Por José de Alencar (1873)
Enquanto nas livrarias dos conventos e telônios de advogados se deitam abaixo as rimas de bacamartes, e se vão espoando os alfarrábios de cujo ventre hão de sair as eruditas citações para lardear as consultas, os vereadores, tendo provido à urgência do caso, trataram de jantar. Pautados pelo antigo anexim romano — Sine Cerere et Baccho friget Venus — já naquele tempo entendiam os conspícuos senadores fluminenses, que de barriga vazia não se pode deliberar sobre a governança e regimento dos povos.
Por outro lado, pensaram eles que era de bom conselho deixar esse intervalo de um dia para arrefecer a irritação popular. Donde se vê que a protelação esse achaque de nossa administração, vem de longe: é mal crônico.
O motim, que se formara pela manhã, não tinha aumentado, mas conservava-se no mesmo estado de surda agitação, como a tempestade encadeada pela calmaria. Sentia-se ali dentro, no seio da turba, a ebulição da cólera popular; mas alguma força oculta a sopitava.
O respeito tradicional à religião, o terror da Igreja, e os sentimentos de devoção que animavam os fluminenses, deviam conter os ímpetos da indignação popular contra o prelado, que no fim de contas, apesar de quanto o acusavam, era não somente um sacerdote, mas a primeira autoridade eclesiástica da igreja fluminense.
O povo é sempre assim: uma força magna e irresistível, porém, cega. Carece de quem o dirija, e o maneje. O que dispõe desse poder tem a revolução fechada em sua mão.
Era essa cabeça que faltava então ao povo fluminense. O motim ali estava no meio da praça como uma bombarda carregada de metralha, à espera que lhe acendessem a mecha, e o arrojassem contra a arrogância eclesiástica, para a derrocar em um momento.
Qual seria porém êsse que ousasse empunhar o cutelo popular? Os principais da cidade, aqueles que andavam na governança e estavam no costume de conduzir a plebe? Esses, ainda mesmo servindo-se dela para promover seu interesse, temiam-se da agitação mais forte que pudesse desencadear-lhe as iras.
Naquela emergência, estimaram os vereadores a manifestação popular que os apoiava; mais do que isto, porém, seria perigoso, e fora de toda a regra, pois tinha o povo seus procuradores e conselheiros para avisarem no que mais convinha, e prover a tudo que fosse para seu bem.
Estava portanto gorado o levante, se o Ivo percebendo o jeito que tomaram as coisas, não se incumbisse de arranjar a cabeça que faltava ao tronco popular. Veremos como se houve nesse mister.
XXIV
PROCESSO PELO QUAL INVENTOU O IVO O QUE HOJE SE
CHAMA O HOMEM DA SITUAÇÃO
Ao toque de meio-dia foram-se dispersando os magotes da gente. Os moradores tornaram a casa onde os esperava o caldo, pois não havia naquele tempo quitandeiras e freges, onde o popular achasse jantar a qualquer hora e em cada canto.
Depois da refeição as ruas de novo se encheram; mas como nada mais ocorrera de novo, e as cousas continuavam no pé em que as tinha deixado pela manhã o Senado fluminense, concentrouse o ânimo da população na expectativa do dia seguinte, no qual à vista do acórdão tomado em Câmara, com a assistência do governador e conselho dos luzeiros da ciência, se tinha de decidir a questão.
Correram pois as horas da tarde em sossego; os ranchos de povo que desfilavam pelas ruas, embora animados ainda por um resto do alvoroto da manhã, já não tinham aspecto irritado e sôfrego, mas ao contrário, palravam com moderação a respeito das ocorrências do dia.
O assunto que de preferência os ocupava era o voto dos teólogos e juristas consultados sobre a intrincada questão; faziam conjeturas e comentos acerca das disposições de cada um, e do alvitre que adotaria.
— Olhem! acudiu um orador de esquina, dos que hoje abundam. Os padres do Colégio, esses podem ter certeza que são contra o Almada, pois é seu costume andar sempre a jogar as cristas com os bispos, prelados et reliqua. Lá quanto aos outros é perder a esperança; então os beneditinos! ... Se o Almada não se sai do mosteiro! .
No meio destas diversões veio a noite, e com ela outra vez se escoou o poviléu, deixando ermas as ruas escuras. A pouco e pouco foram-se extinguindo os fogos, e não tardou que a cidade dormisse a sono solto.
Lá pela volta das dez horas, foi o silêncio profundo da noite quebrado por um tanger de sino, que despertou parte da população. Pelo toque logo se reconheceu que era rebate no campanário da Câmara, o que ainda mais espanto causou, sobretudo no estado em que se achavam os ânimos.
Abrindo as portas, e saindo à rua, avistaram os moradores por cima dos telhados, lá para as bandas do Rossio do Carmo, um clarão, que avultava no meio da profunda escuridão da pequena cidade, a qual não conhecia ainda nem os lampiões de azeite de peixe, quanto menos o gás.
— É fogo! disseram.
Os primeiros despertos correram direitos ao ponto e de caminho iam dando vozes e rebates de fogo, que avisavam os mais; de modo que em poucos instantes meia cidade corria pelas ruas, e a outra não tardava a acompanhá-la.
Esbarrou-se a multidão com uma cousa que não esperava.
(continua...)
ALENCAR, José de. Garatuja. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1841 . Acesso em: 26 jan. 2026.