Por Bernardo Guimarães (1872)
– Escute ainda, senhor Ribeiro; tenha paciência; devo dizer-lhe tudo; se naquele tempo eu tinha meu coração e minha palavra empenhada a uma mulher, hoje a tenho empenhada a um homem...
– Como assim?... não o entendo; tenha a bondade de explicar-se melhor.
– Pois não sabe o senhor Ribeiro, que num dia seu sobrinho tomado de ciúmes, sem que eu desse motivo algum, cuidando que eu fazia a corte à sra. d. Paulina, veio me tomar satisfações; e que eu para livrá-lo do engano e da aflição em que o via, em termos de fazer alguma loucura, protestei-lhe que não tinha o menor amor à senhora sua filha, – e não tinha, pelo menos eu então assim o acreditava, – e jurei-lhe pelas cinzas de meu pai que nunca serviria de estorvo ao seu casamento com a mesma senhora?...
– Não, senhor; nunca ouvi falar em tal coisa.
– Pois é a verdade desgraçadamente, e agora... tenho os braços atados.
– Mas que tem isso?... que importa esse juramento, se Paulina não quiser casar-se com ele?...
– Contanto que não seja eu que o estorve...
– E será ele tão mau, tão desalmado, que queira sacrificar sua prima?...
– Não sei, senhor. – A verdade é que dei-lhe o juramento; desse juramento só ele pode desobrigar-me.
– E que remédio terá ele, se nem eu, nem Paulina quisermos aceitá-lo?... Vamos, meu amigo, vamos ver a pobre menina; ela está sempre a falar no seu nome. Veja se a pode tranqüilizar. Engane-a mesmo, se tanto é preciso, dê-lhe uns toques de esperança. Viva ela enganada por algum tempo; que mal faz isso? depois quando estiver mais forte e bem disposta, com vagar e cautelosamente a irei desenganando.
– Ah! senhor Ribeiro, não sou capaz de enganar a ninguém, quanto mais a ela. Se me permite, irei dizer-lhe toda a verdade; irei dizer-lhe, que a amo muito... que a maior, a única felicidade minha neste mundo depende dela...
– Deveras, senhor Eduardo?... atalhou o velho com alegre sobressalto, – que estou eu ouvindo?... então a quer bem?...
– Muito, senhor Ribeiro, muito! mas... de que serve?...
– De que serve?!... não compreendo tal pergunta...
– E o juramento...
– Pelo amor de Deus, não me fale em tal juramento! Vamos, meu amigo, continuou Ribeiro com alegre sofreguidão, – vamos visitá-la.
Ribeiro tomou o moço pelo braço, conduziu-o até a porta do quarto de Paulina, que se achava sentada sobre a cama, impeliu-o de manso para dentro dizendo a sua filha: – Paulina; aqui está o sr. Eduardo, que vem fazer-te uma visita;– e retirou-se.
O bom do velho, ao saber que Eduardo adorava sua filha, e que nenhum impedimento havia mais para que se casasse com ele, exultava de contentamento, e tinha como já realizada a cura e a felicidade de sua filha. Quanto ao juramento, esse não lhe dava muito cuidado, porque não fazia idéia da importância que Eduardo ligava a ele, do fanático aferro e tenacidade de paulista com que guardava um juramento.
– Ah! é ele! é ele ainda!?.. exclamou a moça apenas avistou Eduardo, – que vem fazer aqui este homem?...
– Não lhe dizia eu? – disse Eduardo para o pai de Paulina, que se ia retirando, – a minha presença a incomoda.
– Não creia tal; – disse-lhe o velho em voz baixa;– deixe-se ficar por algum tempo, tenha paciência. Minha filha, continuou voltando-se para Paulina; – o sr. Eduardo não te quer fazer mal algum; ele te estima muito, e não procura senão meios de salvar-te. Ditas estas palavras o velho retirouse.
– Salvar-me ele! exclamou Paulina com um ar de insânia e um sorriso indizível. Tomara eu que ele me salve de si mesmo! aqui não há nenhuma onça, e é só das onças que ele sabe me salvar.
– Quem sabe, d. Paulina? – disse Eduardo com um triste sorriso, sentando-se em um tamborete junto à cabeceira da enferma. – Deus ainda pode permitir que eu a salve de outros males. Por quem é, não me queira mal... diga-me, vai se sentindo melhor?...
– E que lhe importa?... eu não tenho nada... Como vai a sua querida lá da Franca? seguramente já se casaram, não é assim?...
O delírio de Paulina exaltava-se com a presença de Eduardo; suas palavras desassisadas, seus olhares desvairados dilaceravam o coração do mancebo que já se arrependia da visita, que por condescender com o velho lhe viera fazer.
– Por compaixão, – respondeu-lhe o moço, – não me fale nisso, d.
Paulina, essa mulher morreu para mim...
– Morreu?... pois que tem isso? eu também não vou morrer?... não sabe? esta noite sonhei com ela... estava em uma sala de baile... vestida com um luxo e uma riqueza de espantar... começou a dançar uma valsa com o senhor... de repente foi-se virando em um dragão medonho, enroscou-selhe por todo o corpo, e começou a lhe morder a nuca... o senhor dava gritos desesperados, mas todo o mundo fugia espavorido; eu fiquei só e queria lhe acudir; mas meus pés estavam agarrados no chão, e meus braços não podiam mover-se; queria gritar, também não podia; teria morrido sufocada se meu pai, que estava perto de mim, não me acordasse...
– É singular!... ah! d. Paulina, esse sonho...
– Que tem esse sonho?...
– É uma imagem da realidade. Essa mulher era mesmo um dragão; atraiçoou-me;... achei-a casando-se com outro.
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. Histórias e tradições da Província de Minas Gerais. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2142 . Acesso em: 24 fev. 2026.