Por Bernardo Guimarães (1872)
Um belo dia, pois, Umbelina e sua filha tiveram de arrumar a sua trouxa, e de dizer eterno adeus à sua linda casinha, ao risonho e pitoresco vale, ao córrego e às paineiras que por tantos anos tinham sido o abrigo e a companhia de sua feliz e pacífica existência.
Umbelina, por sua parte, de há muito desgostosa e disposta a abandonar aqueles lugares, não sentiu grande pesar em deixá-los; mas a pobre Margarida... essa aí deixava o coração feito em pedaços entre as garras da dor e da saudade. Triste sina era a sua! a sorte desapiedada lhe arrancava até a companhia daqueles sítios queridos, daqueles seres inanimados, que para os outros não tinham valor nem significação alguma, mas que para Margarida tinham uma alma com quem se entendia, uma voz consoladora que com ela conversava mistérios de amor e de saudade.
Quando viu sumirem-se por detrás das colinas a alva casinha, o vargedo, e os últimos topes das figueiras e das duas paineiras, pareceu-lhe que um véu de eterno luto se estendia sobre seu coração, e uma voz lúgubre lhe murmurava dentro da alma: — tudo está acabado!
Assim devia retirar-se Eva, expulsa do paraíso pela espada de fogo do arcanjo vingador, chorosa e a passos lentos, volvendo de quando em quando para o jardim de delícias, que acabava de perder, olhos empanados de lágrimas de indizível angústia. Assim devia retirar-se Eva, sim; porém talvez menos infeliz porque sentia na sua a destra do esposo, que a afagava, e lhe sustinha os passos vacilantes pelas tristonhas e escabrosas sendas do exílio.
Margarida porém, ai dela!... despedindo-se daquele éden saudoso da sua infância, dizia também eterno adeus ao bem querido de seu coração.
CAPÍTULO XVII
Grande é o poder do tempo.
O próprio braço da dor, quando não consegue esmagar a sua vítima, por fim de contas esmorece fatigado, e o seu estilete, por mais buído que seja, acaba de embotar-se.
O físico de Eugênio, graças à mocidade e a uma feliz e sadia organização, tendo resistido aos rudes e continuados golpes de uma dor íntima, e intensa e corrosiva, o espírito como que fatigou-se de sofrer, ou antes habituou-se ao sofrimento.
Uma influência talvez ainda mais forte que o tempo, se bem que por ele auxiliada, contribuiu também grandemente para a salutar modificação que se operou na vida do mancebo. Sua natural tendência à devoção e ao misticismo, que nele constituía também uma paixão, há muito tempo abafada pelos pesares e inquietações de um amor infeliz, acordou finalmente no seio daquela alma ulcerada, e se não pôde acalmar de todo seus sofrimentos e tumultuosas agitações, veio pelo menos dar-lhes um caráter menos sombrio e desesperado.
Eugênio não pôde suportar por mais tempo a triste solidão em que gemia abraçado com a cruz de seu sofrimento. Não sabendo onde achar socorro e consolação para o mal que o flagelava, correu a prostrar-se aos pés do Crucificado, regou-os com suas lágrimas, e beijou-os cheio de contrição e de amor, implorandolhe que lhe acalmasse aquela febril agitação, que lhe queimava o cérebro, e lhe restituísse a paz do coração.
Desde então começou a sentir de novo aqueles celestes enlevos, que as solenidades religiosas outrora lhe despertavam na alma. No templo, aos sons do órgão sagrado e dos hinos religiosos, seu espírito se arrebatava entre as nuvens de incenso sobre as asas do êxtase e pairava pelo empíreo no meio de coros angélicos. O altar inundado de esplendores e de nuvens aromáticas lhe parecia o escabelo do trono de Deus, o único degrau seguro, por onde se pode subir ao conspecto do Altíssimo.
Eugênio, então entrado nos dezenove anos, já não tinha o seu dormitório no salão dos meninos; pertencia à turma dos grandes, e dos que propriamente se chamam "seminaristas" ou candidatos ao sacerdócio: Como tal, tinha portanto o seu cubículo ou cela particular. Ali também entregava-se com fervor a contínuas práticas de devoção e ascetismo, e ajoelhado aos pés da imagem da Mãe de Deus, rezava longamente e deixava o seu espírito perder-se engolfado em santas e beatíficas contemplações, ou lia as páginas ardentes e sublimes de S. Jerônimo ou de S. Agostinho, e os seráficos escritos de S. Francisco de Sales e de S. Teresa de Jesus, tão perfumados de mística unção e de angélica piedade.
A estas práticas de devoção e piedosas leituras vinham se juntar estudos severos das matemáticas, de filosofia e teologia, que lhe iluminavam e robusteciam a inteligência; ao passo que a leitura assídua do Eclesiastes; do livro da sabedoria e dos provérbios de Salomão lhe confortava o coração, e o protegia contra os ataques das seduções e vaidades do mundo.
Mas não se pense que Eugênio enlevado em seus atos de devoção e absorvido em seus estudos havia conseguido esquecer-se de Margarida.
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. O Seminarista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16585 . Acesso em: 27 fev. 2026.