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#Romances#Literatura Brasileira

Encarnação

Por José de Alencar (1878)

Ficando só, Hermano trancou-se no toucador de Julieta. Depois de fechar as portas e janelas abriu os bicos de gás, e sentou-se em face da figura de cera. O aposento era apenas esclarecido pela vela do castiçal colocado sobre a mesa.

Acreditava aquele visionário que era bastante a vontade de reunir-se a Julieta para que sua alma deixasse este mundo e se restituísse à sua metade. Nessa convicção, havia jurado a Amália não matar-se; e tinha consciência de respeitar o seu juramento.

Quando o gás que se exalava dos bicos abertos se fosse condensando no aposento quase hermeticamente fechado, e afinal se inflamasse à luz da vela produzindo uma explosão, o incêndio o acharia morto já, e não serviria senão para destruir o seu despojo e as relíquias de Julieta, que não devia abandonar à alheia profanação.

Ele e tudo quanto amara não seriam mais do que cinzas, dispersas pelo vento; e no dia seguinte ninguém suspeitaria da verdade. Um incêndio é fato comezinho e tão freqüente!

Em cima da mesa estava uma fotografia em ponto grande, cuja moldura inclinada em estante mostrava um lindo retrato. Amália o havia tirado poucos dias antes; e naquela tarde, aproveitando-se de uma ausência do marido, o colocara ali para fazer-lhe uma surpresa.

Esse retrato não era a imagem fiel da beleza radiante de Amália, mas a cópia da transformação que sofrera a moça depois de seu casamento, e especialmente nos últimos dias. Assim como o louro brilhante de seus cabelos se ofuscara na sombra de uma renda preta, também os fulgores dos grandes olhos e o sorriso cheio de graça eram amortecidos por uma doce melancolia. Parecia que um véu de timidez apagara-lhe a formosura cintilante.

A luz da vela dava de chapa sobre a fotografia. Hermano olhou e viu pela primeira vez o retrato. Reconheceu o vulto, a atitude, o gesto, as roupas, as jóias e uns matizes indefiníveis que só ele talvez percebesse. Era Julieta; mas através da sombra de Julieta, ao longe, como uma estrela imersa no azul, surgia a imagem luminosa de Amália.

Foi então que esse cérebro já tão exaltado precipitou-se na derradeira e mais violenta das alucinações que o tinham abalado. As duas mulheres que Hermano havia amado neste mundo erguiam-se em sua alma, como duas soberanas em campo de batalha, para disputarem o seu despojo.

Quando já a consciência da realidade o ia abandonando, ouviu rumor na casa e teve um rápido momento lúcido para recear que o viessem perturbar na consumação de sua idéia sinistra. Ergueu-se e saiu fora, lembrando-se de fechar a porta, para que não se escapasse o gás, já condensado no aposento.

Foi mesmo às escuras trancar a comunicação para o fundo da casa onde estavam os criados; e livre do receio, caiu de novo no delírio, que o havia acometido, e no qual se apagaram os últimos lumes da razão.

Nos raptos da imaginação, viu outra vez as duas esposas, a quem havia jurado fidelidade. Às vezes, elas se aproximavam, perto, muito perto, uniam-se estreitamente, e fundiam-se numa só massa vaporosa, donde surgia afinal essa mulher dúplice, essa Julieta-Amália, que estava pintada no retrato.

Pouco depois a imagem da esposa gêmea também por sua vez apagava-se em uma sombra indecisa, da qual se destacavam as duas moças, cada uma no seu tipo distinto; Julieta com a esquisita elegância que vestia de uma graça divina a sua figura apenas regular; e Amália com a deslumbrante beleza, que materializava a sua alma, vazando-a em formas esplêndidas.

Em face uma da outra, Amália triunfava. Ela era a aurora; e sua rival o crepúsculo suave e encantador. Assim Julieta timidamente, envolta no seu perfume de modéstia, afastava-se; e a sombra gentil e melancólica ia-se desvanecendo até esvair-se no fulgor que derramava a formosura da rival.

Foi então que Hermano sentiu uma dor agudíssima, como se lhe arrancassem vivo o coração. Arrojou-se com todo o ímpeto de seu amor para chamar a esposa, que se separava dele pela eternidade. Era ela a primeira amada, e nesse momento a única. A ela devia pertencer exclusivamente; por isso iam unir-se outra vez; a morte que os tinha apartado não tardaria em ligá-los de novo, revertendo-os um ao outro.

— Julieta! exclamou ele em um grito de ânsia.

A esposa o tinha ouvido ali. Ali estava ela a seu lado. A luz desaparecera e os seus raios se haviam transformado em estrelas. Foi ao trêmulo dessa luz celeste que ele divisou a sombra amada. Ela trazia o seu traje favorito de baile, o mesmo com que a viu da primeira vez.

Julieta lhe cingira o colo com o braço e ele sentia o doce contato do talhe gentil na sua espádua e no seu flanco. Depois a voz terna e queixosa da esposa murmurou-lhe ao ouvido como um arpejo:

— Ingrato!...

(continua...)

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