Por Bernardo Guimarães (1872)
Somente o seu amor, purificando-se ao contato da religião de tudo que nele havia de carnal e terreno, tinha tomado as cândidas roupagens de uma afeição angélica e ideal, e o fel amargo da saudade, que lhe afogava o coração, se havia transformado em uma torrente de lágrimas silenciosas e resignadas, que vertia aos pés da Virgem consoladora dos aflitos.
Entre as nuvens do incenso, que embalsamavam o templo, no meio dos anjos de suas visões pairava também a imagem de Margarida, e por entre as piedosas e místicas harmonias, que enchiam as abóbadas sagradas, ouvia-lhe a voz suave e argentina. No retiro solitário de sua cela, quando prostrava-se em oração ante a imagem da Virgem, Margarida estava também ajoelhada ao lado dele como nos tempos de seus brincos de criança, e era ela o anjo, que nas asas de neve e ouro levava as suas preces ao trono do Onipotente.
Essas duas tendências naturais de seu coração terno e entusiasta, pode-se dizer essas duas paixões, que lhe eram inatas, o amor e a devoção, congraçavamse admiravelmente em seu espírito. O arroubo místico, contínua aspiração para Deus e para as coisas celestes, não excluía nele o amor por essa criatura, que é sobre a terra um dos mais belos reflexos do infinito poder — a mulher. É que de fato esses dois sentimentos tão puros, tão celestes ambos, nada têm de inconciliáveis em si mesmos, e somente uma lei meramente convencional, impondo o celibato como um preceito, imperativo, podia, levantar entre eles esse odioso antagonismo, contra o qual a razão protesta e revolta-se o coração.
Eugênio pois não deixava de sentir em si a mais pronunciada vocação para o sagrado ministério do altar; se não fora o amor, que nele ainda prevalecia sobre as tendências teocráticas, sua resolução estaria definitivamente firmada e decidida. O seu espírito oscilava perplexo entre essas duas belas e santas aspirações, as quais, se não fossem canonicamente incompatíveis, teriam entretecido para a fronte do mancebo a mais brilhante coroa de glória, de amor e de felicidade, e que no entanto por sua incompatibilidade estavam fadadas a cavar-lhe um abismo de angústias e desgraças.
Dois anjos a um tempo tomavam Eugênio pela mão, e o convidavam para o céu.
Um era a piedade, que lhe mostrava os degraus do altar, e lhe corria diante dos olhos maravilhados os véus sacrossantos, que encobrem o trono de Deus.
O outro era o amor, que lhe entreabria a porta misteriosa da alcova nupcial, e lhe apresentava a imagem de Margarida.
O despertar do espírito religioso na alma do mancebo, alimentado e auxiliado por contínuas exortações e conselhos dos padres, já era um grande passo para a consecução do fim que tinha em vista. A paixão ascética ia pouco a pouco ganhando sua alma, e em breve os afetos profanos não encontrariam nela nem mais um cantinho onde aninhar-se.
Aplaudiam-se entre si deste resultado, e já não duvidavam de que mais tarde ou mais cedo o triunfo seria completo, e o moço abjurando de uma vez todas as paixões terrenas se entregaria sem resistência nos braços de sua natural vocação — o sacerdócio.
Escreveram ao pai de Eugênio:
"Graças ao Todo-poderoso e aos nossos perseverantes esforços, a ovelha desgarrada vai se encaminhando para o aprisco da religião... O bálsamo salutar da devoção vai dissipando os efeitos do veneno, que a paixão pecaminosa lhe filtrara no coração. Mais um passo, e poderemos cantar assinalada vitória sobre o espírito das trevas, ganhando um digno ministro para o altar, e uma bela alma para o céu. Resta, que V. Sa. nos comunique o casamento da rapariga e tudo estará concluído."
A despeito de toda a força da sua vocação eclesiástica, de todo o fervor do seu ascetismo religioso, Eugênio mantinha-se firme na resolução de não tomar ordens. Assim o havia jurado a Margarida. Firmada pela religião do juramento, essa afeição terna e profunda que votava à companheira de sua infância, afeição que com ele nascera, que era a luz de seus olhos, a seiva de seu coração, o perfume de sua alma, via cerrarem-se os áditos do santuário do Senhor, para o qual volvia olhos invejosos como para um Éden vedado, de que suas fraquezas o tornavam indigno. Mas Margarida era um anjo de Deus exilado na terra, e se ele não podia com suas mãos profanas tocar nos vasos sagrados e na hóstia sacrossanta poderia ao menos ajoelhado ao lado dela inclinar a fronte venerabunda ante os altares, e entoar com ela hinos de louvor ao Todo-poderoso. O culto e adoração oferecidos ao Senhor por um de seus anjos não podiam deixar de ser-lhe tão gratos como aqueles que lhe são endereçados pelas mãos de seus ungidos.
Destes devaneios, em verdade bem suaves, o vinham arrancar considerações de outra ordem, que o lançavam num pego de amarguras e inquietações. Via diante de si a incerteza do futuro, o inabalável emperramento de seus pais, que a todo o transe o queriam fazer padre, a sorte precária de Margarida, mal vista e repudiada por eles, pobre e frágil criatura exposta a todos os embates de um destino cruel e a todas as seduções e azares de um mundo corrupto e libertino.
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. O Seminarista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16585 . Acesso em: 27 fev. 2026.