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#Romances#Literatura Brasileira

Encarnação

Por José de Alencar (1878)

Quanto lhe custou a passar esta última semana!

Na ocasião em que, cegamente apaixonado por Amália, decidiu pedi-la em casamento, Hermano refletiu sobre o destino que devia dar às relíquias da primeira mulher Não podia guardá-las como tinha feito até ali, porque seria isto uma infidelidade à esposa atual; não se animava, porém, a abandonar e como que expelir de si essas imagens e objetos, tão impregnados de sua vida, que faziam parte dela. Seria mutilar-se moralmente.

Tomou uma resolução que pudesse conciliar tais escrúpulos. Reuniu naqueles dois aposentos de Julieta tudo que lhe pertencera e fechou-os como se fossem a sepultura onde jazia a alma da primeira mulher. Quanto à outra sepultura, onde jaziam as cinzas, dessa não se lembrava, nem a conhecia; era um pouco de pó.

Depois, quando na própria noite do casamento o indefinível terror de um adultério fantástico apoderou-se de seu espírito enfermo, ele refugiou-se nos aposentos de Julieta, encerrou-se ali naquele túmulo, onde encontrava o sossego e a ressurreição do passado.

Agora, porém, já não tinha esse refúgio; já não podia transpor os umbrais da eternidade para encontrar-se com Julieta e amá-la. Até ali, nesse mesmo santuário, onde guardara todas as relíquias da morta, até ali o perseguia a formosa imagem de Amália.

Sentia a tépida fragrância que a moça deixara na sua passagem, e que derramava um sopro de vida nesses objetos frios e abandonados. O toque de outras mãos animara aquela solidão; e as mesmas estátuas de cera pareciam influir-se de outra alma mais ardente, mais apaixonada do que a de Julieta.

Assim, quando Hermano corria a abrigar-se aí da sedução de uma Amália parecida com Julieta, ele já não encontrava a mulher de outros tempos, mas sim uma nova Julieta semelhante a Amália e mais formosa que a primeira.

Quantas vezes não voltou buscando essa visão encantadora! Mas já não a via; Amália tinha-se feito Julieta; aquela esplêndida beleza de outrora se eclipsara.

Se em um desses momentos a formosa criatura se mostrasse qual era em seu fulgor, Hermano teria sucumbido; e talvez aquela insana obsessão que o afligia se dissipasse para sempre.

Mas a coincidência não se deu; e afinal chegou a época em que Hermano julgou-se livre de dispor de sua vida. Só faltava a ocasião; esta não tardou.

Havia um baile no dia seguinte. Amália a princípio repugnou ir, por fim cedeu às instâncias do marido. Seu traje era copiado de um que achara no guarda-roupa de Julieta, um vestido de tule com sombra e laivos escarlates.

Estava encantadora, mas sentia-se inquieta e nervosa. Durante a dança não tirava os olhos de Hermano, e a cada instante chamava-o para perto de si.

De repente perdeu-o de vista. Acabada a quadrilha, ansiosa, perguntou por ele a D. Felícia.

— Ah!... Esqueceu a carteira e um amigo convidou-o a jogar. Foi a casa, não tarda. Pediu-me que te prevenisse.

D. Felícia, voltando à conversa que interrompera para dizer rapidamente estas palavras, não viu a palidez da filha.

Amália dominou o terror que a invadira, dirigiu-se ao toucador, envolveu-se na capa e desceu as escadas apressadamente. No patamar encontrou o lacaio; e mandou chegar o carro.

— Para casa! Depressa!... disse, atirando-se sobre as almofadas do cupê.

Depois, enquanto os cavalos trotavam pela calçada da Glória, ela travando as mãos convulsivamente, murmurava:

— Chegarei a tempo, meu Deus?

Capítulo 20

Amália tinha razão de assustar-se.

Hermano deixara o baile, decidido a realizar a sua idéia fatal. Contava que o pretexto do esquecimento da carteira lhe daria uma hora de liberdade, e tanto bastava para consumar o plano medonho que havia concebido.

Ele prometera à mulher, e a si mesmo jurara, dar à sua morte aparências de acidente, de desastre casual. Escolhera o incêndio. Sempre fora sectário da cremação. O corpo abandonado da alma era para ele matéria em corrução; o fogo a purificava, e consumindo imediatamente a forma humana, evitava a sua profanação; pois outro nome não têm certas cerimônias fúnebres.

Mas o seguro de sua casa não estava findo; e a consciência não lhe permitia fraudar os seguradores com a indenização que teriam de pagar a seus herdeiros pelo dano do incêndio. Por isso foi obrigado a adiar o seu projeto. O termo da apólice tinha expirado na véspera; estava livre enfim.

Ao sair do baile, tomou um tílburi, que o levou a casa. O portão estava cerrado apenas, e o Abreu, que fumava sentado na escada, veio ao seu encontro, admirado de não ver a senhora.

— Esqueci a minha carteira e vim buscá-la para pagar uma divida de jogo; mas sinto-me tão fatigado que não tenho ânimo de voltar ao baile; vou escrever um bilhete à senhora.

Deste modo afastou o velho criado, cuja vigilância temia que pudesse frustrar o plano. No bilhete que por ele enviara à mulher, depois de escusar-se de ter saído do baile e de não ir buscá-la, rematava com estas palavras:

“Agora, Amália, é que eu conheço quanto a amo: pois esta curta ausência de alguns instantes parece-me uma separação eterna.”

(continua...)

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