe um bom marido.

A estas palavras Eugênio estremeceu; mas contendo aquele movimento.

— Estou certo — respondeu — de tudo quanto me diz!... mas... é impossível!... estou inteiramente convencido que toda e qualquer tentativa que eu faça para banir de meu coração esta paixão, será sem resultado. Não está em mim, nem há poder nenhum sobre a terra que me possa tirar do sentido aquela mulher.

— Não o há sobre a terra, mas há no céu. Implore com fervor a graça divina, e ela não lhe faltará; e o seu triunfo, que considera impossível, será facílimo, e completo. A oração, a penitência, os exercícios piedosos, são armas poderosas para combater a tentação, filho; e Vm. mesmo já fez delas a mais brilhante prova, quando sendo muito mais criança conseguiu debelar completamente o inimigo que o tinha em contínua obsessão. Se não fosse a imprudência, de deixar o seminário, e ir colar-se de novo entre as goelas da serpente que o seduzia, teria evitado esta nova luta, talvez mais renhida e encarniçada que a primeira. Hoje, porém, que já com vinte anos deve ter outra energia e força de vontade, e sabe melhor ponderar as coisas, é que assim desanima como um covarde, e recua espavorido diante do inimigo?

— Mas, senhor padre, eu jurei a Margarida... Perjurar, esquece-la, abandoná-la a seu cruel destino não é uma traição, uma infâmia?

— O juramento inspirado pelas sugestões do demônio não é juramento, filho. Deus não o aceita, nem o confirma no céu. Jurou o nome de Deus em vão; fez mais, profanou como um ímpio o seu santo nome envolvendo-o em atos desregrados de libertinagem. Cometeu um grande pecado, de que cumpre lavar-se com lágrimas sinceras de compunção e arrependimento; mas não é um juramento, nem o constitui em obrigação alguma.

— Não sei, senhor padre, não sei o que lhe possa objetar... mas o coração se revolta, e diz-me a consciência que eu cometeria uma indignidade, um crime mesmo, arrojando em um abismo de infortúnio e desespero a uma criatura de quem sou mais do que o amparo, de quem sou a única esperança.

— Filho, olhe que toma por vozes da consciência o que não é senão murmúrio da paixão, embuste do demônio que porfia em obumbrar-lhe o espírito e amolecer o coração. Ânimo, filho!... nada o embaraça para esse nobre e santo cometimento, senão a sua própria vontade. Essa paixão que o atormenta é um cálix de provação que Deus lhe preparou para acrisolá-lo na luta e no sofrimento, e tornálo mais digno do sagrado ministério a que o chama o céu. O inimigo com quem tem de travar-se, foi-lhe enviado por Deus, como o anjo de Jacó. Faça como aquele santo patriarca que combateu com o anjo a noite inteira; não se recuse a essa luta agradável aos olhos de Deus; combata noite e dia, que vencerá como Jacó.

(continua...)

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