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#Contos#Literatura Brasileira

Histórias e tradições da Província de Minas Gerais

Por Bernardo Guimarães (1872)

– Bem feito! exclamou Paulina com um acento indizível de malicioso prazer; – bem feito: foi castigo de Deus; porque fez tão pouco caso de mim.

– Diz bem, d. Paulina; foi mesmo castigo de Deus. Mas eu não queria parecer-me com ela. Que importa! nada perdi. Juro-lhe, d. Paulina, que depois que vi a senhora foi-me bem custoso não me esquecer dessa moça, e guardar-lhe a fidelidade que guardei.

– Deveras, sr. Eduardo!... pelo que vejo, quer-me bem...

– O meu amor para com a senhora, creio que não é de agora... creio que existia desde a primeira vez; mas ai de mim!... principiou infeliz, infeliz parece-me que vai acabar...a desgraça me persegue... hoje não me é permitido ofertar--lhe o meu amor...

– O seu amor!... exclamou Paulina sentando-se no leito, fitando no mancebo olhos ardentes, e sem atender que lhe apareciam quase nus os alvos seios arquejando-lhe afanosos; era bela assim, bela de amor e de delírio.

– Sim, o meu amor, d. Paulina! o meu amor tão grande, como eu não sei explicar, e que decerto já existia sem eu saber dentro de meu coração, e que hoje rebenta como urna labareda, que eu não posso conter nem disfarçar.

– Ah! veio tão tarde! – disse Paulina suspirando e abanando tristemente a cabeça. – Outro lhe tomou a dianteira... já não me pertenço. Olhe aqui esta face... não vê como está vermelha?... arde-me como uma brasa... foi um beijo, e não foi o senhor que mo deu.

– Um beijo!... quem lho deu?

– Um beijo, sim... foi meu marido...

– A senhora está gracejando... quem é seu marido?...

– Pois não sabe?.., o primo Roberto é meu marido... meu pai mandou-o chamar; ontem ficou tudo ajustado.

– Ah! já entendo, – murmurou Roberto alcançando que as palavras

de Paulina não eram puro delírio como a princípio pensara. – Se assim é, refletiu ele consigo, – não me resta mais esperança alguma.

– É verdade, – senhor Eduardo; – continuou Paulina como que adivinhando e respondendo ao pensamento de Eduardo; – o primo Roberto breve vai se casar comigo... Coitado! vai se casar com um cadáver; a cama do noivado há de ser um esquife... Paulina acompanhou estas palavras de um riso funéreo, que fez estremecer Eduardo; e deixou pender a cabeça.

– Mas esse seu primo será tão duro de entranhas, que queira assim sacrificá-la?

– Mas ele me quer tanto... desde criança...

– Fatalidade! eu também, d. Paulina, eu também, da outra vez que aqui estive, jurei a esse moço que nunca da minha parte poria o menor estorvo ao seu casamento...

– Jurou isso?... meu Deus!... não há esperança mais!... eu já dei-lhe o meu sim; e o senhor jurou-lhe o seu... não, ah! ah! ah!... como isto é engraçado!...

– Mas, d. Paulina, para salvá-la, para possuí-la, tudo devo tentar. Vou entender-me francamente com seu primo, dir-lhe-ei tudo sem rebuço, e se ele tem dignidade e nobreza de alma, deve desistir de sua pretensão, e me desobrigará do juramento que lhe dei.

– Roberto?... duvido; tem por mim um amor furioso... é um estonteado, e tem cabeça dura. Roberto há de se casar comigo, ainda que seja à beira da sepultura.

Nesse momento ouviu-se rumor de falas na varanda. Era Roberto que chegava com o médico. Eduardo tomou a mão de Paulina, e beijou-a ternamente; esta respondeu-lhe apertando estreitamente a dele e cravandolhe um olhar, que continha um treno de ternura, de amor e de sofrimento. Seu espírito começava a serenar-se; sentia inefável prazer em saber que era amada por aquele que seu coração escolhera, e nesse momento de gozo ficaram adormecidas todas as suas mágoas e inquietações, todos os seus sofrimentos físicos e morais.

– Ora pois! – dizia ela consigo, graças ao céu, um momento sequer já fui feliz em minha vida. Agora só me resta resignar-me para sofrer e morrer!

Capítulo XII

Dois verdugos

O médico que viera com Roberto, era um padre. Era muito comum naqueles sertões, onde havia quase absoluta falta de médicos profissionais, os padres exercerem também a medicina, sendo a um tempo médicos da alma e do corpo, reunindo em si dois sacerdócios.

Bom ! – disse consigo Paulina, quando soube dessa particularidade; eu creio que hei de precisar mais do padre do que do médico.

O médico foi logo introduzido no quarto da doente, onde se demorou cerca de um quarto de hora.

– Não há de ser nada, senhor Ribeiro, – disse ele saindo; – a menina teve e tem ainda uma forte febre maligna complicada com alguma irregularidade nas funções uterinas. Com as aplicações e o regimen, que vou prescrever, não corre risco algum, e em breve estará sã. Mas olhe que é preciso muita dieta, e muita cautela... Tais achaques são muito comuns aqui pelo sertão porque os senhores fazendeiros,– perdoe-me o dizê-lo, sr. Ribeiro, – são muito desmazelados na criação de seus filhos; deixam os meninos, como esta por exemplo, em uma idade tão crítica, andarem por aí ao rigor deste sol ardente, molharem-se, apanharem sereno, comerem frutas verdes e fazerem mil outras estrepolias...

(continua...)

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