Por Bernardo Guimarães (1872)
Lisonjeado com os elogios feitos ao filho, Antunes aplaudiu e aceitou o conselho e deu-se pressa a pô-lo em execução. Sabendo que Luciano, aquele que tivera a pendência com seu filho, conservava ainda a mais viva inclinação por Margarida, e que, pondo de parte a sua fatuidade e arrogância, era um excelente rapaz, morigerado e trabalhador, tanto ele como a senhora Antunes começaram a dar passos com grande empenho e diligência no intuito de efetuar aquele casamento. Baldados porém, ficaram todos esses esforços. Margarida resistiu inabalável a todos os conselhos, exortações, repreensões, desenganos, promessas e até às ameaças de maldição por parte de seus padrinhos e recusou-se obstinadamente a aceitar marido fosse ele qual fosse.
Outrora Umbelina tinha afagado no espírito a esperança e acreditava na possibilidade do futuro enlace dos dois meninos, Eugênio e Margarida. Não via na pobreza desta embaraço sério para isso, e quanto à linhagem, ela a viúva de um alferes dessa brilhante cavalaria mineira, a nata do exército, onde não se alistava senão gente de sangue limpo e de família honrada, e da qual o simples soldado era tão respeitado e respeitável como hoje um capitão, ela em nada se julgava inferior aos Antunes.
Mas Umbelina não era mulher de têmpera a seguir com tenacidade uma idéia, nem lutar com dificuldades. Logo que viu o vivo desejo, que mostravam os pais de Eugênio para fazê-lo padre, desvaneceram-se suas esperanças, e nem pensou mais no desejado enlace.
Contudo, não deixou de aconselhar à filha que acedesse à vontade de seus padrinhos, mas com tão pouca insistência, que parecia inteiramente neutral naquele negócio. O comportamento de seus compadres para com ela, desde a desagradável ocorrência do mutirão tinha revoltado o seu orgulho, e era com maus olhos que via a interferência, que queriam exercer nos negócios de sua casa.
Margarida, a pobre Margarida, via eclipsar-se para sempre e sem remédio a estrela de suas esperanças no seio de um fúnebre e sinistro negrume, que de mais em mais se condensava sobre sua cabeça. A alegria e o sossego fugiram daquela alma, onde a saudade e o pesar se aninharam para sempre. Ela via que os elementos revoltos só preparavam tempestades no horizonte de sua vida, e conspiravam de modo assustador para desunir dois destinos, que o céu parecia ter criado para se desenvolverem e se extinguirem ao lado um do outro, e não podia encarar sem horror esse futuro, onde a estrela de sua felicidade pálida, e incerta vacilava à borda de um horizonte tenebroso. Tinha crença firme no amor e nas promessas do seu querido; mas não tinha fé no destino, nesse poder implacável, e tirânico, que zomba dos mais firmes protestos e das juras mais leais.
Sofrendo cruelmente, Margarida procurava esconder aos olhos de sua mãe a violência e amargura de seus martírios.
Se não fosse a sua feliz e robusta organização e a têmpera forte do seu espírito, teria sucumbido ao peso de tantos pesares e aflições.
Eugênio e Margarida eram como dois lindos arbustos de viçosa e opulenta folhagem, que nasceram bem junto um do outro; as raízes se entrelaçaram no mesmo alvéolo, nutrindo-se da mesma seiva, e os ramos balançados pela mesma vibração se abraçaram e confundiram no ar. Um imprudente e desalmado cultor, pensando que lhes era nociva aquela vizinhança entendeu que devia separá-los, e arrancando um deles o transplantou para longe. Para isso foi mister lacerar desapiedadamente as raízes de ambos, e um e outro largaram pelo chão as folhas murchas, penderam para a terra os nus e ressequidos galhos, e não houve bafejo da primavera, orvalho benfazejo nem sopro de brisa vivificante, que pudesse restituirlhes o perdido viço e louçania.
Vendo a invencível relutância da filha e a fria indiferença da mãe, Antunes, cheio de indignação, tomou de acordo com sua mulher a resolução de expulsá-las da fazenda.
— Desaforo! — exclamava o velho inchando as bochechas e bufando de cólera ao que parece, a tal comadre pensa que estou gastando dinheiro e apurando a paciência com a educação do menino para dá-lo em dote à sua pequena!.. ora não falta mais nada! é isso!... outro não é o motivo, por que embirram em não querer nem que se fale em casamento; que malucas!...
— Que dúvida! — acrescentava a mulher — rua com elas e quanto antes!...
a tal comadre de uma figa, se não quer casar a filha é porque não quer-se desfazer daquele engodo, que lhe chama à casa os fregueses. Saindo a Margarida, adeus súcias e bebedeiras! adeus jogos e pandeiradas, em que os filhos-famílias vão atirar fora o dinheiro de seus pais... e é isso o que a ela não lhe faz conta.
— Lã isso também pode ser; mas o fito principal da patusca era filar-me o rapaz; isto ninguém me tira do sentido... até consta-me que o menino, depois que expressamente lhe proibimos pôr lá os pés, quando já todos aqui dormiam, fugia sorrateiramente da casa e lá ia passar quase todas as noites!... e que me diz a esta, heim, senhora?...
— Deveras, senhor Antunes!... o que me está dizendo?... homem!... veja que víbora traiçoeira admitíamos dentro de casa! Nada! nada! nem mais um momento quero ver essa mulher perto de nó.... é a serpente! é o diabo em pessoa!...
Assim, pois, ficou irrevogavelmente proferida a sentença de banimento das duas infelizes mulheres, sentença dura e injusta em todo o ponto, e que não tinha outra base mais do que a infundada prevenção dos dois fanáticos esposos. É verdade que Umbelina, como dona de uma pequena bodega à beira da estrada, tinha de tolerar sem remédio a reunião em sua casa de muita rapaziada vadia e turbulenta, que lá se agrupava por vezes aos domingos, e armava algazarras e rara vez algum pequeno distúrbio.
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. O Seminarista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16585 . Acesso em: 27 fev. 2026.