Por José de Alencar (1872)
Dentro em pouco devia chegar à sua casa um mancebo, a quem ela encontrara por diversas vezes, e afinal abrira as portas de sua casa. Esse coração jovem, ardente, podia notar as identificações da alma da moça com a sua, expressas por uma combinação de cor ou pelo gosto de uma flor: aí estava a centelha da paixão, a faísca do incêndio que ela ia atear se querer.
Guida descera antes de quatro horas; queria assistir à chegada de Ricardo, não só para evitar a solenidade de uma apresentação em plena sala, como porque sentia que sua presença era indispensável para desvanecer o acanhamento natural de quem pela primeira vez é introduzido em uma sociedade desconhecida.
Davam quatro horas, quando Ricardo e Fábio com pontualidade escrupulosa entravam na casa de Soares.
XII
O comendador Soares jogava a manilha com seus parceiros habituais, três velhos amigos e camaradas.
O primeiro, à direita, era o barão do Saí. Natural de Minas, onde começara a vida como tocador de tropa, em uma de suas viagens à corte arrumou-se de caixeiro no armazém de mantimentos do consignatário.
Aos cinqüenta anos achou-se o João Barbalho possuidor de algumas centenas de contos; e convencido que não era próprio de um grande capitalista chamar-se pela mesma forma que um moço tropeiro, trocou por um título à-toa aquele nome que valia um brasão; fidalgo brasão, se já o houve, pois era o do trabalho e perseverança, e tinha por timbre e divisa a probidade.
O parceiro da esquerda fazia com o precedente o maior contraste. Curto, esguio e encarquilhado, quanto o outro espaçoso e amplo, as mínguas do corpo sobravam-lhe nas mãos e nariz, ou como diziam os malignos, nas garras e no bico. Tudo o mais era miniatura.
O visconde de Aljuba começara a sua vida mercantil na escola, onde exercia o mister de belchior. Livros, lápis, roupa, tudo ele comprava por bagatela aos meninos, em princípio como agente de um negociante de cacaréus da esquina, e depois por conta própria.
Quando o deram por pronto na escrita e tabuada, arranjou ele uma espelunca, chamada casa de penhor, onde emprestava dinheiro especialmente aos pretos quitandeiros. A pouco e pouco elevou-se a clientela, até que pôde fechar em sua carteira as primeiras firmas da praça do Rio de Janeiro.
Foi então que, de repente, o Camacho transformado em visconde, sem que ninguém pudesse atinar com o meio por que obtivera, logo de supetão, aquele título, quando o costume era começar por barão. Diziam uns que fora comprado, outros que lho tinham dado.
- Nem dado, nem comprado! acudia o Soares em tom de pilhéria. O velhaco do Camacho empalmou o aljube, que lhe tinham dado de penhor, e fez-se visconde. Com todo o direito! Não resta dúvida.
Os ouvintes riam; e o visconde, imperturbável, metia as mãos nos bolsos e repetia com certo sonsonete que lhe era próprio, um dito muito conhecido:
- A alma do negócio é o segredo.
Os amigos mais íntimos do Soares, sobretudo o barão do Saí, por vezes lhe tinham feito observações a respeito da privança a que ele admitia o visconde, cuja reputação dava para um excelente herói do romance galote, atualmente na moda.
Mas o Soares, que lhe sabia as anedotas, galhofava.
- É preciso lidar com essa gente, para aprender-lhe as manhas, se não corre-se o risco de ser-se enganado a cada instante. E quem as conhece melhor do que o bicho?
Por isso o Soares, que era um gaiato de conta, a toda a hora, no jogo ou em negócio, chamava o visconde de – “meu mestre”; com o que este se lisonjeava, pois tinha para si que não era pequena glória dar lições de velhacaria a um espertalhão daquele trope.
O último dos parceiros, que ficava fronteiro ao comendador, mostrava uma figura respeitável. Poucas fisionomias possuem aquela sisudez, tocada por uma expressão de mansuetude, exalação, ou eflúvio d’lama, a ameigar as asperezas de uma consciência rígida e austera.
Nada mais enganador porém do que esse prospecto de homem importante, conhecido por Conselheiro Barros. Dentro, o que havia, era um desses entes ambíguos, destinados a viver em perpétua irresolução, almas bonachas e inertes, a quem a natureza de em vez de cabeça um cabo, em lugar de coração uma azelha, para serem empunhados por outrem, sem o que não se movem, nem se abalam.
Em casa, o Barros era manejado pela mulher; se ela não tinha de véspera à noite apartado sobre um cabide a roupa necessária para o dia seguinte, ele não se vestia, e era capaz de ficar até meio-dia de chambre e chinelas, como já lhe acontecera. Nunca sabia quando tinha fome, e seria escusado perguntarem-lhe; era D. Guilhermina quem lhe regulava o apetite, o sono, e até a moléstia. Uma ocasião, ardendo ele em febre, a mulher o persuadiu de que estava perfeitamente bom; levou-o a um passeio em que apanharam sol e chuva. À noite, quando se recolheram, o homem nada sentia.
(continua...)
ALENCAR, José de. Sonhos d’Ouro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1849 . Acesso em: 27 jan. 2026.