Por Visconde de Taunay (1872)
—Deixe-me contar o caso, atalhou Pereira. Oh! eu ri-me... ri-me.
E, para confirmar a asserção, pôs-se novamente a dar gargalhadas, que foram acompanhadas por José Pinho e até por Meyer, da parte deste com menos expansão, contudo.
—Apareceu-me o Mochu muito contente com a sua caixa, como se tivesse o rei na barriga. Era uma imundície de besouros, cascudos e cigarras, que o senhor nem pode imaginar... Havia de tudo; depois, quando voltamos da roça, enxergou ele num pau podre um aniceto vermelho e foi correndo a apanhá-lo. Eu bradei-lhe: — Olhe, que ai tem barranco: a árvore é podre e oca, e vosmecê rola pelo despenhadeiro, que nem a sua alma se salva. — Qual! O homem é teimoso, como um cargueiro empacador... Eu gritava-lhe: —Tome tento, Mochu!—Sem atender a nada, começou a caminhar em cima da cipoada que cobria a boca de um precipício, fundo como tudo neste mundo... Quando ia botar a mão no tal bicho encarnado, encostou-se ao pau e... zás!... afundou-se, dando um grito esganiçado que parecia de cotia. Mal teve tempo de agarrar-se aos cipós e ia ficou entre a vida e a morte, chamando Juque, Juque!... Eu, quando vi isso, mandei a toda pressa buscar à roça uma vara comprida e, se ela não chega logo, o Senhor Meyer e toda a sua bicharada rolavam de uma vez por aqueles fundões.
—Não, retificou o alemão, bicho rolou; caixa abriu e tudo lá se foi no fundão...
—Pois bem, o Mochu segurou-se com unhas e dentes ao pau e nos puxamos devagarinho, devagarinho, com um medo, um medo!... Maria Santíssima! . . .
Fazendo breve pausa:
—0 mais engraçado ainda não chegou, avisou o mineiro: Ah! vosmecê vai tomar uma boa data de riso. Quando o Mochu ganhou pé em terra, pôs-se a pular como um cabrito doido, por aqui, por acolá, pulo e mais pulo, e gritando como se o estivessem esfolando... Estava .. ah! meu Deus!... estava cheio de formigas novatas!
— Sim, exclamou Meyer com desespero, formiga de pau podre!... mein Gott ... Eu rasgo a roupa... eu pulo... eu gemo... fico nu como quando minha mãe me botou no mundo!... Horrível Formiga do diabo!.... Faz calombo em todo o meu corpo. . . Muita dor!
Com reiteradas e estrondosas gargalhadas acolheram Pereira, Cirino e José Pinho essas enérgicas imprecações.
—Poderá isso, observou o mineiro, curá-lo da mania de não ouvir os outros que conhecem as coisas.
E voltando-se para Cirino:
—Verdade é que o corpo dele... Que corpo, senhor doutor, tão arvo!... ficou todo empolado que foi preciso esfregá-lo com folhas de fumo. Depois, tomou um banho no ribeirão...
—Tudo estava muito bem, observou Meyer, se caixa não abre e atira no buraco meu trabalho...
—Ora, ficará para amanhã, consolou filosoficamente o camarada.
Pereira, acalmado o frouxo de riso, aproximara-se de Cirino e lhe falava a meia voz:
—Ah! doutor, tive uma vontade de deixar este alamão sumir-se no socavão!...
Se não fosse meu hóspede, enfim, e recomendado de meu mano, palavra de honra pinchava-o de uma vez no inferno... Não sou nenhum pinóia...
—Mas por quê? indagou Cirino simulando admiração...
—O senhor ainda me pergunta?... Porque o homem não me faz senão falar em Nocência... Outra vez me disse que ela era muito bonita e mil coisas.. perguntou se estava casada, se não; que era preciso casar as mulheres para bem delas. Eu lá sei o que mais?... Isto é um bruto perdido... um namorador!...
—Qual, senhor Pereira!...
—É o que lhe digo!... Por acaso sou cobra de duas cabeças(4) que não veja?... Ah! que peso uma filha! Ah! E então uma menina que já está apalavrada... Isto é uma anarquia! Que diria meu genro, o Manecão?...
—Não poderá dizer nada, retrucou o moço. E que diga, não faltará quem queira sua filha...
—Louvado Deus, não decerto! Eu é que não quero que ela ande de mão em mão... Ou casa com o Doca ou...
— Ou... o quê? perguntou Cirino com inquietação, mas fingindo pouca curiosidade.
—Ou mato a quem lhe vier transtornar a cabeça .. Comigo ninguém há de tirar farofa!... E não hei de ter mil cuidados quando vejo este estranja estar com suas macaquices a dar no fraco das mulheres ?
—Por ora, nada fez ele...
—Por ora .. só leva a falar na pobre menina, que a Srª Sant'Ana guarde de todo o mal!... Pudesse eu adivinhar, e macacos me mordam, se punha os olhos em cima de Nocência. Nem que viesse com cartas e ordens do Senhor D. Pedro II .
Chamei o José Pinho, prosseguiu ele em voz baixa e dei-lhe uns toques. — Então, disse-lhe eu, seu amo é o diabo com mulheres, heim? Ele, que é muito ladino, respondeu-me logo. —Nhor-não. —Assuntei a embromação.—Qual, você, carioca, tem levado areia nos olhos. — Eu?... não é capaz.— Então você não tem visto o que faz seu amo? — Tem sido um santo, retrucou o espertalhão. No Rio, sim. —Na Corte?—Nhor-sim, na Corte. Ia todas as noites a uma casa de bebidas, assim uma espécie de venda de muito luxo e lá estava horas perdidas petiscando e conversando com senhoras muito bonitas, bem limpas... algumas com o pescoço e os braços todos à mostra...
—Contou-lhe isso? atalhou Cirino com alguma dúvida e sobressalto. — Contou, afirmou Pereira com furor.
(continua...)
TAUNAY, Visconde de. Inocência. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17500 . Acesso em: 28 fev. 2026.