Por Bernardo Guimarães (1872)
Elias, ao sair da prisão tratou imediatamente de abandonar aquela terra, onde tinha visto quebrarem-se um por um todos os elos da cadeia dourada de seus sonhos, terra de maldição, como dizia ele, coito de fariseus vis e desalmados, que só rendem culto ao ouro e ao diamante, e que seriam capazes de entregar até o próprio Cristo, se entre eles aparecesse, à sanha de seus algozes por um punhado de ouro. Despediu os camaradas que ainda lhe restavam, vendeu animais e bagagens que lhe eram desnecessários, e, sem nada dizer, nem despedir-se de ninguém, montou a cavalo sozinho e subiu pelo caminho que vai para o Patrocínio. Essa estrada passava pela frente da casa de Lúcia a algumas braças de distância. Ao avista-la, Elias sentiu um horrível aperto de coração. Mas um irresistível atrativo como que o detinha ali; retardou o passo do animal, e perscrutou com as vistas todos os lados da casa a ver se avistava Lúcia, ou alguém da casa; não viu ninguém. Aplicou o ouvido à escuta de alguma voz, de algum rumor, que dali partisse; mas reinava na casa o maior silêncio e quietação, como se nela ninguém morasse. Ainda mais se lhe anuviou o coração de melancolia.
- Adeus, Lúcia! adeus! murmurou o moço lançando um triste e derradeiro olhar sobre a casa do Major. Perdoa o estouvamento que cometi; não serei eu mais que irei perturbar teu sossego e tua felicidade. Mas ah! queira Deus que em breve não experimentes o rigor do castigo do céu. Adeus!
E esporeando o cavalo desapareceu na mata pelas voltas do caminho.
Na tarde desse mesmo dia Leonel, montado em um lindo ginete, subia o caminho da encosta que o conduzia à casa de Lúcia. Ia desfazer o contrato de casamento, e despedir-se, e ia altivo e resoluto, porque de feito o motivo que tinha para assim proceder era o mais legítimo e nobre; mas tal motivo não bastaria para demover de seus perversos desígnios aquela alma obcecada e habituada ao crime, se não fora o risco que corria sua pessoa demorando-se por mais tempo na Bagagem. Sua intenção era desaparecer nessa mesma noite, para o que já dera as necessárias providências.
Para arredar de si qualquer suspeita, deixaria uma carta para ser apresentada a todos os seus amigos, na qual lhes faria ver que retirava-se porque não lhe era possível, nem lhe ficava airoso por modo nenhum demorar-se, nem mais um instante, em uma terra onde acabava de ser vítima do mais escandaloso desacato e do mais profundo dissabor por que pode passar o coração do homem. levava contudo a mais grata lembrança daquele país e de seus habitantes, e protestava seu reconhecimento a todos que o honraram com sua amizade.
Exultando com o acontecimento que lhe dava tão plausível motivo de pôr-se a salvo sem despertar suspeitas, o jovem baiano chegou à porta da casa do Major.
No momento de apear-se achava-se bem junto à porta um homem de grotesca figura, pobre e andrajosamente vestido, mas calçado e com uma gravata esfarrapada ao pescoço, e da aparência a mais benigna e submissa que se pode imaginar. Este homem, depois de tirar respeitosamente o amarrotado chapéu de pêlo, fazer uma profunda reverência e pegar no estribo para apear-se, desdobrou e apresentou a Leonel um papel sem lho entregar.
- Ah! já sei! exclamou com impaciência o mancebo, sem ao menos olhar para o papel. É alguma subscrição. . . é um chuveiro delas todos os dias. Em outra ocasião, meu amigo. . . apareça em minha casa.
- Perdoe-me V. Sª. ; não é isso de que se trata; tenha a bondade de ler o papel.
Leonel tomou o papel, passou por ele um ligeiro lance de vista, empalideceu, e num instante desarmou-se-lhe todo aquele ar de segurança e imponência que o revestia. Depois, com ar espantadiço olhou para todos os lados como quem queria correr. O homem lançou-lhe a mão ao punho, e disse-lhe com solenidade:
- V. Sª. está preso à ordem do senhor delegado de polícia.
- Infâmia! . . . eu! . . . eu mesmo! ? é impossível; há engano da sua parte, meu caro.
Dizendo isto, Leonel ia entrar para a casa do Major. O homem o deteve.
- Perdão; V. Sª. há de acompanhar-me.
- Vou só dar um recado, e volto neste instante.
- Não, senhor; tenho ordens apertadas.
O moço mordeu os beiços de raiva.
- Pois bem! disse, vamos lá! onde quer me levar?
E ia montar a cavalo.
- Perdão, meu senhor; tenha paciência. V. Sª. há de ir a pé. Eu vou puxando seu cavalo.
- Biltre! bradou o moço encolerizado e levantando o chicote, o cavalo é meu; tenho de ir à casa, e não quero ir a pé.
E já ia pondo o pé no estribo. O meirinho apitou, e súbito dois soldados, surgindo por detrás de uma cerca vizinha, acudiram prontamente, e colocaram-se aos lados de Leonel. Este abaixou os olhos trêmulo e convulso de raiva e de vergonha, e disse aos guardas em tom rápido:
- Vamos! . . . vamos depressa! quero saber que maroteira é esta.
O que ele queria porém era evitar a vergonha e humilhação de ser visto naquelas circunstâncias pelo Major e Lúcia. Lúcia estava doente em seu quarto; mas o Major e algumas outras pessoas da casa já tinham acudido à janela.
- O que é isto, senhor Leonel! ? o que é que estou vendo! exclamou o Major. Camaradas, que quer dizer isto? aqui há decerto algum engano. Que fez este homem?
- Ele melhor o sabe do que nós, senhor Major, disse um dos soldados; pergunte a ele.
- Não se inquiete, Major, disse Leonel. Estou preso, é verdade; mas há sem dúvida algum equívoco. Eu vou já deslindar tudo isto, e breve estou de volta.
E foi saindo a passos rápidos no meio dos dois guardas, e acompanhado pelo meirinho.
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. O Garimpeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1776 . Acesso em: 26 fev. 2026.