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#Romances#Literatura Brasileira

A Moreninha

Por Joaquim Manuel de Macedo (1844)

— Não, tornou Filipe, sempre em voz baixa; aturdidas pelo caso repentino e preocupadas pela sobriedade desta mulher, nenhuma delas quer ver o que está diante de seus olhos, nem sentir o cheiro que lhes está entrando pelo nariz; minha irmã ficaria inconsolável, brigaria conosco e não nos acreditaria, se lhe disséssemos que sua ama se embebedou; e portanto, podemos aproveitar as circunstâncias para zombar de todas elas e divertir-nos fazendo uma conferência.

— Oh, diabo! ... isso é catecismo dos charlatões!

— Ora, não sejas tolo… não pareces estudante; devemos lançar mão de tudo o que nos possa dar prazer e não ofenda os outros.

— Mas que iremos dizer nesta conferência, senão que ela está espirituosa demais? perguntou Augusto.

— Diremos tudo o que nos vier à cabeça, ficando entendido que as honras pertencerão ao que maior número de asneiras produzir; o caso é que nos não entendam, ainda que também nos não entendamos.

— Há de ser bonito, tornou Augusto, à vista de tanta gente, que por força conhecerá esta patacoada.

— Qual conhecer?... Aqui ninguém nos entende, tornou Filipe, que, voltandose para os circunstantes, disse com voz teatralmente solene:

— Meus senhores, rogamos breves momentos de atenção; queremos conferenciar.

Movimento de curiosidade.

Seguiu-se novo exame da enferma, no qual os quatro estudantes fingiram observar o pulso, a língua e os olhos da doente; auscultaram e percutiram-lhe o peito e fizeram todas as outras pesquisas do costume.

Depois eles se colocaram em um dos ângulos do quarto; Filipe teve a palavra. Profundo silêncio.

— Acabastes, senhores, de fazer-me observar uma enfermidade que não nos deixa de pedir sérias atenções e sobre a qual eu vou respeitosamente submeter o meu juízo. Poucas palavras bastam. A moléstia de que nos vamos ocupar não é nova para nós; creio mesmo, senhores, que qualquer de vós já a tem padecido muitas vezes...

— Está enganado.

— Não respondo aos apartes. Eu diagnostico uma baquites. Concebe-se perfeitamente que as etesias desenvolvidas pela decomposição dos éteres espasmódicos e engendrados no alambique intestinal, uma vez que a compressão do diafragma lhes causa vibrações simpáticas que os façam caminhar pelo canal colédoco até o periostio dos pulmões...

— C’est trop fort!...

— Daí, passando à garganta, perturbam a quimificação da hematose, que por isso se tornando em linfa hemostática, vá de um jato causar um tricocéfalo no esfenóide, podendo mesmo produzir uma proctorragia nas glândulas de Meyer, até que, penetrando pelas câmaras ópticas, no esfíncter do cerebelo, causa um retrocesso prostático, como pensam os modernos autores, e promovem uma rebelião entre os indivíduos cerebrais: por conseqüência isto é nervoso.

— Muito bem concluído.

— O tratamento que proponho é concludente: algumas gotas de éter sulfúrico numa taça do líquido fontâneo açucarado; o cozimento dos frutos do coffea arábica torrados, ou mesmo o thea sinensis; e quando isto não baste, o que julgo impossível, as nossas lancetas estão bem afiadas e duas libras de sangue de menos não farão falta à doente: disse.

— Como ele fala bem, murmurou uma das moças.

Fabrício tomou a palavra.

— Sangue! Sempre sangue! Eis a medicina romântica do insignificante Broussais! Mas eu detesto tanto a medicina sanguinária, como a estercorária, herbária, sudorária e todas as que acabam em ária. Desde Hipócrates, que foi o maior charlatão do seu tempo, até os nossos dias, tem triunfado a ignorância, mas já, enfim, brilhou o sol da sabedoria... Hahnemann... Ah! Quebrai vossas lancetas, senhores; para curar o mundo inteiro basta-vos uma botica homeopática com o Amazonas ao pé!... Queimai todos os vossos livros, porque a verdade está só, exclusivamente, no alcorão de nosso Mafoma, no Organon do grande homem! Ah! Se depois do divino sistema morre por acaso alguém, é por não se ter ainda descoberto o meio de dividir cm um milhão de partes cada simples átomo da matéria! Senhores, eu concordo com o diagnóstico de meu colega, mas devo combater o tratamento por ele oferecido. Uma taça de líquido fontâneo açucarado, e acidulado com algumas gotas de éter sulfúrico, é, em minha opinião, capaz de envenenar a todos os habitantes da China! O mesmo direi do cozimento do coffea arábica...

— Mas por que não têm morrido envenenados os que por vezes os têm tomado?...



(continua...)

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