Por José de Alencar (1872)
- Ora! dizia Guida interiormente ao chegar à casa, que me importa a opinião desse moço a meu respeito! Não tenho juízo?... Mas não ando aos beijos com as flores que encontro! Não pareço uma criança, apesar de ter dezesseis anos?... Se há homens que, mesmo de cabelos brancos, ainda são meninos... Não é de admirar...
Durante o resto do dia não se lembrou do incidente; mas à tarde, a cena provocada por “Sofia” avivou as impressões da manhã, dando-lhes porém novo aspecto. O mancebo, que lhe aparecera de manhã como um pensador grave, mostrava-se agora elegante cavaleiro; por outro lado, ela, que se queixara interiormente da censura do desconhecido, não acabava de a justificar arriscando a vidad e um homem com um de seus caprichos, a posse da cachorrinha maleducada?
Quando Ricardo desapareceu na volta do caminho, uma voz murmurou num cantinho da consciência:
- Ele tinha razão!...
Depois estas preocupações se afogaram de novo no entretenimento da conversa e da música. Só ressurgiram um momento, antes de adormecer, nesse crepúsculo da alma entre a vigília e o sono, quando as impressões do dia flutuam vagamente diante do espírito como objetos que se imegem na sombra.
A imagem de Ricardo beijando a flor perpassou no meio da visão. Nessa hora em que a travessura do gênio alegre já estava sopitada, o coração expandiu-se. Guida pensou que devia ser ardente e sincero aquele amor que exalava, no ermo, à face de Deus; talvez fosse um amor infeliz. Se eu pudesse saber a sua história!
Adormeceu; e sonhou que encontrara a florzinha agreste cor de ouro, e que esta lhe contara a razão por que o moço a beijava. Mas de manhã não se lembrava mais da história; só lhe ficara a imagem fugitiva do sonho.
As moças afagam muito os sonhos, quase tanto como costumam as mães aos primeiros filhos. A razão é porque os sonhos são os primeiros filhos da imaginação da menina que chega à adolescência. Os desejos vagos, as tímidas esperanças, os perfumes do coração, que não se animam a exalar-se durante o dia, rescendem à noite, no abandono do sono, como o aroma de certas flores que só abrem com o orvalho.
Guida ocupou-se durante o dia com o seu sonho; e passando pelo mesmo lugar onde na véspera encontrara Ricardo, desejou ver a flor e conhecê-la. Viu com efeito; achou-a muito linda; desde esse dia ficaram amigas. Sempre que vinha desses lados quebrava alguns ramos, que levava consigo.
A lembrança de Ricardo se apagara completamente do espírito de Guida, e do primeiro encontro não restava outro vestígio senão a afeição à linda florzinha agreste, quando o encontro na “Cascatinha” veio debuxar outra vez a reminiscência fugitiva. Guida, que já havia notado o garbo e a beleza do “Galgo”, pôde então contemplá-lo a seu gosto; e a estampa do lindo cavalo foi a recordação que lhe ficou desse domingo.
Mais tarde o acaso lhe deparou a ocasião de ver a aquarela do álbum de Ricardo. A suspeita ou pressentimento de que o desenho representava seu vulto a cavalo, excitou-lhe vivamente a curiosidade. Ela daria sem hesitar o mais querido dos seus caprichos, “Edgard” ou “Sofia”, para ver aquela paisagem.
A imagem de Ricardo, passada a primeira impressão, desmaiava a pouco e pouco. Os últimos encontros já não lhe destacavam os contornos: o vulto do desconhecido permanecia vago, indistinto, no fundo das reminiscências da moça. Fora um homem, um homem qualquer, que passara um momento no horizonte de sua existência, e só lhe aparecia agora como uma sombra.
O que estava bem gravado na alma de Guida, o que ela afagava em algum momento de cisma, não era o moço, não; mas coisa muito diversa. Era a linda flor agreste, a quem amava; era o formoso cavalo, que desejava ardentemente possuir; era finalmente a aquarela do álbum, que ansiava por ver Ricardo não figurava nas recordações da menina, senão como um amigo da flor amada, como o dono do cavalo cobiçado, e o autor do desenho misterioso.
Sem dúvida era agradável ao espírito de Guida que a pessoa ligada a ela por essas relações, fosse um moço distinto pela inteligência e educação. Nas poucas vezes que de relançe vira o advogado, a moça tinha reconhecido ou antes pressentido nele com o tato da mulher os dotes do espírito e do coração. Por isso consentia que a lembrança do desconhecido se associasse em sua memória aos objetos de seu desvelo.
O encontro daquela manhã não mudara a situação do espírito de Guida. Ricardo dera novamente provas de delicadeza e galanteria; deixara de ser um desconhecido, para assumir a posição digna que lhe davam um grau científico e uma profissão nobre; mas seus títulos ao interesse especial da menina continuavam os mesmos. Se não fosse a flor, o cavalo e o desenho, passaria desapercebido aos olhos da filha do milionário, ante a qual de curvavam diariamente tantas distinções do talento, da posição e da riqueza.
(continua...)
ALENCAR, José de. Sonhos d’Ouro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1849 . Acesso em: 27 jan. 2026.