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#Romances#Literatura Brasileira

Inocência

Por Visconde de Taunay (1872)

Vejam só que homem, heim? É um mequetrefe!... Esta noite e dora em diante, venho dormir nesta sala a ver se ele se mexe da cama. Ah! se eu pudesse!... caia-lhe de calaboca em cima, que lhe deixava as costelas em. lascas.

Acabavam as imprudentes histórias de José Pinho de pôr a ultima pedra no edifício da desconfiança que tão depressa erigira a imaginação de Pereira em desconceito de Meyer. O que nelas havia de verdade, eram apenas algumas horas de lazer, consagradas, durante a estada no Rio de Janeiro, pelo naturalista ao consumo de grandes copázios de cerveja no café Stadt Coblenz, e nas quais entretivera risonhos, bem que inocentes colóquios, com pessoas do sexo amável, freqüentadoras daquele estabelecimento e de costumes não lá muito rigorosos.

CAPÍTULO XVI

O EMPALAMADO

Ao homem não faltam importunações quanto à vossa capacidade, bem a conhecemos.

(Molière, O Médico A Força).

Conforme o prometido, trouxe Pereira a rede para a sala dos li hóspedes e, encetando um modo de vigilância muito especial ainda que perfeitamente inútil em relação à pessoa suspeitada, associou os sonoros roncos do valente peito à ruidosa respiração de Meyer.

Se, contudo, não tivessem seus olhos a venda da confiança ou, melhor, se o sono não os acometesse sempre com tamanha imposição,, decerto em breve houvera estranhado a cruel agitação em que vivia Cirino e que este não podia mais encobrir.

Na verdade, o modo por que o infeliz mancebo passava as noites era de fazer nascer suspeitas no espírito mais indiferente e desprevenido. Ou se revolvia na cama, dando mal abafados suspiros, ou então saia para o terreiro, onde se punha a passear e a fumar cigarros de palha uns após outros, até que os galos, alcandorados na cumeeira da casa e nas árvores mais próximas, anunciassem as primeiras barras do dia.

Desabrida paixão enchia o peito daquele malsinado; dessas paixões repentinas. explosivas. irresistíveis, que se apoderam de uma alma, a enleiam por toda a parte, prendem-na de mil modos e a sufocam como as serpentes de Netuno a Laocoonte. Conhecedor como era, dos hábitos do sertão, do jugo absoluto dos preconceitos, do respeito fatal à palavra dada, antevia tantas dificuldades, tamanhos obstáculos diante de si, que, se de um lado desanimava, do outro mais sentia revoltado o nascente e já tão violento afeto.

—Deus me ajudará, pensava consigo mesmo: o que só quero e a amizade de Inocência Há dias que não a vejo... se não puder mais vê-la... dou cabo da vida... Sublevava-se o seu coração, girava-lhe o sangue com vertiginosa rapidez nas velas e vinha toldar-lhe a vista, trazendo ondas de rubro calor ao descorado rosto.

—Nossa Senhora da Abadia, implorava ele puxando os cabelos com desespero, valei-me neste apuro em que me acho! Dai-me pelo menos esperanças de que aquela menina poderá um dia querer-me bem... Nada mais desejo... Possa o fogo que me consome abrasar também o seu peito...

Costumava a fervorosa prece dirigida à santa da especial devoção de toda a Província de Goiás acalmar um pouco o mancebo, que alquebrado de forças pegava no sono para, instantes depois, acordar sobressaltado e cada vez mais abatido.

Também estava sempre de pé quando Pereira costumava saltar da rede.

—Oh! observou ele da primeira vez, isto é que se chama madrugar.

—Pois é contra o meu costume, replicou Cirino, todas estas noites tenho passado mal...

—Na verdade vosmecê não está com boa cara...

—Creio que me entraram no corpo as maleitas.

—Essa é que é boa! Então o doutor foi emprestar(') da doente a moléstia?...

Olhe, é preciso por-se forte, porque hoje mesmo há de lhe chegar uma boa maquina de doentes...

—Melhor...

—Já está tudo espalhado por ai da sua chegada e a romaria não há de tardar.

—Cá a espero...

—Naturalmente virá primeiro o Coelho... boa ocasião de pagar a sua divida... Não tenha receio de puxar mais no preço...

—Daqui mesmo pretendo despachar um próprio para me ver livre dessa obrigação...

—Isso mostra que o senhor é pessoa de brio... Não é como certa gente que conheço...

Ao dizer estas palavras, voltara-se Pereira para Meyer a contemplá-lo atentamente.

Estava na verdade o alemão digno de exame, posto ainda de parte outro qualquer motivo que não o de simples curiosidade.

Dormia com as pernas e braços abertos e caldos para fora do estreito leito das canastras: tinha o queixo muito levantado pela posição incômoda da cabeça, deixando a boca meio aberta ver uma fieira de magníficos dentes.

—Está roncando, hem? murmurou o mineiro. Cavouqueiro... a mim você não engana..., mas é o mesmo!

Iam as prevenções de Pereira tomando proporções de idéia fixa, e Meyer, na simplicidade da ignorância, como que de propósito ministrava elementos para que elas mais e mais se fossem arraigando.

Assim, ao almoço, lembrou-se de perguntar entre duas enormes colheradas de feijão:

—Sua filha, senhor Pereira? Como vai? É melhor?

—É melhor o quê, Mochu? exclamou o pai com modo esquivo.

—A saúde dela é melhor?

—Está melhor; está, está, respondeu Pereira muito secamente. Está boa... vai fazer uma viagem...

(continua...)

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