Por Bernardo Guimarães (1872)
Leonel retirou-se para sua casa, respirando vingança, mas aterrado dentro d’alma com o aparecimento fatal daquele moço.
XI – DE MAL A PIOR
Elias tinha gasto cerca de quatro meses em sua viagem do Sincorá à Bagagem. Quando disse a seu hóspede que apanhara febres intermitentes na margem do S. Francisco, não tinha mentido, se bem que naquela ocasião nada sentisse que delas procedesse. Essas sezões que apanhou em caminho foram que, com grande desespero seu, demoraram-lhe a volta por mais de dois meses.
Durante esse penível trajeto foi que o público e o governo brasileiro deram fé da grande quantidade de notas falsas que tinham sido introduzidas na circulação, e que se começaram a dar as mais enérgicas providências para descobrir e capturar os fabricantes e introdutores da moeda falsa. Esta notícia, porém, ainda não tinha penetrado pelos sertões que Elias tinha de atravessar do Sincorá a Bagagem; por isso ao chegar a esta povoação pôde ter conhecimento da abominável fraude de que fora vítima.
Leonel era um dos agentes mais audazes e ativos dessa sociedade de moedeiros falsos, cujo centro existia na Bahia e que se ramificava pelo império inteiro.
Por aí já se pode avaliar de que têmpera era a consciência daquele homem, e de que perversidades não seria capaz. Tinha porém o dom de ocultar sua perversidade debaixo das mais brilhantes e sedutoras exterioridades, e a todos iludia e fascinava.
Depois de ter passado centenas de contos de notas falsas no Sincorá e em outros pontos de sua província, assentou de percorrer outros pontos do império, prosseguindo em suas criminosas especulações. Girando assim constantemente, e no caso que ela lhe quisesse deitar a garra, pôr-se- ia a salvo atravessando o Atlântico. Na Bagagem, porém, o atrevido cavalheiro de indústria achou nos olhos de Lúcia um engodo irresistível, que o deteve nessa localidade por mais tempo do que desejava. Logo que a viu, tomou-se de uma paixão cega pela moça, não inspirada por um casto e sincero amor, mas filha desse desejo material e libidinoso das almas libertinas, e jurou possuí-la custasse o que custasse. Para logo conheceu a impossibilidade de seduzir e lançar no caminho da desonra aquela alma tão nobre, aquele coração tão casto.
mas o casamento, para Leonel, era um meio tão simples como outro qualquer de trazer-lhe aos braços a mulher que cobiçasse. Abandona-la depois, onde e quando quisesse, era para ele também negócio de bem pouca ponderação. Entregue à descuidosa cegueira que resulta da prosperidade e da opulência, nem pensava na possibilidade de encontrar naquelas paragens alguma das vítimas de suas fraudes, e quase que já nem se lembrava de Elias, e, ou ignorava ou já não se recordava de que país era ele. Estava além disso persuadido que nos sertões as leis e a justiça são impotentes contra quem quer que tenha na carteira algumas centenas de contos de réis.
O escandaloso incidente, que tinha tido lugar em casa do Major, fizera viva impressão no espírito da população, que em peso estigmatizava o ato violento de Elias. O Major, cheio de indignação e de susto ao mesmo tempo, era o mais empenhado em exigir a punição de tal atentado, a despeito da oposição de Leonel, que clamava em altas vozes que dispensava a vindita das leis, e que ali ou em qualquer parte saberia desforrar-se cabal e categoricamente.
Elias, que na Bagagem poucas relações tinha, passou aos olhos de todos por um louco, um desmiolado. O horrível logro de notas falsas, de que fora vítima no Sincorá, já tinha sido divulgado, mas nem assim o público quis se convencer que Leonel pudesse ter a mínima parte naquele acontecimento, tal era a satânica habilidade deste para embair a todos e captar a geral estima e confiança. Esse fato, longe de escusar a Elias, serviu para explicar e confirmar a convicção em que muitos estavam, de que o rapaz endoidecera.
Ainda outra circunstância contribuiu para dar mais vulto a essa convicção. O Major tivera a ingenuidade de revelar em presença de muitas pessoas a paixão de Elias por sua filha.
- Bem conheço o motivo de tudo isto, disse ele, este pobre rapaz há muito tempo gostava de Lúcia, e parece que tinha a louca pretensão de casar-se com ela. A paixão e o desejo transtornaram-lhe a cabeça, coitado! tenho pena dele; mas não devo tolerar que fique impune semelhante desacato.
Assim o infeliz Elias, para cúmulo dos males, era objeto da compaixão desdenhosa de uns, dos motejos de outros, e do ódio de alguns. Somente o negociante, em cuja casa se hospedara, e a quem tinha contado sua triste aventura, tinha motivos para não acompanhar a opinião do vulgo; mas, homem de espírito fleumático, não querendo ir de encontro ao parecer de ninguém, guardava para si sua convicção, esperando que o tempo viesse deslindar aquele negócio, o que julgava que não poderia tardar muito.
-tantos contratempos viraram-lhe a bola, dizia um.
- Era um rapaz pacífico e prudente, ajuntava outro, não sei que diabo lhe entrou na cabeça para fazer aquela estrada!
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. O Garimpeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1776 . Acesso em: 26 fev. 2026.